VENTILADOR

O barulho do ventilador era como uma canção para Édipo. Ele adorava se perder em devaneios enquanto o ventilador executava as mais belas notas, e a cada uma delas, Édipo sentia um prazer inestimável. Ele se lembrava do primeiro dia em que escutara aquele som, e fora há exatamente 60 anos atrás, nos primeiros dias de sua vida, e desde então, não fazia nada sem que o barulho do ventilador estivesse se fazendo audível no recinto. Um dia, tivera de se afastar do seu ventilador (o que o desagradava bastante) para visitar familiares, e na casa de tais pessoas, havia apenas condicionadores de ar. Ah! Como ele odiava a tecnologia com seus computadores, tevês, e carros a jato. A única coisa que não odiava era seu amado VENTILADOR.

Todos nós poderíamos dizer com veemência que as sequelas de um vício são graves. Embora os evangélicos digam que não há mal algum em ser viciado em Jesus (alguns até tiram fotos cheirando as letrinhas da Bíblia). Porém, todos nós sabemos que até esse tipo de vício é maléfico. Voltando a minha amada cobaia, a primeira vez em que ficou claro que Édipo era um autêntico viciado, para ele e para todos, foi quando o primeiro ventilador que havia comprado com seu próprio dinheiro pifou, quando tinha apenas 22 anos. Deixou o livro que estava lendo de lado, reuniu seus reais e comprou um novo ventilador para si. A segunda vez, foi a vez mais dolorosa e é o principal motivo pelo qual estou contando esta história sobre Édipo e seus vícios nos barulhos emitidos pelos ventiladores. Em um dia, em pleno verão de 2052, o ventilador que havia comprado quando tinha apenas 22 anos, parou de funcionar. Aquele ventilador tão velho e que amava tanto. Aquele que fora seu único companheiro durante anos, ali encerrava sua vida útil e se jogava de cara nos cantos mais obscuros do grande saguão da obsolescência programada, para ser esquecido para sempre por todos, menos por Édipo, que o amara tanto e sempre se sentia como um rei quando ele estava ligado a emitir aquele som tão belo. Édipo fora de uma hora para outra de rei a camponês. Não havia mais o som do ventilador para confortá-lo. Primeiro, passou três dias acordado, lamentando a morte de um amigo de tão longa data. Na manhã do quarto dia, levantou-se da cadeira, colocou nos braços o corpo do tão adorado amigo, amarrou-o ao banco de carona de sua bicicleta e se encaminhou para o crematório, onde fez com que o corpo do companheiro se reduzisse a cinzas, que passou a guardar em um bauzinho, na mesa de centro de sua sala. Apesar de todo o sofrimento pelo qual já havia passado, Édipo não deixou-se abalar, pois bem sabia ele, que não existe nada que não seja substituível. Subiu em cima de sua bicicleta e foi até a loja de eletrônicos mais próxima para comprar um novo ventilador. Assim que chegou lá, Édipo já sentiu algo estranho no ar, como a ausência de algo, ou o esquecimento de algum fato. Uma jovem atendente foi até ele e lhe saudou:

- Bom dia, senhor! Estaria procurando algo específico?

Esquecendo-se de retribuir a educação, Édipo lhe perguntou:

- Qual o melhor ventilador que você tem na loja?

Ela automaticamente perguntou:

- Senhor, o que é um ventilador?

Por alguns segundos, Édipo ficou confuso, porém, convencido de que a garota estava fazendo troça dele, respondeu:

- Você acha que pode ficar fazer troça de seus clientes e seguir impune? Chame o seu gerente!

A moça, como se não estivesse entendendo nada, foi até o fundo da loja e entrou por uma portinha, saindo de lá alguns minutos depois com o gerente. Apontou para Édipo, explicando ao gerente que era ele quem havia pedido a presença dele e dirigiu-se para outro lugar. O gerente se dirigiu até Édipo e perguntou:

- Senhor, posso lhe ajudar?

Édipo, de cara emburrada, respondeu:

-Sim, eu gostaria de comprar um ventilador. Uma de suas atendentes não quis me vender.

O gerente abriu um sorriso e disse:

  • Talvez porque não existam mais ventiladores, senhor. Eles pararam de ser fabricados em 2027.

E assim, Édipo converteu-se para sempre em camponês. Saiu da loja com um olhar vago. Naquele momento, foi como se livrasse de uma ilusão, e percebeu quanto tempo ficou alheio a tudo, prestando atenção apenas ao som do ventilador e abstendo-se de qualquer experiência exterior. E assim, percebeu o estado a que havia chegado e nunca mais sairia. O vício havia se apoderado dele e ele nunca mais poderia satisfazê-lo. Montou em sua bicicleta e foi embora, cheio de lágrimas nos olhos.