Ciclos

Celise Rey
Nov 5 · 2 min read

Tem o céu. E dentro do céu tem estrela, tem nuvem, tem o avião que passa e a revoada de passarinhos em formação geométrica. E tudo tem hora para acontecer. De manhã, o arrebol me lembra que a vida pode ser mais bonita do que a gente tem a capacidade de enxergar. Tarde da noite, as pintinhas cintilam pra dizer que não importa quão vasta e profunda seja a escuridão, sempre tem algo de belo para se observar.

Tem a terra. E dentro da terra tem vida, tem pedra, tem raiz, em minhoca, tem o brinquedo roído do Joca, que escondeu em 2009, naquele domingo de sol, cavocando com as patinhas velhas, como sempre fez. E tem o Joca também. E acima da terra, tem a grama e o limoeiro que eu plantei com as minhas mãos, o limoeiro que deu o limão que a gente usou no churrasco, naquele domingo de sol de 2009. E tem flor, tem fruta, tem entulho, sujeira e gente. A noite esfria, de dia é bem quente. É úmida no verão, pra no inverno secar. Tem preta, tem vermelha, tem branca, tem buraco, tem de monte e tem quem sinta falta. Eu nunca senti.

Tem a semente. Que nasceu junto com fruta e era macia por dentro, mas com uma casquinha bem dura por fora, quase impenetrável. Não fosse pela chuva que caiu durante a noite, escondendo as estrelas, esparramando a semente pela terra logo na manhã rosada. Era macia por dentro e dura por fora, quase impenetrável. E de repente a casca rompeu de dentro pra fora e a semente virou raiz que virou limoeiro que deu limão para o churrasco de domingo.

E tem eu.
Que sempre desfilei com a tez do alvorecer, um dia também abriguei uma noite escura e longa dentro do peito, que teimou em mostrar estrelas, como outrora fizera, mais uma vez.
Muito pertinaz e sabida, é comum que mostre a vida, todo mundo um dia cai.
Jã sentia o gosto da terra, quando minha casquinha (tão dura, quase impenetrável!), se rompeu. Foi de dentro pra fora que germinei, criei raiz e brotei. Eu tinha limões. Fiz o melhor que pude com eles.

Nada é permanente.
Nem o dia, nem a noite, nem a semente, nem o Joca.

Felizmente as coisas mudam. Mesmo que a casquinha seja dura.

    Celise Rey

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