Meu pai, o futebol e o Corinthians

Desde pequena eu via meu pai assistindo jogos de futebol na TV. Naquela época eu não conseguia entender a razão de ele parar para assistir um Brasil de Pelotas x Criciúma num domingo à tarde. Também não entendia a razão de ele não poder perder um só jogo do Corinthians. Como pode um cara dos anos 60 ter virado um corinthiano roxo? Eu te explico! Do momento em que ele nasceu até seus 14 anos, o Corinthians vivia o mais longo jejum de títulos de todos os tempos. Nessa fase, o meu tio, irmão mais velho do meu pai, ficava pegando no pé dele, falando para todo mundo que ele torcia pro Corinthians. Isso porque o time não ganhava nada há 23 anos. Coisa de irmão, só para irritar.

E meu pai conta que, de tanto o irmão dele falar isso, ele acabou virando mesmo corinthiano. Ele sempre lembra com orgulho que assistiu em 77 à conquista do título paulista, quando o Corinthians encerrou o jejum, e que já era corinthiano antes disso. Com um pai desse, como não virar corinthiana? Bom, nem sempre. É só perguntar para o meu irmão, que foi na onda dos primos e virou palmeirense, para desonrar a família. De qualquer forma, cresci vendo meu pai sentado na beira do sofá, falando sozinho com a televisão. Minha mãe sempre dizia: “na hora do jogo, não incomode seu pai”. Eu não entendia. Num certo momento da minha infância, não lembro exatamente quando, aquele ditado “se você não pode com eles, junte-se a eles” fez total sentido às minhas tardes de domingos. Comecei a assistir os jogos com meu pai. Nunca mais larguei. E mais: virei jogadora de futebol!

Foi aos 11 anos de idade que eu comecei a jogar. Antes disso eu me lembro apenas de alguns flashs na cabeça, jogando futebol com tampinha de garrafa no pátio da escola onde eu estudava. Jogar de verdade mesmo eu comecei na igreja, onde as meninas jogavam toda segunda à noite e onde sempre tinha campeonatos de futsal. Um belo dia, viraram para mim e perguntaram: porque você não joga? Não me recordo se isso já tinha passado pela minha cabeça, mas mesmo assim comecei a treinar com as meninas e foi quando participei do primeiro campeonato. A gente perdeu. Mas nascia ali um time campeão e temível. Não estou zoando. Ganhamos vários campeonatos ao longo dos anos. Também perdemos alguns, inclusive um deles porque eu perdi o pênalti, coisa que alguns amigos ainda fazem questão de lembrar até hoje. O fato é que a cada pelada de segunda feira e a cada campeonato, minha paixão pelo futebol só aumentava. Eu não podia passar uma segunda sem jogar, fizesse chuva ou sol. Quão linda era a época em que minha única preocupação era em rapar a quadra quando chovia ou comprar outra chuteira porque a minha estava coberta de fita isolante.

Minha trajetória na escola também foi bem marcante. Joguei vários jogos e matei muita aula para isso. Me lembro que desde o ensino fundamental eu era uma das poucas meninas que ia para a quadra jogar futsal com os meninos na aula de educação física. Eu adorava educação física e os professores me adoravam também. Talvez fosse porque eu não era daquelas que inventava que estava naqueles dias em todas as aulas.

Em 2005 fomos disputar a Copa Guaraná Antártica. Não sei se alguém lembra, mas era aquele torneio apadrinhado pelo Kaká e pelo Ronaldinho Gaúcho. Passava até propaganda na TV. Pois bem, chegamos na final invictas. Era uma sexta a tarde e todo mundo da escola estava preparado para ir torcer no sábado bem cedinho. Já tinham até alugado ônibus para levar a galera. Não sei porque a euforia era maior, se pela final ou pelo fato do vencedor ir jogar na Granja Comari assistido pelo Kaká e pelo Ronaldinho Gaúcho. Enfim, estávamos concentradas na escola, quando chegou a notícia que o técnico do Marista, time que disputaria a final contra a gente, tinha entrado na justiça pedindo a nossa eliminação por escalação irregular de uma menina que teria menos de um ano na escola, o que não era aceito pelo regulamento. Sim, nós fomos eliminadas sem jogar. O sonho tinha acabado. Eu lembro como se fosse hoje, voltando pra Taguatinga dentro da kombinha da escola, chorando feito criança. A gente se abraçava como se tivesse acontecido um desastre nuclear na escola. Foi triste. Mas me diga, que tipo de pessoa, leia-se técnico do marista, faz isso com um monte de meninas inocentes de 15 anos só para tentar ganhar um campeonato de futebol? Enfim, o marista foi lá, jogou a final contra o time que tinha perdido para a gente na semi, ganhou, foi à granja Comari e tomou de 4x0 do time de São Paulo. Achei foi pouco. Tá, talvez eu ainda não tenha perdoado ele.

Hoje, costumo dizer que a idade começou a pesar. Até então eu nunca tinha tido nenhuma lesão séria. Só foi eu fazer 24 anos que tudo começou a desandar. Em uma das peladas de segunda, eu rompi o ligamento do tornozelo esquerdo. Acho que nunca senti tanta dor na minha vida. O resultado foi um mês de gesso, 40 sessões de fisioterapia e 8 meses parada. Isso não foi o suficiente para me fazer desistir. Assim que eu consegui, voltei a jogar. Meses depois tive bursite no quadril. Eu mal conseguia chutar a bola. Mesmo assim eu jogava. Claro, voltava para casa parecendo uma velha, tinha dificuldades de subir as escadas ou sentar na cama. Mais sessões de fisioterapia para a conta.

Voltei a jogar. Meses depois, em outra pelada de segunda, distendi o ligamento lateral do joelho esquerdo. What?? Fiz mais umas 20 sessões de fisioterapia e comecei a achar que estava na hora de pendurar as chuteiras. E realmente, depois disso ainda joguei uma vez ou outra, mas parei. Não por vontade própria, mas por falta de tempo mesmo. Faz quase um ano que não consigo jogar e não há uma segunda-feira sequer sem que eu deseje estar lá, com as meninas, jogando minha pelada. Afinal, foram 15 anos. Vicia.

Vicia assistir também. Eu assistia Corinthians e o que mais tivesse passando. Assistia Champions League, Eurocopa, Libertadores, Copa do Brasil, Paulista… Perder jogo do Corinthians para mim era tortura. Na copa do mundo de 2014, eu estava à toa em casa esperando ser chamada no concurso. Confesso a vocês que eu assisti nada mais nada menos que os 64 jogos da copa. Eu sentava no sofá as 13h e só levantava de novo as 21h, quando acabava o último jogo. Bons tempos. Hoje em dia ainda sou assim, mas num level menos hard. Acontece que agora eu tenho mais responsabilidades e não dá para ver tudo né?! Apesar de que, quando estou no trabalho e está passando Champions League, eu sempre coloco uma telinha no canto do computador para acompanhar. Que minha chefe não leia isso! Quando o Corinthians jogava em Brasília, meu pai sempre me levava. Lembro que a minha primeira vez no estádio foi em 2002, na boca do jacaré em Taguatinga, quando o Corinthians disputou o título da Copa do Brasil contra o Brasiliense. E ganhou, caso você não saiba. Que sensação incrível eu senti. E por isso eu já fui a São Paulo 3 vezes (muito pouco) assistir o Corinthians. Inclusive fui ver um clássico dentro do Allianz Park com torcida única. Pensa!!

Ninguém entende isso. Minhas amigas pegam no meu pé até hoje porque eu falo de futebol ou porque eu não quero sair num dia de jogo do Corinthians. Acho que elas ainda não acostumaram. Ser mulher e gostar de futebol é mais difícil do que parece. Sempre me intrometo em conversa de homem sobre futebol e até eu provar que sei alguma coisa demora um pouco. Muitos se impressionam na primeira vez. Quantas vezes já me pediram desconfiados para explicar o que é um impedimento ou para falar a escalação do Corinthians de cor. Eu fico ligeiramente incomodada quando conheço um cara que não gosta de futebol. Sério! Como alguém não gosta de futebol? Só que eu tenho vários amigos assim. E o pior, eu sempre comento sobre futebol com eles, mesmo sem eles gostarem. Tá bom que eu falo sozinha, mas ainda assim acabei de me dar conta de que eles são ótimos amigos por me aguentarem (nota: me lembrar de agradecer a eles). Eu já fiz amigas procurarem um lugar com TV para a gente lanchar para eu poder assistir ao jogo. Já marquei encontro na quarta à noite avisando que ia rolar jogo do Corinthians e, ou ele assistia comigo ou eu ia ter que ir embora as 21:45. Ele assistiu comigo. Mas gente, isso é um problema. Uma mulher que gosta de futebol talvez chame a atenção de alguns num primeiro momento. “Nossa, que massa! Ela curte futebol!” Mas não é algo que encanta. Eu sempre falei que Deus distribuiu errado os dons entre eu e meu irmão. Ele ficou com a música e eu com o esporte. Tinha que ter sido ao contrário. Onde já se viu um cara falar: “Nossa, que coisa mais linda essa menina chutando essa bola” ou: “Me apaixonei no momento que ouvi ela falando que Sócrates não era um filósofo.” Não, isso não acontece. Não existe João chuteira por aí. Agora, pensa comigo. E se eu cantasse bem e tocasse violão como meu irmão? Jamais saberemos!

O fato é que Deus quis assim. E quer saber, eu sou muito feliz assim. Quantos momentos lindos eu tive com meu pai por causa do futebol. Juro. É uma ligação muito legal. It’s our thing. E só por isso já valeria a pena. Mas não é só por isso. Quantos papos legais já tive por causa de futebol ou quanta gente legal eu conheci por causa disso. Quantas emoções, que só quem é torcedor de verdade entende, eu já senti. Dia de mata-mata na Libertadores é dia de nervosismo e nó no estômago, coisa que talvez eu só vá sentir no dia do meu casamento (ei, eu também sou romântica). Assistir jogo no estádio e gritar o gol do seu time não tem preço. Muitos não entendem as paixões uns dos outros. Muitos não entendem a minha. Ela foi passada do meu pai para mim, mesmo que inconscientemente, e hoje a gente compartilha juntos o futebol e o Corinthians, que por sinal nos dão muitas alegrias e jamais vou lamentar por isso. Apesar da má fase atual, até o mais convicto “anti” há de convir comigo que o Corinthians, atual campeão brasileiro, ganhou tudo que tinha para ganhar nos últimos 5 anos e é o melhor time do Brasil! É claro que eu não podia terminar sem puxar brasa para minha sardinha. E vai Corinthians!

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