Vista do último andar do edifício da Galeria Tijucas, em Curitiba| Foto: Cecília Tümler

Natal na Tijucas

Uma das primeiras galerias a surgirem em Curitiba, no fim da década de 50, a Tijucas concede o acesso da Rua. Senador Luiz Xavier — no icônico trecho conhecido como Boca Maldita — ao encontro da Rua Des. Ermelino de Leão com a Rua Cândido Lopes. Marca, também, as idas e vindas dos curitibanos e visitantes, servindo como uma espécie de baú de histórias de transição. É assim que Natal Raska define a galeria que, seu local de trabalho há quase uma década, hoje também é responsável por definí-lo.

Isso porque sua rotina no prédio é justamente marcada pelo vai e vem: subindo e descendo escadas e elevadores, cumprimentando quem passa pelo caminho e de olhar sempre atento, Natal é um dos seguranças que guardam o bem estar — e, consequentemente, as histórias — de quem passa, visita ou trabalha na Tijucas.

Começou na carreira de segurança meio por acaso, meio sem querer, mesmo. Foi depois de um mês trabalhando como temporário no depósito das Lojas Americanas da Rua Cândido Lopes que recebeu o convite para assumir um contrato fixo de vigia da loja, que 25 anos atrás ainda era um colosso comercial da região, com seis andares. Sem experiência nenhuma, acha que conseguiu o trabalho por ter caído na hora certa no lugar certo. Além de, é claro, ter cuidado muito bem do estoque e se mostrado disponível. Depois de ouvir um simples “Tá afim de trabalhar como segurança?” e um surpreendente “Passa no RH que você começa amanhã”, Natal começou a saga que o tornaria conhecido entre os comerciantes e frequentadores de uma das regiões mais clássicas de Curitiba.

Humilde, diz que não estudou nada, apesar de ter chegado a concluir o segundo grau. Conquistado com muita garra mas sempre em meio a diversão, o nível educacional foi um avanço com relação ao de seu pai, que não chegou a terminar o ensino fundamental. Dos tempos de escola, aliás, não gosta de falar muito. “Fora da aula era praticamente só trabalho”, lembra, com olhar firme, o senhor que aos sete anos já ajudava o pai, que era pedreiro, a construir casas. Profissionalmente, mesmo, começou a trabalhar aos 14 anos, como office boy. Dali, passou chegou a desempenhar funções diversas: comprou uma kombi para fazer serviços de entrega, depois passou a proprietário de locadora de VHS e só então virou segurança. Mais ou menos 10 anos atrás, depois de quase 15 nas Lojas Americanas, decidiu mudar para o estabelecimento vizinho, trazendo mais vivacidade à Galeria Tijucas.

Por quem o conhece da Tijucas, tem a presença definida como intensa, enérgica e outros tantos adjetivos similares que explicam o misto de ternura e fúria do homem de 59 anos. “Seu Natal é muito querido por todos aqui, não tem quem negue”, conta o colega de profissão Alessandro Oliveira do Nascimento, que, sem deixar de de ser imparcial, também revela que Natal tem seus momentos explosivos. “Só brigo com aqueles que tiram sarro do meu time”, defende-se o segurança, que é torcedor fanático do Coritiba.

Ciente de que o caráter “esquentadinho” pode ser perigoso para a profissão de segurança, Natal faz questão de contar sobre uma ocasião em que sua personalidade foi de grande ajuda para o trabalho. Foi uma vez em que criminosos renderam todos os três seguranças da galeria ao mesmo tempo, há mais ou menos três anos, e num movimento impulsivo, Natal acabou desarmando um dos bandidos e botando a turma para correr. Antes disso, tinha lidado apenas com pequenos roubos nas Americanas, mas diz ter tirado a situação perigosa de letra — e os colegas concordam.

Ainda assim, na maior parte das vezes o lado carinhoso e divertido fala mais alto: “Gosto de criança, de brincar, sou palhaço e falo bastante”, começa a descrever-se o senhor, sem não tardar a interromper-se para cumprimentar uma moradora do prédio da galeria.

Como Jesus, veio ao mundo na data que lhe dá nome e personalidade: “o Natal é mesmo impetuoso”, tira sarro o homem que, beirando as seis décadas de vida, mostra-se orgulhoso de sua trajetória. Casado há 29 anos, conseguiu dar à família, que inclui uma filha de 24 anos e um filho de 20, uma vida mais abastada do que teve na infância. Na sua época, teve que dividir com os quatro irmãos os poucos recursos que o pai obtinha trabalhando construção civil.

Justamente pela energia, que tem de sobra, não pretende parar de trabalhar tão cedo. Pelo corpo, de aparência firme, e pelo olhar, sisudo apesar das doces íris azuis, parece que ainda vai longe. Diz que pensa, inclusive, em mudar radicalmente de ramo: “Quero ser cuidador de idosos”, entrega.

A influência para começar na empreitada vem da esposa, Rosangela, que é enfermeira e tem alguns pacientes da melhor idade. “Lá em casa a gente vive se bicando, mas o Natal é cuidadoso e carinhoso. Daqui a pouco ele vai roubar os meus clientes”, brinca. Mas sonho, sonho mesmo, era montar um carrinho de caldo de cana. Não sabe explicar o porquê da vontade. Mas, quem sabe, comece uma dessas funções e termine na outra. Definir agora, não importa. Afinal, Natal gosta mesmo é das idas e vindas, da rotina inesperada e de fazer amigos e conhecer histórias no caminho.

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