Como Zaqueu…

Uma das histórias que eu mais gosto dos Evangelhos é quando Jesus visita um publicano chamado Zaqueu. (para os curiosos, essa história está no capítulo 19 do evangelho de Lucas)

Muitas vezes a gente deixa escapar o sentido mais profundo dessa história.

Zaqueu era um publicano. Trabalhava para o império romano coletando impostos. Muitas vezes os publicanos coletavam “um a mais” que ficava em seu próprio bolso. Por isso tinham péssima reputação entre os judeus: além de ladrões também eram considerados traidores da nação, pois trabalhavam suportando o governo invasor.

Então, Jesus passa e Zaqueu, que era baixinho, subiu numa figueira (quem conhece a árvore sabe que seus galhos são grandes e firmes) para ver Jesus passar.

Jesus lança aqui a primeira bomba atômica do dia:

“Zaqueu, desce depressa, porque hoje me convém pousar em tua casa.” Lucas 19:5

Porque bomba? Vale a pena ver um pouquinho mais de perto esse contexto. Para um judeu ortodoxo (e para os fariseus da época), dividir a mesa é muito mais que um acontecimento social. Dividir a mesa é dividir histórias, dividir convicções. Repartir o pão significa estender a mão da amizade íntima, próxima. Em outras palavras, o convite de um judeu ortodoxo hoje ou de um fariseu naquela época para comer algo em sua casa significava na prática: “daqui em diante quero estar mais próximo de você. Quero ser seu amigo.”

Em outras palavras, Jesus disse: “Zaqueu, desce daí depressa porque a partir de hoje eu quero ser seu amigo”.

E foi isso que escandalizou muitos.

“E, vendo todos isto, murmuravam, dizendo que entrara para ser hóspede de um homem pecador.” Lucas 19:7

Dizia-se de Jesus: eis aí um glutão que entra na casa de publicanos e ceia com eles! (quer dizer: eis alguém que quer ser amigo daqueles que rejeitamos!)
Jesus fez a mesma coisa quando chamou Levi (ou Mateus) para o apostolado. Mateus convidou Jesus para cear em sua casa. E foi nessa ocasião que Jesus disse: quem está são não precisa de médico.

(abrindo um parêntese, é interessante ver que Mateus, quando fala de si mesmo no Evangelho atribuído a ele, sempre diz, “o publicano” logo depois, como se sempre quisesse deixar claro quem ele era e de onde ele veio antes de encontrar Jesus).

Zaqueu, então, dá a declaração que muitos consideram como um arrependimento:

“Senhor, eis que eu dou aos pobres metade dos meus bens; e, se nalguma coisa tenho defraudado alguém, o restituo quadruplicado.” Lucas 19:8

(aqui faço outro parêntese: a Lei de Moisés requeria que, em caso de roubo, a restituição fosse dobrada. Zaqueu aqui oferece o dobro do requerido pela Lei, o que provavelmente o deixou pobre)

E Jesus, pelo que ele diz logo depois, entendeu isso como arrependimento também:

“E disse-lhe Jesus: Hoje veio a salvação a esta casa, pois também este é filho de Abraão.” Lucas 19:9

Segunda bomba atômica do dia.

Chamar Zaqueu de “filho de Abraão” deve ter sido escandaloso para os fariseus, que consideravam publicanos como párias.

Antes de terminar o textão, talvez possa chamar atenção para outra coisa interessante: o que veio primeiro? o convite de Jesus ou o arrependimento de Zaqueu?

O que vem primeiro? O amor e o perdão incondicional de Jesus — afinal, João, o presbítero, diz que “Ele nos amou primeiro” — ou o arrependimento? Muitos dizem que primeiro vem o arrependimento, e depois então vem o perdão.

Não, meus amigos.

Arrependimento não é pré-requisito para o perdão. É consequência.