fruta verde

mas falando sério, quem poderia dar atenção aos meus demônios com ela sentada do meu lado
-esticada inteira cada pedaço em posição fetal-
quando nem eu mesma me permito chamar atenção
até eu precisar gritar por ela
em defesa
expressar 
chorar 
gritar
até chorar
principalmente chorar
mas em principio geral, afinal, quem poderia te culpar por me eclipsar
sem querer precisar ou tentar
quem, me diz quem poderia culpar a falta de atenção na atenção -alheia-
quem?
quem poderia?
quem poderia culpar?
quem tem o direito, em primeiro lugar

ressentimento me passa longe -e esse é exatamente o ponto- mas é o unico retrogosto que vem no palato
quando penso na minha falta de empenho em me fazer compreender
esqueço
como tudo, esqueço que vocês não veem o que eu não mostro
óbvio, não? não
patético em essência 
passo meus dias em agonia silenciosa e rancorosa perante a mim mesma
quem julgaria a falta de preocupação, quem julgaria a falta de comunicação

ninguém culpa nem julga, exceto eu
isso infelizmente é o suficiente

misturado ao fato de que as unicas vezes que senti a minha dor sendo sentida, não foi bom (nem deveria ser, se você ler essa frase de novo)
mas tão raramente se dá real conexão empática às minhas dores, que torna-se um ato que me leva pelas mãos a um lugar de remorso incapacitante. mecanismos revesos. pena de si espelhada em terceiros. pena de tê-lo feito senti-la. pena de si. pena da pena. pena do terceiro. pena da pena da pena. pena pelo conceito de dó existir. culpa caótica por ter (finamente) transpassado o que eu sentia com clareza, como se eu tivesse transmitido uma doença. virulenta mas impotente. complacente e imoral em sua complacência.

nunca vou me esquecer da vez, aquela vez, essa vez
ter me desprendido tão facilmente das ideias que me queimavam por dentro e imediatamente sentir nas próprias mãos o peso depositado em costas alheias tão magras e já tão desgastadas 
alocado em um coração tão disposto mas já tão cansado também
foi doce e amargo
mas não, não agridoce
sentir os nós da garganta de alguém encaixarem nas engrenagens do seu pescoço quente e saber
que ele entendeu de ponta a ponta cada ramo que brota das costelas da sua miséria
mas pra isso ele teve que degustar aquela amargura toda
e desde então eu permaneço, diariamente 
constantemente 
renitentemente
a mesma
apesar de ter calado minhas lamúrias
por mil motivos e nenhum ao mesmo tempo

pelo que, diabos, acabei de explicar
por precisar guardar mas também por não saber dividir
por não me sentir no direito
de lembrar (a mim, a vocês, ao mundo, à mãe, a mim)
de remoer
de mastigar chiclete sem gosto
mas inegável matéria viva e pulsante ainda

daí eu só armazeno, estoco longe, distante até da minha própria vista
até não caber mais, o que sempre vem como uma surpresa, já que guardo coisas em prateleiras que me recuso a olhar, nem mesmo pra checar.
tem demorado bastante a transbordar, esse pseudo privilégio eu admito
compreensivel, em resumo
não a minha sensação de invisibilidade
mas a minha literal invisibilidade como resultado de[…]
eu nunca transpareço tudo que flui em mim
as vezes até vou longe, mas nunca até o fim
e mesmo reconhecendo esse como o problema raiz
eu juro, juro que tudo que eu queria era ser enchergada por inteiro, só mais uma vez pra nunca mais
sentir validação pras as minhas dores que sozinha eu não dou conta de dissecar
mas quero desmembrar
mas não quero sentir precisar me apoiar
ambiguidade que eu não vou saber explicar

a essa altura ja me agarro à vida puramente por resiliencia
a resiliencia pela resilencia
mas persistencia não soa mais um sinonimo
e a paleta de cores das veias não faz sentido
nem precisa(ria)
ja seria muito mais do que ousaria aspirar

a janela ta suja
embassada, quase fumegante
e incomoda, nem batido passa
só que eu já passei o dia inteiro lavando a louça da semana
então ta tudo bem 
não me gosto nem me entendo por completo
muito menos os culpo por não fazer milagres
então isso é um pedido de desculpas formal
pra ninguém, pra ela, pra ele também, pra todo mundo na real

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