Da senzala à Sapucaí

Vi nos últimos dias muitas pessoas comemorando o fato da globeleza aparecer vestida na vinheta do carnaval deste ano, com roupas de apelo cultural. Nada me espanta que a maioria das comemorações partiram principalmente de mulheres brancas. O feminismo tem lado e isso é claro.

A Globo que vestiu pela primeira vez uma negra para o Carnaval, é a mesma que ostentou a hiperssexualização do corpo da mulher negra por longos 25 anos na TV aberta, mostrando nossas curvas e nos colocando como desinibidas atrás de pinceladas coloridas pelo corpo, que por sua maioria de anos foi dirigida por um homem, branco, cis e hétero.

Toda essa admiração é pela mesma Globo que em toda a nossa infância, colocou brancas e loiras como protagonistas de seus programas e novelas, sem representatividade negra durante toda uma vida. Nós, mulheres negras, que já fomos também meninas, nunca tivemos a chance de sermos paquitas, afinal a nossa cor já nos barrava no primeiro pensamento de tentarmos e o máximo que conseguiram fazer por nós, foi colocar a Bombom no palco, obviamente com menos roupas que as outras. Só esse fato já explica muita coisa. 

A Globeleza nunca passou de publicidade para vender o maior Carnaval no mundo, onde curiosamente a Globo é dona da transmissão, com patrocínios milionários, coisa que vale salientar. Nada vende mais do que o corpo de uma mulher. Como figura, existiam outras opções, mas foi logo a mulher negra a escolhida, que não por coincidência é a que mais sofre exploração sexual no mundo.

De nós, muito já nos foi tirado e o que não foi, só não foi porque nunca nos foi dado. A gente continua torcendo que se importem tanto com a exposição do corpo da mulher negra não só no carnaval, da mesma forma que se importam com a exposição de brancas em comercial de cerveja. Vamos entender que a ‘vitória’ de uma mulher, não é a ‘vitória’ de todas. Tá na hora da gente repensar o nosso posicionamento, porque a hiperssexualização do corpo da mulher negraí, a gente vai continuar vendo por aqui.

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