Do lado de fora

Hoje eu saí de casa e fui dar uma volta, não parece um começo de história interessante realmente.

Mas abri a porta, fechei a porta, olhei a casa do lado de fora e fiquei ali observando, esperando algo acontecer. As pernas tremiam tímidas, ou talvez fosse eu.

Fui pra calçada oposta, me propus a caminhar para uma rua com a intenção de fumar um cigarro, o que não é hábito, mas era um daqueles dias em que os nervos estão à flor da pele.

Fui caminhando devagar com aquela tremedeira ainda instalada.

A rua destino tinha um banco velho de cimento caindo aos pedaços e na frente dele uma árvore não tão velha com o tronco cheio de formigas.

Sentei, tentei acender o cigarro três vezes, na quarta funcionou. E fui tentando relaxar naquele lugar ao mesmo tempo que esvaziava a mente.

O dono da casa em que o banco jazia em frente chegou e cumprimentei com um " boa tarde" que foi dito a mim também. Parecia não se importar com o fato de estar ali fumando. Entrou em casa e eu fiquei olhando a rua, as crianças voltando da escola.

Escutei o barulho do portão velho de ferro abrir de novo, mas não foi o dono da casa quem saiu de lá, mas sim uma cadela amarela, de olhos vivos e brilhantes. Olhei aquele animalzinho e escutei o homem falar "Esse cachorro tem dono, mas deixa na rua, quando eu tenho algo eu alimento o bicho, mas não é meu não, volte pro seu dono!" e entrou.

A cadelinha não estava nem a um metro de distância de mim, chamei várias vezes com assobios, palminhas, mas nada. Permanecia sentada esperando o portão abrir, esperando algo acontecer, mas nada acontecia.

A cadela tremia inteira, não havia um único segundo em que o seu corpo ficasse parado, e começou a fazer caretas como se estivesse passando mal.

Levantei do banco, sem saber o que fazer chamei o homem.

"Moço, ela não tá bem!"

Ele saiu da casa, mas ainda do lado de dentro do portão me disse que ela tinha um problema numa veia da cabeça e que se tremia por causa disso. Era uma doença e que, segundo o que o dono disse a ele, não havia cura, que já estava assim há meses. Falou um pouco sobre a pena que sentia do bicho, mas não podia ficar, chegou ainda a dizer que se a mãe estivesse viva o animal estaria aos cuidados dela, mas deus tinha levado.

E mais uma vez entrou.

A cadela tremia, o cigarro quase acabando e eu pensando em algo, tentando arrumar uma solução pro que eu tinha alimentado a curiosidade.

“Vou levar ela comigo”, mas ela não me respondia de nenhuma forma, ela queria ficar ali.

O cigarro apagou e eu passei duas horas naquele banco lutando contra a mente e contra as formigas que subiam pelas pernas.

Resolvi fazer ao menos companhia, fiquei calada olhando a criaturinha se tremer e fazer caretas, imaginando se ela estaria se sentindo menos só assim.

Já escurecia quando levantei, me despedi da cadelinha e falei baixinho: “Volto amanhã.”

A porta da casa vizinha estava aberta e o homem daquela casa me olhava com curiosidade. 
Como por impulso perguntei se a criatura era dele e acenou com a cabeça.

A cadela quando viu o homem e a porta aberta veio se aproximando lentamente, talvez por receio, ou por causa da tremedeira.
"Você quer ela?" ele soltou.

“Eu quero saber o que ela têm!” respondi escondendo a raiva atrás dos dentes trincados.

“Ela tem uma bactéria no cérebro, levei pro veterinário e ele disse que não tem cura. 
Me falou como se explicasse o motivo dela estar na rua.

“Mas você quer?”

Eu não podia, ela não me deixava chegar perto, não era a mim quem ela queria, mas por mim eu já tinha levado dali.

Ela parecia comigo, ambas com algo que não conseguiam controlar.

E fui voltando pra casa chorando.

Como é fácil abandonar algo porque está quebrado!

Eu me sentia quebrada e abandonada também. Um dia eu esperei alguém abrir a porta pra mim, mas ele não respondeu. Havia se mudado, eu quis pensar. Ou era isso, ou era encarar a realidade, e eu ainda não estava preparada para ela.

E ao chegar na minha rua, ao bater na porta de casa abriram, entrei.

Amanhã eu volto, comecei a repetir pra mim mesma mais uma vez.