Meu bebê nasceu, o que devo saber agora?
O dever de uma mãe, no século XXI, é bem diferente dos deveres que já fizeram parte da cultura das nossas mães, avós e, dependendo da idade da irmã mais velha, até delas. Eu me tornei mãe no inicio do século, em 2004, e a reviravolta cultural que tive a oportunidade de reconhecer em 2012, quando nasci mãe pela segunda vez, me trouxe uma percepção do que representa a VELOCIDADE do tempo no desenvolvimento humano. Saber isso faz parte de reconhecer a época em que estamos. Agora, o saber materno que um bebê nos traz vai muito além de reconhecer a tendência do século porque nos coloca no lugar de educadora da vida. Educar o ser é educar-se!
Até rima de tão bonito que é: educar o ser é educar-se!
Viver essa beleza, no entanto, ou reconhecê-la, é um processo. Pra mim, ele foi bem dolorido e exigiu todas as forças que eu nem imaginava que tinha. Aprendi que a dor não é o único caminho para acessar este saber, mas foi o meu meio. Nessa árdua jornada materna, que já dura quase 15 anos, eu dediquei nove em conhecer esse saber, sendo quatro deles numa experiência bastante profunda de estudos, terapias e vivências, que realizei “em função” de um projeto…
Só agora eu o reconheço com o porquê. (Já se perguntou: o que lhe motiva fazer o que faz agora?)
O motivo de tanta dedicação e trabalho neste projeto foi porque não entendia as razões pelas quais eu merecia passar por um fórceps depois de vivenciar uma cesárea — forma que minha primogênita nasceu e eu também nasci. Eu usei a mesma força que usaram no meu corpo para fazer as duas perguntas que me levaram a toda experiência vivida desde 2014. Reproduzi o processo do forcéps nas relações e ações do projeto pra entendê-lo e, agora, depois de ter passado pelo mesmo movimento que minha segunda filha passou, quando chegou ao mundo, pude entender o dever de uma mãe em três passos. Mas, antes dessa partilha, te convido a conhecer meu processo.
A EXPERIÊNCIA — Quatro anos

Responder essa pergunta faz parte de uma promessa feita há quatro anos. Naquela época, eu imaginava entrevistar especialistas na área da Saúde, conversar com as ativistas e ler uns 20 livros pra contextualizar as quatro perguntas da minha experiência materna. Eu fiz tudo que imaginei. Só que surgiu algo que eu jamais previ na minha promessa. Eu vivi as perguntas dentro e fora de mim. E isso muda tudo.
Enquanto eu agi com os saberes da minha profissão (entrevistar e pesquisar pra contextualizar as perguntas) fui gestando dentro de mim uma percepção reflexiva que não dava conta de ser expressa no papel, nos vídeos, nas interações ou na revista. Toda mídia era insuficiente por mais que as tecnologias já abarcassem as lógicas do sentir e vendiam as fórmulas psíquicas das jornadas individuais como produto para público-alvo. Eu entendia o sentido do curso digital, do empreendimento social, dos impactos do marketing sobre o jornalismo, mas a experiência vivida como mãe me trazia uma ética nova, que me impedia de usar as novas mídias.

O uso do chapéu da minha velha profissão trouxe em mim a consciência jurídica do Nascer no Brasil e o fora de mim tornou meu dentro muito pesado.
Só agora, despida da jornalista que fui e da ativista que me tornei, posso responder a pergunta de forma leve e pessoal. O que uma mãe pode saber sobre o nascimento depende da disposição dela perceber o mundo que está a sua volta. Na minha experiência eu só me senti apta a saber do nascer depois que me desprendi dele.
Pra mim, o saber nascer está em compreender a diferença entre receber um bebê no peito, minutos depois que ele passou pelo seu corpo, com o esperar horas eternas de um bebê que vai voltar pro quarto depois que você estiver neste tal quarto.
Eu vivi essa diferença como mãe e tomar consciência dos significados dela foi dolorido e, muitas vezes, eu não me sentia no direito de transmitir algo que me rasgava por dentro, pois eu não aceitava ser mensageira dessa “luz” pra outras mulheres. Parecia sacana demais trazer essa consciência da responsabilidade que temos diante da injustiça social que toda mãe vive quando acessa o sistema obstétrico.
Mas eu tinha uma promessa.
Quando eu era criança, meu pai me ensinou que a gente honra com as nossas promessas…
Então, eu fui digerindo minha consciência jurídica e me afastando de tudo aquilo que eu sabia. O ativismo não me servia por inteira porque eu não queria fazer puérperas sofrerem como eu sofri. A consciência jurídica que adquiri — ao conhecer a história das mulheres sob a perspectiva materna e feminista e reconhecer a batalha profissional da medicina, que rachava e separava o corpo necessário para assistência obstétrica, — servia apenas pra perpetuar um discurso que não me representava. Eu queria falar de amor. E não de Justiça.
Foi, assim, que eu me enfiei no escuro de mim. Deixei de ser tudo que eu sabia. E quanto mais eu buscava saberes, menos eles valiam pro mundo. Cheguei naquilo que chamam de impotência e solidão. Me senti completamente egoísta nesse querer dar voz ao Amor negando a Justiça. Me senti bastante julgada e muita gente mostrou, pra mim, que eu estava errada. E, assim, entendi que a única resposta que eu podia dar era a que eu tinha.
OS TRÊS PASSOS APRENDIDOS
Então, hoje eu me sinto pronta pra dizer que de tudo que li, ouvi e vivi como mãe, jornalista e ativista, minha reflexão é:
uma mãe deve saber que cabe a ela a responsabilidade de escolher a forma de nascer do seu bebê, mas ela não faz isso sozinha. Existe a co-responsabilidade do pai — que raramente está preparado para compreender a dimensão do nascimento. Eles têm medo e são os pioneiros desta consciência, historicamente. Muitos não terão condição de superar a cultura e os preconceitos pra compreender a responsabilidade que os cabe no lugar de pai. Sem dúvida, esse é um passo individual que entra no âmbito social, apesar de ser uma decisão do casal. Bem vinda à complexidade da contemporaneidade do dentro e fora.
O segundo passo envolve a co-responsabilidade da equipe, que também tem a sua responsabilidade na forma de nascer do seu bebê, inclusive na capacidade de lhe oferecer a magia da conexão do peito. Este passo tornou-se mais consciente depois do ativismo materno desde do início do século. No entanto, há ainda o desafio de discernir a consciência jurídica da econômica. Eu não tenho ideia de como seria esse processo pra quem cresceu consciente das responsabilidades e dos direitos das mulheres…Pra mim, foi uma pedra.
Eu vivia imbuída da cultura capitalista que me impedia de reconhecer as diferenças entre direitos e consumo, o que me fez muitas vezes associar garantias com processos. Nascer não consiste em planejar. É vida. Fazer planos só tem sentido para esclarecer as responsabilidades. Jamais pra garantir a forma de nascer do bebê. Até porque existe um terceiro passo nesta pergunta: o bebê.


Aprendi que a forma de nascer é tecida também pela vida que o ser do bebê traz como destino para sua biografia. Há algo que vem também desse ser ainda invisível que não pode se responsabilizar como a mãe, o pai, a equipe e a sociedade porque não conhece as leis sociais. É bem perceptível essa conexão que toda mãe pode ter com o bebê na hora de nascer e ela muda tudo quando a mãe a reconhece. Mesmo que seja depois que seu bebê nasceu há quatro, quatorze ou quarenta e quatro anos.
Tomar consciência da vida pré-natal é acessar a essência da liberdade humana e compreender a dimensão da autoresponsabilidade com a co-responsabilidade e perceber que a potência da vida está na confiança espiritual. Há algo que só você pode responder, mas há respostas que dependem de muitos pontos de vista para compreendermos a pergunta e nascer tem a ver com isso. O que uma mãe deve saber quando seu bebê nasce? Confie! Existe algo além de nós.
Meu Andar
Passo 1: Responsabilidade do casal
Passo 2 : Co-responsabilidade dos profissionais
Passo 3: Compreensão da Vida Pré-Natal
Viver a resposta desta terceira pergunta ainda não finaliza minha promessa nem fecha meu projeto. ( Ainda existe a quarta pergunta: meu bebê tem um ano, o que devo saber agora?) Mas traz a travessia e me permite sentir o significado deste fruto. Sinto que acessar esse saber é tocar numa expressão muito usada e pouco praticada… A expressão é estar em paz! Minha sensação é que quem, de fato, faz a travessia sente a vida e, então, compreende aquela frase bonitinha que rima lá em cima: ser mãe é educar-se para educar o ser.
Gratidão a todas mulheres, e alguns homens, que participaram da minha jornada, enquanto eu me iludia que estava pagando a promessa do crowdfunding.