Relembrança
Seu Raimundo, um popular contador de estórias da cidade onde cresci, sempre se utilizava também de versos em suas narrativas, fosse no início, no meio ou no fim das histórias que contava. E eu jamais soube se os versos eram de sua autoria, apenas sabia que eram a marca registrada, a assinatura de seu Raimundo, e isso bastava.
Lembro de certa manhã, num domingo de junho, na escadinha de acesso ao coreto da praça, meia dúzia de crianças prazerosamente espremidas nos degraus estreitos, ouvíamos a voz pausada de seu Raimundo iniciando mais uma de suas histórias. Era então que tinha início a magia, com a história tomando forma à medida que seu Raimundo acrescentava detalhes, compondo cada ambiente e o clima, alimentando as imaginações, sempre muito atento à reação dos ouvintes; aliás, de acordo com essa reação, o tom da narrativa variava, ora emprestando cores mais ou menos fortes, ora sugerindo suspense e mistério, fazendo arregalar os olhinhos da platéia.
Aquela dedicação de seu Raimundo era motivo da admiração geral; afinal, seu tempo, sua criatividade e sua memória, isso sem falar da saliva, eram colocados à disposição de quem tivesse ouvidos para ouvir. Sobretudo, não havia quem não reconhecesse a importância dos valores que transmitia ou reforçava, bem como dos sonhos bons inspirados e tantas vezes sonhados sob a forma de verdadeiras viagens nas quais embarcávamos, percorrendo os deslumbramentos sugeridos e, o que é melhor, de graça e sem precisar sair do lugar.
Entretanto, convém atentar para o fato intrigante, que residia naquela disponibilidade de seu Raimundo, doando sua arte com o costumeiro capricho o que, convenhamos, é cada vez menos comum num mundo em que a pressa não cede espaços e tanta gente só tem olhos para o próprio umbigo. Essa questão, porém, não teria melhor nem mais clara resposta, senão nas rimas ritmadas de seu Raimundo, rimas que, como ele mesmo dizia, eram “pra começo de conversa”:
Permitam que me apresente,
Sou Raimundo de verdade,
Que deriva pra Mundinho.
Depende da intimidade…
Sou de ofício aposentado
E moro num sítio aqui perto,
Pros lados do sol poente.
O benefício é pequeno,
Mas vivo decentemente.
Quanto às histórias que eu conto,
Se inventadas, não importa…
Importa-me sua atenção,
Conquistar seu interesse.
Mas, pra dizer a verdade,
Acho mesmo que sou eu
O mais feliz nessa troca.
Ver aceso cada olhar,
Ser alvo de seu apreço,
É prêmio que não tem preço!
E esse começo de conversa já produzia a primeira satisfação, aquela traduzida pela excitação das boas expectativas, jamais frustradas por seu Raimundo. Tendo como ferramentas a palavra e o corpo, cujos gestos e a expressividade alternavam sentimentos, semeava sonhos, alegrias, benquerenças e esperanças.
Era sabido que seu Raimundo tivera muitos irmãos, que era de família pobre, lavradores num cantão fim de mundo e que, portanto, não foram poucas nem pequenas as limitações impostas pela vida, a começar pela impossibilidade de frequentar regularmente a escola. Pois, era aí, justamente aí que residia a grande curiosidade, tal a desenvoltura e correção de suas narrativas, sem falar na vastidão de seu repertório, na variedade de temas, na profusão de lugares, situações e personagens; a despeito de nunca ter se aventurado mais que cinco léguas estrada afora, seu Raimundo era, decididamente, um homem do mundo, pela capacidade de falar, simplesmente, de coisas comuns.
Houve um domingo, um domingo cujas cores, não por acaso, contrariavam aquelas que julgávamos ideais para domingos, com prenúncio de chuva mais tarde confirmado, quando, após os costumeiros versos de apresentação, seu Raimundo brindou-nos com a generosidade de sempre, embora eu, secretamente, considerasse aquele momento exclusivamente meu, para ser levado comigo, uma vez que me mudaria pra cidade grande dois dias depois e, assim, aquele seria o último domingo abrigado nos domínios felizes daquela praça:
A pretexto de aquecer,
O sol levantou cedinho.
Curioso que nem Raimundo,
Quer mesmo é saber do mundo.
Bisbilhota entre nuvens,
Invade janelas entreabertas,
Acordando toda a gente,
Revelando descobertas.
Com clarão e estardalhaço
Conta a história do dia,
E mesmo que o tempo vire
E caia água do céu,
Reinará até que a noite
Cubra tudo com o seu véu.
A esses versos seguiram-se outros, alternados com alguma prosa e era tamanha a arte, que dava pra imaginar verso e prosa como fios tecidos com esmero pelo artesão Raimundo. Embora ninguém soubesse que eu me despedia e me distanciaria dali, parecia-me que tudo vinha a calhar e, numa espécie de conspiração bem engendrada, como convinha às boas histórias, me levava a supor que cada verso me fazia seu destinatário:
Pessoas nos pregam peças,
Outras, o destino traça.
Surpresas já fazem parte,
Sem o quê, fica sem graça.
Nada é nunca por acaso,
Tudo vem de encomenda.
Melhor encarar de frente,
Rejeite nos olhos venda.
Vivência é o que importa,
É ela que abre a porta
Que descortina mais mundos,
Que alimenta mais sonhos,
Que é o início do caminho
Que nos conduz ao tesouro,
E não pensem que é de ouro,
Ou pedrarias brilhantes,
O tesouro descoberto.
Seu grande valor reside
Nos sentidos que desperta
A quem faz a descoberta,
Aumentando seu poder
De distinguir direções
E acertar mais escolhas.
Antes viver por amores
Que sofrer por dissabores!
A essa altura eu já amargava saudades antecipadas, com a perda anunciada pela decisão de mudança de meus pais. Então, ingênua ou sabiamente, arquitetando uma defesa para os meus receios, imaginei que os meus caminhos, dali pra frente, forçosamente me conduziriam a outras praças que, com a presença ou ausência de Raimundos, me remeteriam às mais gratas lembranças. Que consolo!