Masao Yamamoto

Eu me apaixonei pelos seus cotovelos

Os braços amarelos da noite, ele os perseguia da janela. Não sabia se eram braços de homem ou mulher, não importava, não pareciam humanos, pontudos como a orelha de um elfo. Apoiados na vidraça, atendendo a porta, acendendo o fogão, varas de pele segurando o cigarro em sua queima sexual. Como seria fazer amor com cotovelos afiados, ele pensava, será que o sangue vertido teria a cor das lulas, o rosado que lembra ligeiramente o amor?
 — Você sabe quem mora lá? — a vizinha meneava a cabeça à pergunta. 
Quando ele acordava era um bicho que se arrastava no escuro, encostando a boca babada no vidro. Punha as cuecas, resoluto, certo que finalmente atravessaria a rua que separava os dois prédios. 
Mas à tarde sentava na cama, esvaído, como se a coragem que o fizesse levantar também diluísse em pó as juntas. Amanhã ele iria. Amanhã nunca iria. Havia claras obrigações, afazeres, contas avalanche se amontoando na porta. 
Pela noite, os cotovelos teciam uma mortalha de ciúme. Por entre os prismas de luz barata do strobo ouvia os cotovelos descuidados baterem em quinas e bêbados caírem nos braços da poltrona azul. Via-os dormentes, num ângulo de quarenta e cinco graus, próximos do rosto sempre sombra. Sonhava derrubá-los na cama desarrumada, pondo-os entre os dentes até sentir a carne se desligar do osso. 
 — Você sabe quem mora lá?
 — Não conheço, mas escutei que irá se mudar.

Ele se viu ante uma porta abismal. Tocou a campainha com o desejo de que nada acontecesse, que dessem tempo, porque não era justo, pessoas levavam tempo para se gostar e a ele bastara uma olhada pela janela. Não querendo saber de justiça, a maçaneta virou. 
- Você é o homem da mudança? -os cotovelos perguntaram, flexionando timidamente a pele fina de galinha depenada.
 Os cotovelos pertenciam a braços gordos de uma mulher de olhos puxados. Dentro deles enxergou a tristeza de um colegial solitário, uma faculdade frustrada de matemática e as fotografias meia-boca que haviam financiado o apartamento. 
 — Você é o homem da mudança? — insistiram os cotovelos. — Você está atrasado.
Todos os movimentos braçais que ela fazia tornavam seus cotovelos atraentes. Teve vontade de chorar quando ela arregaçou as mangas. 
 — Ande logo com isso, sim — ela pediu sem rudeza, apontando uma caixa. — Se puder guardar os rolos de filme, eles já ficaram expostos por muito tempo.
 Assim o fez, tomando o cuidado de ver os negativos, sem achá-los particularmente interessantes. É fotógrafa, perguntou, ela por entre o cigarro murcho fez que sim. 
 — Não sei se alguém pode dizer que é alguma coisa, mas é o mais próximo do que sou. Tome cuidado com a câmera.
Manuseou-a receoso como se fosse um inseto gigante dos programas de natureza da televisão. 
 Apontou a câmera para ela: — Vai para onde? 
 Ela estranhou a intimidade da pergunta, mas não da lente. Ajeitou os braços na cintura, pronta para posar.
 — Eu ainda não conheço o destino. Primeiro, para um hotel. São tantas coisas, depois decido; se eu não ficar me mudando, crio raízes como um carvalho. Dói muito arrancá-las. 
 Ele, que nascera no mesmo apartamento, vira o avô morrer nele, sua primeira ejaculação grudar leitosa na parede, sentiu-se uma árvore indigna. 
- Há fotos?
 -Sim, umas poucas poses. Quer experimentar? Pode fotografar minha mudança. Tire fotos de eu perambulando por aí. 
 Os cotovelos eram finalmente seus. Ela arrumou a cama pela última vez, desligou as torneiras, não antes de deixá-las encharcar o banheiro, dizendo que os próximos moradores eram advogados e que não havia gente pior. Abraçou sem vergonha o armário de mogno. 
- Você guarda o equipamento, preciso cagar antes da vinda dessa gente limpa. 
Seu último clique foi o cotovelo contrastando com o ladrilho gasto do banheiro.

Ele passou a manhã toda trabalhando e a cola fez suas mãos lembrarem a de um manequim de loja. Vestiu as cuecas sem hesitação. Tinha que comprar pão. Cobriu as janelas com fotos de colossais cotovelos e não bateu mais sol em sua janela. Era como amar uma gigante.