Sobre nostalgia e anos 90

Hoje, podemos até ser inocentes e não saber de nada, mas nos anos 90 éramos todos ordinários de carteirinha. Foi no começo daquela década, mais precisamente em 1993, que crianças, jovens e adultos de todo o país — inclusive eu — se viram seguindo passos de dança nada ortodoxos: com a mão no joelho, agachadinhos e balançando a bundinha.

Assim, o É o Tchan! invadiu o coração do público, com letras bem humoradas e cheias de duplo sentido. O pagode/axé baiano, como todo fenômeno que fica popular, foi bastante criticado por parte da população daquela época (e o é ainda hoje).

No entanto, principalmente as crianças, que claramente não sabiam o significado de nove meses depois ver o resultado de segurar o tchan, garantiram não só o sucesso da banda, mas de vários outras que tocavam músicas no mesmo estilo: Harmonia do Samba, Terra Samba, Asa de Águia, Araketu, entre outros.

O humor e o duplo sentido não eram coisa só do Tchan, mas eles foram um dos mais produtivos nisso. Os adultos mais jovens de hoje (até os 30 anos, vai!) certamente curtiram a dança do vampiro e analisaram essa cadeia hereditária. Eu perdi as contas de quantas vezes mandei o cavaco chorar e peguei no carrinho de mão, por exemplo.

Essa brincadeira de criança (como é bom!) é nostálgica, como vejo nesse revival dos anos 90 na moda — alô alô vestido com tênis, jeans com jeans e top cropped –, na música, com shows reunindo grupos de pagode, e até mesmo lançamento de CD — em 2015, o Harmonia do Samba lançou o álbum Tá no DNA, nome bastante sugestivo por sinal.

Além disso, milhares de memes, publicidades na TV e todo um clima de saudosismo em torno desse estilo musical tão diferente do fim do século passado fazem com que as bandas e músicas já sejam até mesmo consideradas clássicas. E como bom é ser feliz com o Molejão, não adianta nem ao menos tentar negar: se eu disser aonde vou, você vai varrendo, que eu sei! E se não souber, o que não vai faltar é quem lhe ensine como é que se faz.

Claro que não foi só com o bom humor que o pagode ficou famosinho. Além de pimpolhos e mineirinhos, teve bastante espaço para o chamado pagode romântico. Muito antes da sofrência de Pablo, era dor de cotovelo pra lá e pra cá, mesmo quando se fazia amor com outra pessoa (ou seriam oito?), ou a decepção amorosa pura, mostrando que aquele amor, na verdade, era uma cilada.

Chega a ser engraçado quando paro pra pensar na incompreensão por parte dos mais velhos — especialmente por já terem vivido essa fase e provavelmente não terem gostado da primeira vez — assim como dos mais novos, que não veem a “graça” nessa volta musical dos anos 90.

Sinto que é como se ninguém tivesse guilty pleasures ou não entendesse que certos produtos são feitos com a finalidade da simples diversão, o que não faz com que percam o mérito. Pelo contrário, se conseguem divertir, são bem sucedidos. E não há problema algum em gostar do entretenimento simples — e disso sou super culpada.

Aliás, a música, assim como a moda, tende a “voltar”, o que significa que a fase nostálgica dos mais velhos já deve ter passado e a dos mais novos vai começar em alguns anos. Ou seja, todo mundo passa por isso. Portanto, parem de criar caso: levantem a mão e entrem no clima batendo palmas (na levada do Axéééééééé!).

Com o axé/pagode dos anos 90, eu ri, chorei e amei (amei minhas fitas K7 do É o Tchan, é verdade, mas amei!). Essa época também criou moda — ou você nunca rebolou com o bambotchan? — e por isso dá pra entender toda a nostalgia em torno dele. Talvez eu não tenha mais referenciais do ritmo nos dias de hoje. Talvez seja simples saudades. Talvez eu seja cheia de manias e toda dengosa, mas os anos 90 voltaram e só o que peço é alguém que me ajude a segurar essa barra que é gostar desse revival!

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