Aprendendo a dirigir ou sobre o autoconhecimento

Primeira lição: dirigir. Calma! Eu sei que se você não sabe, então, não parece óbvio fazer algo que não se sabe logo de cara. Além disso, dirigir é complicado. Não adianta dizer “a prática torna automático” ou “num instante você aprende”. Pode até ser verdade, mas demora pra chegar lá. Dirigir requer atenção e, considerando que vivemos um momento de total déficit de atenção mundial, essa tarefa se torna ainda mais complicada.

Dirigir é ter cuidado com os outros e consigo, ter noção de espaço, saber frenar (gente, como é difícil saber PARAR!), passar a marcha correta e na hora certa (olá, 5ª marcha que evito sempre que possível), segurar a direção (você domina o carro e não o contrário é o primeiro mantra), desviar dos buracos (ou quer furar o pneu?), parar nos sinais (sinal amarelo, aquele que muda para o vermelho em menos de cinco segundos), prestar atenção às placas, fazer meia embreagem (cadê o equilíbrio nessa hora?), subir e descer ladeiras (subir é um pavor!), passar em locais apertados com carros estacionados nos dois lados da rua (por que, Deus, por quê?!), dar marcha à ré olhando apenas pelos retrovisores, olhar para os lados e para a frente praticamente ao mesmo tempo (melhor ter logo o pescoço flexível que nem a menina de O Exorcista!), prestar atenção em pedestres, motociclistas e ciclistas, passar em lombadas, dar sinal, acender os faróis (essa lei nova aí da BR, muito obrigada), estacionar sem bater (quem disse que eu lembro da baliza?), prestar atenção ao girador (quem tá contornando tem a vez é o segundo mantra) e ainda por cima ter cuidado com aqueles que estão distraídos jogando Pokemon GO.

Resumindo: dirigir é cansativo. Dirigir sobrecarrega e estressa. Só de pensar em dirigir, minhas entranhas se contorcem e começo a suar frio. Dá cólicas, dor de cabeça e cãibras. Os pés doem, as mãos tremem, a boca fica semi aberta e o olhar denuncia a iniciante que vos fala: puro medo. Por que os ônibus têm de passar tão perto da gente? Por que os caminhões soltam aquela fuligem preta que além de atrapalhar, prejudica o meio ambiente? Por que gasolina, seguro, IPVA e emplacamento são tão caros? Por que fazer balanceamento, alinhamento e cambagem (e qual é a diferença de cada um, PELO AMOR DE DEUS?)? Por que, por que, por quê? São tantas dúvidas e erros, que seria impossível não sentir um pingo de medo sequer.

Entretanto, também me veio a reflexão de que dirigir (e o aprender) reflete muito sobre o sujeito que está ali, dando a cara a tapa pra tentar enfrentar esse trânsito maluco (e o de João Pessoa nem é tão ruim se comparado ao da Índia — risos). É sobre autocontrole e autoconhecimento. É tentar enfrentar e saber que, assim como na vida, nem sempre acertaremos. Nem tudo vai sair perfeito e o máximo que se pode querer é não matar ou machucar alguém nesse processo de aprendizagem.

O aprender é diário. A manutenção do carro, por exemplo, é uma eterna caixinha de surpresas e merece tanta atenção quanto o dirigir. É aquele check-up que você deixa de fazer e, de repente, descobre que está com imunidade baixa ou deficiência de vitamina D. É necessário revisar sempre. É procurar a calma, o equilíbrio e não se deixar abater. Tentar todos os dias é a chave — que nem para aprender a andar.

E a pergunta que não quer calar é: por que você insiste, Celina? Porque eu não desisto no primeiro obstáculo, certo? Assim como na vida, não dá pra desejar estar morta à lá Lana Del Rey só porque ainda não aprendeu algo (ok, dá pra desejar um pouco, mas sem efetivamente fazer isso acontecer). Dirigir dá autonomia. É poder sair de casa a hora que quiser, para onde quiser. Trata-se também de saber como contornar situações difíceis, quando como começa a chover ou quando o sol está tão forte que quase cega. É não surtar quando te trancam no trânsito e saber que a melhor sensação do mundo é a de se chegar em casa.

Isso nos leva à segunda lição: só se aprende a dirigir dirigindo (sim, é a primeira lição dita de outro modo). Desviando buracos e passando por lombadas. Vendo o sinal fechado como forma de organizar o trânsito e não de atrasar o seu compromisso. Entendendo o girador como forma de saber priorizar e esperar. Andar à esquerda ou à direita conforme o seu ritmo e velocidade, sem esquecer que a pista é compartilhada. Não se dirige sozinho, assim como não se vive sozinho. Motorista algum é uma ilha.

Wentao Li @Molostock
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