Sobre ter coragem (ou, simplesmente, encarar a vida como ela é)
Passamos muito tempo nos preocupando com tudo (ou com um monte de ‘nada’). Fingindo que coisas idiotas têm importância. Nos distraindo. Porque olhar pra vida, com sinceridade, pode ser uma tarefa das mais cruéis.
Há dois meses estava de barriga pra baixo, pronta pra entrar no tubo da ressonância. Não sentia medo. Sei lá o que eu sentia. Mas me lembro de fazer de tudo para não tremer e de ficar repetindo pra mim mesma, na minha cabeça: “você tem coragem”. “Cara, você tem coragem”.
Torci para passar rápido. Passou.
Há algum tempo, venho vivendo a vida como uma alcoólica anônima (no sentido figurado, apesar dos drinks): um dia de cada vez. Uma batalha por vez. Já enfrentei algumas. Sobrevivi a todas.
A notícia de ter uma mutação genética que me coloca num grupo de alto risco para uma doença nada legal mudou minha vida. Arrasou algumas noites de sono. Suspendeu planos. Me trouxe outros.
Me deu algo que nem sabia que eu tinha: determinação. Chamei de coragem algumas vezes. Meio que pra me auto motivar. Meio que pra me sentir meio heroína no meio de uma fase ruim. Foquei na Angelina Jolie.
Mas aí, naquele mesmo tubo de ressonância, me liguei de que não se trata de coragem quando é a SUA vida em jogo: é instinto de sobrevivência. É uma vontade nítida de não entregar os pontos. De não ser vítima da própria (falta) de sorte.
Na loteria da vida, vim com o bilhete premiado. Maeu prêmio foi a oportunidade incrível de lutar. De encarar a vida como ela é. Complicada, complexa, dura sometimes. Mas minha. E minha somente.
E, se tenho tomado (assim como toda a humanidade, todos os dias) umas porradas dessa mesma vida, aviso: estou aqui. Pode vir. Não vou me entregar.
