Obscure, de Daehyun Kim

Samurai

Olhando a foto, ele entendeu que tinha que prender o cabelo. Mas como, um cabelo tão ralo, zombado pelos garotos da escola porque pendia circular sobre a testa, deixando-o com aparência de um índio sem escolha. Não era comprido o suficiente, não para fazer um coque, por mais que o repuxasse até a testa doer.
- Carlinhos, desse jeito você vai ficar careca.
- Careca não e meu nome não é Carlinhos, é Carlos. A partir de hoje eu sou um samurai, mas você pode me chamar pelo primeiro nome, tia.
Ser samurai é proteger, entendeu do amontoado de caracteres magros e armaduras cintilantes de seu álbum de figurinhas: proteger a casa assombrada, as lesmas que deixavam xixi prateado nas samambaias e a tia-avó que não sabia do câncer do tamanho da acerola crescendo em seu seio e que a mataria muito cedo.
Samurais morrem pela honra, aprendeu por meio de uma imagem que gostava menos. Pela honra, eles abriam as próprias barrigas com a espada e enquanto seus intestinos enrolavam como cobras vermelhas no chão, um amigo cortava fora suas cabeças. Como pretendia ser sempre honrado, devolvendo borrachas emprestadas e comendo as verduras mais escuras, não enfrentaria uma morte parecida.
Carlinhos fez o melhor que pôde. Sua tia-avó o observou deixar o quarto trajando um de seus robes favoritos, chinelos de plataforma e um meio rabo-de-cavalo. Ela continuou a cozinhar, pensando que não se podia evitar a loucura que percorria como glóbulos o sangue da família.

A bomboniere em chamas e os doces nas prateleiras derretendo em lava cor-de-rosa, azul-bebê e verde-limão. Não sabia porquê tinha o mesmo sonho tantas vezes desde que decidira ser samurai, mas tomava como um sinal de que era um lugar a ser guardado com unhas, dentes e espadas — no seu caso uma espada de madeira que seu tio-avô confeccionara resmungando. No canto da loja, olhos puxados e um sorriso debruço de lábios sobre gengivas desdentadas, o dono a tudo vigiava. Carlinhos tinha medo, como tantas crianças do bairro, mas não como toda criança do bairro, devia demonstrar coragem. Começou então sua ronda pelo corredor de pirulitos.
Estava tudo bem, os doces nos potes e as crianças com as mãos no bolso. Passou para a ala dos salgadinhos. Um adulto apertava as embalagens metálicas, mas sem levá-las, contentando-se com o estranho jogo de amassar Doritos. Censurou-o com o olhar, mas quando o recebeu de volta, percebeu que era seu vizinho, um homem que ele não entendia porque se agachava no muro e fumava cachimbos de vidro. Resolveu deixar para lá.
O corredor das balas era o mais cheiroso e mais maldoso pelo o que havia em seu fim. Elas tinham cores impossivelmente ternas, da cor dos algodões doces e dos filhotes de bicho. Esperando no alinhamento final dos corredores, o dono estava sentado em um trono de plástico. Ele levantou-se e foi na direção de Carlinhos. Não queria enfrentá-lo, queria mais que o velho morresse e que sua sabedoria pairasse se misturando aos doces, dando-lhe força e vitalidade.
Em seus movimentos vagarosos, o dragão-de-komodo veio em paz. Pegou duas balas da prateleira mais alta e inalcançável, abriu-as com a calma de quem está perto da morte e enquanto colocava uma na boca, deu a outra para Carlinhos. Era um sabor desigual, um elixir inesperado. Tinha gosto de laranja mas também de fogo. Chupou-a sem conseguir entender nada daquela trégua. Abaixou sua espada. A boca de lagarto do velho se curvou e sua língua lambeu delicadamente o canto dos lábios, emitindo um pedido que ele só se lembraria no futuro.
- Não pule. Faça o que quiser fazer, mas não pule.
O dono retornou ao seu trono como se não houvesse dado ao menino o doce mais doce e quente que já existiu. Se antes esperava um sinal, era esse. Não seria advogado, muito menos médico, se fosse para cortar, seria para matar, porque seria para sempre um samurai.

As habitantes mais antigos do sobrado de cimento exposto eram as lesmas, entidades desafiadoras do tempo. Sobreviviam a tudo, como um samurai deveria sobreviver. Mais inimiga que a lâmina era o sal que sua tia-avó jorrava nelas, abrindo crateras expondo seus interiores de geleia imortal. Os sacos de sal Cisne acabavam, mas nunca as lesmas. Tão logo derretiam renasciam, as fênix gosmentas. Como queria ser forte como elas, as protegia remanejando azaleias e samambaias, criando uma fortaleza verde de segredos entre espécies.
Quando tudo escondido e protegido dentro do jardim, começou a estender pestanas guardiãs para as lesmas que contornavam quinas e iam para o lado de fora dos muros. Essas sua tia-avó não dava bola ou fazia vista grossa, e os inimigos eram outros: esbarrões de ombro, o dedo que cutuca, o pássaro cuja fome não conhece o nojo. Montava guarda no período que podia, depois da escola até o anoitecer. Nos dias de sol muito forte, tinha uma folga. Ele pensava também se a natureza não seria como um feudo imenso, onde as coisas moles eram protegidas pelas que tem carapaça.
No fim de um dia em que choveu fraquinho e Itaquera estava cinza, Carlinhos voltou para casa com um pressentimento ruim. Veio mais rápido que de costume, atravessando ladeiras, e quase chegando ao seu muro, de longe viu o seu maior rival, menino cascão, um saquinho na mão, jogando sal nas lesmas que fugiam derretidas pela metade para dentro dos muros.
O menino cuja arma sempre fora a crueldade era seu vizinho e habitava uma casa cheia de adultos raros e adolescentes esquálidos. Os adolescentes, múltiplos em suas canelas finas e shorts que não as cobriam, tinham os olhos em perpétuo choro, fumando cigarros com leve cheiro de jardim. O seu rival ainda não tinha idade para isso, mas tinha para todo resto, para jogar bombinhas em cachorros e zombar das crianças de óculos ou aparelhos dentários. Apesar de mal, seu rosto inspirava piedade, sempre coberto de cacas esverdeadas. Dessa vez não teve nenhuma dó. Empurrou-o com força.
- Por que está fazendo isso, por quê?
O menino riu sem culpa, os dedos sujos. 
- Você espera aqui que eu vou buscar a minha espada, se você for honrado.
Buscou-a na pilha de futebol de botão e roupas sujas. Sua tia-avó pediu que ele não sujasse de sangue o uniforme, e sussurrou que nos meninos as partes dentro das pernas são as mais dolorosas. Apoiado pela sua família, a espada de madeira em mãos para a vingança pela lesma, ele saiu pelo portão de metal e encontrou seu rival no mesmo lugar, desenhando círculos e palavras com o sangue esverdeado de suas vítimas.
Ergueu a espada; seu rival tinha que decidir as armas, e não parecia ter nenhuma a sua disposição além das mãos. Tinham também que escolher o lugar do confronto, embora achasse difícil um mais apropriado do que a cena do crime. O rival não teve pressa. Terminou sua pintura primitiva nos muros, tornou-se para ele, pôs as mãos no bolso, sem temer a nada. Com os olhos desinteressados, fez sua proposta:
- Festa junina. Fogueira. Vamos acertar nossas diferenças na mão. Você consegue? Houve um tempo que homens de verdade não usavam armas.
Talvez um tempo de dinossauros e não de homens, mas concordou. Portavam-se como inimigos há tanto tempo, usando brechas do recreio para colocarem o pé na frente do outro, a rivalidade da infância que não tem nada de inofensiva, cresce na medida da espinha dorsal, vértebra por vértebra, o pastoso ódio no meio delas. Era melhor com armas, mas não fugiria do desafio. Assentiu, baixando a espada. Será que animais mortos produziam fantasmas? Esperava que as lesmas transparentes não fossem passear por seu corpo durante a noite.
O inimigo se afastou, o uniforme dele muito mais sujo que o seu, amassado como papel. Antes de entrar em casa, seu rival virou-se para ele, nos olhos um brilho muito triste. E sussurrou como se soubesse que aos vinte anos morreria atropelado por um camburão de polícia:
- Não pule. Você vai ficar com vontade, vai achar que está fazendo o certo, mas você não pode pular. Eu estou pedindo.
Carlinhos começou a limpar o rastro triste da morte das lesmas, as lágrimas escorrendo no rosto. Tinha quase certeza que guerreiros não podiam chorar, por isso ia limpando as bochechas, deixando nelas verdes vergões.

Primeiro as mãos passaram e quando a lã escorregou pelas palmas sentiu uma coceira. O suéter ficou meio apertado nos cotovelos e nos ombros, mas sua tia-avó insistia. Ela puxou com os dedos úmidos de saliva os fiapos verdes. Dizia que a cor era verde-pavão, e ele só conseguia lembrar que o maior inimigo do pavão não era o predador, mas suas próprias penas, que como esmeraldas cintilavam na mata fazendo com que o tigre consiga comê-lo. Mesmo que a carne não seja boa, só por poder destroçar algo tão bonito.
- Como é que eu vou lutar com essa roupa?
- E existe roupa de lutar? Você vai lá e luta. Antes de sair, coma um pé-de-moleque.
Com os dentes grudando de amendoim ele foi para a rua sem levar nada além de uma dignidade grande como a samambaia que dava no fundo do quintal.
A festa acontecia na intersecção de quatro ruas, uma delas a Caxinguelê, onde o cimento que unia as casas era de uma fineza que os vizinhos pareciam dividir mesmos cômodos e penúrias. Fingiam-se todos felizes por comprar fuscas ou brasílias amarelas, mas qualquer um com orelhas ouvia sua tristeza afiada que cortava cimento, e Carlinhos tinha certeza que todos na rua sabiam que sua tia-avó queria ter sido médica e por não poder usar bisturi usava a faca na couve, e seu tio-avô queria ser rico para ter tempo de ver novelas.
Dono dessa herança de não se dar bem com a vida que tinha e sonhar com a que poderia ter, Carlinhos não se dava bem com as crianças que conseguiam viver no presente. Elas o evitavam, ele sentia pena de sua inocência. Mas tinha que protegê-las, as lesmas humanoides.
A barraca de pescaria sempre estava lotada, profusão de cotovelos tentando pescar peixes e suas mórbidas bocas metálicas. O dono da barraca também dono de outros comércios menos legais como a padaria estava se divertindo:
- Venha, Carlinhos, ganhe um bicho de pelúcia para sua tia.
Não que não podia com bichinhos de pelúcia, o nariz sensível, e seus tios-avôs não queriam nada que tivesse pelos, uma fama de que seu tio-avô punha em um saco os gatos que ousavam entrar no jardim e gostava de observá-lo até pararem de se mexer. Ignorou o vendedor, posicionando-se ligeiramente à frente com gostinho de atrapalhar a brincadeira.
Seu inimigo atrevido se aproximou da barraca. Como era desleal, dois amigos próximos em estatura faziam sua guarda. Se encontraram à distância da fogueira. Se vamos ter medo desse embate, Carlinhos pensava, se vamos colocar o fogo entre nós, então é porque essa luta é derradeira. Nada é mais importante. Quando acabar, as crianças serão livres para lanchar e lesmas para melecar. 
Os olhos piscaram, bandeiras coloridas, se evitaram, um cisco no olho, uma remela não lavada de manhã, o medo o líquido viscoso que permite o deslizar das pálpebras, mas de uma vez se encararam, definindo aquele pequeno espaço queimando no asfalto como campo de batalha. Seria a vista de todos, e não teria problema nenhum. Todos sabiam que para crescerem, meninos precisam se engalfinhar. 
O primeiro passo quem deu foi um monstro.
Ele era como Carinhos sempre soube que ia ser, porque folheara muitos livros para se enganar: tinha a aparência de um homem gordo, mas era cor de laranja, suas pernas paquidérmicas. A barriga protuberante combinava com seu rosto de mandíbula pronunciada, os dentes curvados de quem só pode comer o que sangra, nas ventas escuras o fogo. Ele estava ali por alguma razão que só tinha a ver com Carlinhos, nada a ver com a festa, o vaticínio de Carlinhos. Prova disso era que tudo ao seu redor era apetitoso ou cheirava a doce, e o monstro tinha os olhos brancos e esbugalhados voltados para um menino magrelo.
Carlinhos circulou-o, avaliando peso e tamanho. Era grande, pesado e vagaroso. Já vira a formiga derrubar o besouro, então estava confiante. Tanto que fez o primeiro movimento — com sandália no pé atravessou o espaço entre corpos e tentou chutá-lo. O corpo do inimigo era quente.
- Será que é possível conversarmos, perguntou. Será que falamos a mesma língua?
O monstro não estava disposto e mordeu. Carlinhos sentiu o cotovelo pela primeira vez na sua vida, nunca fora de batê-lo muito. O cheiro de carne queimada parecido com o de qualquer outra carne, a de carneiro, a de vaca, a da linguiça favorita. Tentou puxar alguma parte pendente do monstro, as orelhas molengas ou a barriga, mas não deu certo, era como lutar com borracha, tudo nele não doía, e tudo em Carlinhos começava a doer. No meio do calor da batalha, ele ouviu:
- Carlinhos, tira o suéter, tira o suéter!
O fio do suéter prendeu entre os dois dentes da frente do monstro. Carlinhos pensou nos álbuns de figurinha incompletos. Pensou que se tivesse um brasão, ele seria um lesma escarlate, brilhante mas ainda lenta para não pensarem que ele distorcia a condição doce dos animais. E pensou que, como a todo samurai, o importante é que estava morrendo com honra.

A última festa junina que aconteceu em Itaquera terminou com um menino pegando fogo. A fogueira não estava alta, e ele possivelmente acreditou que podia pular. Carlinhos queimou como um fósforo porque seu suéter era feito de poliéster e assim como o pavão, ele também errou. Na cozinha da tia-avó, um fantasma com o estandarte de lesma anda em linha reta, se recusando a brincar.