A DESOLAÇÃO DO AMOR:

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

“Navegar é preciso” afirma o célebre Fernando Pessoa. Afora as duas reflexões sobre o verbo “precisar” do verso, utilizaremos o significado de “necessidade”, há uma imensa necessidade de se navegar. O mar é grande, é desconhecido, é perigoso, mas é magnético. A poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen (1918–2004) é assim. Há muito o que se procurar nela.

Mulher de densa vida política, Sophia foi pró monarquia e se posicionou contra o governo Salazar, o que já a torna uma revolucionária-conservadora. Queria derrubar o regime vigente e voltar ao anterior. Estudiosa da filologia clássica na Universidade de Lisboa, usou-se disso em sua poesia, com fortes traços Greco-latinos com os versos secos e claros, porém bordados de lirismo e beleza estética.

Há três coisas que se considerar, portanto, na poesia de Sophia: a ligação profunda com o universo Greco-latino (quase Gongórica), a desolação do amor e as ruínas. Podemos associar os três a uma metáfora de um penedo à beira-mar.

Esta é a madrugada que eu esperava

O dia inicial inteiro e limpo

Onde emergimos da noite e do silêncio

E livres habitamos a substância do tempo (1)

O dia, para Sophia, equivale a um teto com um grande lustre, é tudo árido. Ela provoca um ambiente construído e destruído ao mesmo tempo. Vai formando as colunas, as vigas. Para arruiná-las no mais estrito sentido do vocábulo.

Apesar das ruínas e da morte, (2)

Ela começa o poema com o verso e assim dedica seu tempo a um Portugal marinho. Portugal sempre foi um sítio marinho, vive da maresia e de brisa marítima.

A força dos meus sonhos é tão forte (3)

Continua o poema justificando os apesares. Adentra aí, então, o lirismo e a noção estética da poesia de Breyner. É anacronismo pensar que ela seguirá o modernismo de Mário de Sá-Carneiro (1890–1916) e de Almada Negreiros (1893–1970), mas um modernismo tipo Fernando Pessoa (1888–1935), com arabescos, versos cheios de lirismo e decorações quase imperceptíveis, porque abordam o cotidiano. E o perigo está nisso: os versos de Sophia podem parecer demasiado comuns, qualquer poeta grego escreveria sobre o mar como Sophia, mas ela não é grega; é portuguesa e lamenta ao que cabe a Portugal.

A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia

Cada dia a cada um a liberdade e o reino

— Na concha na flor no homem e no fruto

Se nada adoecer a própria forma é justa (4)

Sophia em seu gabinete.

A maneira de Sophia, ao declamar, também causa espanto. Declama como os grandes românticos do século XIX, separa as palavras em sílabas, vai tratando-as com carinho, cada letra se emparelha.

O que, porém, determina a poesia de Sophia é a desolação do amor. Não uma desolação tão antiga como a de Byron (5) nem tão moderna como a de um Eliot (6), mas uma desolação lírica e quase incompreensível em nossos dias. Uma desolação lírica comum, é verdade, nos poetas luso-espanhóis, afinal mesmo o modernismo é — ainda — uma continuação do renascimento/barroco, os movimentos nostálgicos. Sophia vai aperfeiçoá-los com uma visão moderna,

Mal de te amar neste lugar de imperfeição

Onde tudo nos quebra e emudece

Onde tudo nos mente e nos separa. (7)

Mas cujo lirismo se assemelha a Góngora:

Si Amor entre las plumas de su nido

prendió mi libertad, ¿qué hará ahora,

que en tus ojos, dulcísima señora,

armado vuela, ya que no vestido? (8)

o amor tratado como objeto, como coisa concreta. Barroco espanhol encosta no modernismo português. Na verdade, pode-se suspeitar que o modernismo seja um barroco nostálgico, ao menos, o modernismo português de Sophia de Mello e Fernando Pessoa. Ornar o dia a dia com novos acontecimentos, com novas coisas. O mesmo fez o escritor irlandês James Joyce (1882–1941) com Ulysses. Mas os ingleses mantêm-se fiéis ao psicologismo shakesperiano. Os portugueses vão buscar a maritimidade.

O amor marítimo ficou nas canções populares, nos fados e também na densa literatura de Pessoa e Breyner. Eles caminham como se catassem conchas, cada concha é um amor poetizado ou musicado.

A desolação do amor é isso: são conchas separadas numa imensa praia. Quanta areia há entre uma concha e outra. Algumas delas são poemas de Sophia, histórias de amor que não aconteceram. São e sempre serão ruínas em forma de conchas.

NOTAS:

(1) “25 de abril”, Sophia de Mello Breyner Andresen. In “O nome das coisas”.

(2) “Apesar das ruínas”, Sophia de Mello Breyner Andresen. In “Antologia Poética”.

(3) Idem.

(4) “A forma justa”, Sophia de Mello Breyner Andresen. In “O nome das coisas”.

(5) Lord Byron, poeta romântico inglês ( )

(6) Thomas S. Eliot, poeta modernista inglês ( )

(7) “Mal de te amar”, Sophia de Mello Breyner Andresen. In “Obra poética”

(8) A una dama que, habiéndola conocido hermosa niña, la conoció después bellísima mujer, Luiz Argote y Góngora.