Sobre o Jornalismo

Domingo, 8 horas da manhã. Os sinos da capelinha que ficava em frente aquela casa das Coremas acabavam de tocar quando a menina de oito anos levantava da cama quentinha em busca do café da manhã. Café com leite, pão assado, cuscuz e ovos mexidos. Todos à mesa, mas mal se via o pai com o jornal aberto lhe escondendo as feições. Essa é uma das primeiras lembranças que tenho do contato com o impresso na minha vida, que também manchava as xícaras com o preto da tinta do jornal.

A diversão era tentar entender o que o Caderno 2 trazia naquelas páginas dominicais, o que era rapidamente substituído pela programação do cinema. Lembrei-me disso hoje, enquanto lavava as mãos para limpar os vestígios do clipping diário: a mesma tinta preta impregnada que me fez esfregar os dedos com mais força que o normal.

A indecisão na hora do vestibular ajudou no empurrãozinho final pra escolher o curso de Jornalismo. Diferentemente dos outros colegas, que amavam fotografia ou televisão, sabia que a minha paixão era escrever. Meu sonho, que viria a ser realizado logo que o curso fosse concluído, era ver o meu nome identificando a matéria escrita. Repórter de impresso. Era isso o que queria.

Consegui. O difícil, como falam em relação aos cursos das áreas de Exatas, não era entrar, mas permanecer. E quanta dificuldade eu senti — sinto até hoje, por sinal. Entrevistado que não atende ou não responde o e-mail em tempo hábil, depoimentos de pessoas nas ruas que, sim, têm medo de uma câmera fotográfica — e por isso se recusam a emitir uma opinião por mais breve que seja. Aquele lead — parágrafo inicial de uma notícia — que dá o maior trabalho do mundo pra começar, mas que uma vez escrito, faz a matéria deslanchar.

Vozes da redação que, à medida que o fechamento se aproxima, vão se avolumando. Os telefones que não param de tocar. A profundidade que, embora seja buscada no dia-a-dia, muitas vezes não é alcançada — muitas vezes mesmo. O tempo, esse ingrato, que corre mais que Usain Bolt e faz crescer a ansiedade pelo lead, pela manchete, pela entrevista, pelos dados. Os dados, esses que prefiro nem comentar como são difíceis de se conseguir em determinadas esferas de poder. Aquele ângulo que se quer dar e, infelizmente, a linha editorial não permite.

Aquele entrevistado que até atende ao telefone, mas que o bom humor e a educação passaram longe — sim, tenho desafetos por causa disso e boas histórias também. O editor que fica entre compreensivo e exigente enquanto pergunta pelas matérias. O pescoção, ai meu pescoço. Cinco horas de trabalho se transformam facilmente em oito, nove horas. Plantão de fim de semana que, em termos de ódio, só perde pra o do ano novo — pura crueldade! O café se torna o melhor amigo logo na primeira semana de trabalho.

São tantos aperreios que a única coisa que me fez segurar as pontas — acho que boa parte dos que ficam na redação, aliás — foram os outros repórteres. Eles estão ali, segurando a mesma barra que você — uns mais, outros bem mais — e sabem precisamente o que você está passando. É um lamento coletivo, acompanhado de alguma cerveja pra amenizar e de umas boas piadas porque, afinal, é melhor rir pra não chorar. Se não fosse pelas pessoas, nem valeria a pena.

O que mais me entristece, entretanto, é perceber que o fim do que eu tanto amo está cada vez mais real. São passaralhos — demissão de jornalistas em massa — e fechamento de jornais não só no Brasil, mas em todo o mundo, além da transferência para uma plataforma online que, por mais legal que seja, não é a mesma coisa do impresso. É uma mistura de dor e impotência diante de algo que está condenado faz uns dez anos, pelo menos, o que me fez repensar se realmente valeria a pena enfrentar essa situação sabe-se lá de que maneira ou simplesmente me render.

Ah, e o nome escrito na matéria impressa? Aquele e-mail agradecendo pela matéria que ficou bacana? Aquela ligação pra parabenizar pela especial de domingo? As boas histórias que temos a oportunidade de contar diariamente? Conhecer novas realidades? Elogios de outros colegas de profissão? Manchar diariamente os dedos com a tinta preta? Não tem preço!