Hei, tenho te procurado

Celise Rey
Jul 28, 2017 · 4 min read
Fonte: Pixabay

Hoje, eu acordei com um propósito muito bem definidinho: te encontrar. Eu ainda estava amarfanhada com as marcas do lençol embolado nas pernas quando joguei meu braço do lado pra alcançar a extensão dele, o celular. Te procurei nas minhas mensagens, como eu faço todos os dias, e você não estava lá. Você não tem estado lá há algum tempo, agora. Mas eu não deixo de dar uma espiada, mesmo assim, só pra sentir aquele beliscão chato no peito que não tem outra função a não ser, nos puxar pelos calcanhares para a realidade.

“ …baby, I’ve been, I’ve been praying hard. Said no more counting dollars, we’ll be counting stars”, no carro à caminho do trabalho eu te procurei também. Você poderia estar no carro ao lado, trocando estações. Seria você o tipo de pessoa que acompanha o trânsito pela CBN e ouve pela enésima vez o Mauro Halfeld aconselhar, de forma paciente, que a melhor forma de investimento é o tesouro direto? Ou você é daqueles que meditam no carro? Praticam mandarim? Talvez você seja um dos rapazes bonitos que esperam o sinal verde checando o celular. Vocês estão sempre checando o celular enquanto eu estou olhando pra frente. Ou seriam vocês os caras que estão sempre olhando pra frente enquanto eu estou checando o celular? Nunca vamos saber. A questão é que hoje, você não estava no trânsito. E se você estivesse o que aconteceria? Você me seguiria até conseguir falar comigo? Em outros tempos eu acharia isso extremamente romântico, hoje nós somos aconselhadas, de forma prudente, a chamar a polícia.

Pronto, talvez eu teria te levado em cana. Que bom que não nos encontramos no trânsito.

No trabalho, sabemos que eu não iria te encontrar. Mas no almoço do trabalho, sempre é possível. O almoço do trabalho é aquela hora em que você pode fechar a janela de e-mails, ignorar as respostas tortas, dar as costas para os problemas não resolvidos e enterrá-los, com sorte, em uma porção de carboidratos de índice glicêmico bem alto, sentindo-se satisfeita por permitir que isso aconteça de vez em quando.
Você poderia estar na fila do self-service. Você seria o cara que pula as saladas e vai direto pros quentes, ignora todos os legumes e pega só fritas com carne? Eu espero que não. Fibras são importantes. Mas eu sei o tipo de cara que você não seria: o que tira os verdinhos da comida. Acho inaceitável quem faz expedição arqueológica no prato de comida em busca de salsinha. Larga a merda da salsinha no arroz, come a garfada completa e descobre que pronto: salsinha com arroz tem gosto de arroz. A não ser que você seja gentil, tenha um sorriso bonito, divida a mesa com as pessoas sem fazer cara feia e deixe o último palmito da bandeja pra mim. Então, tudo bem, talvez eu seja capaz de ignorar seu toque com salsinha.

Você não estava no almoço do trabalho nem no fundo da embalagem do chocolate meio amargo que eu comi pra ficar feliz e esquecer a falta que você me faz.

Você também não estava no mercado no final do dia. Nos filmes as pessoas sempre te encontram no mercado. Você vai pegar aquela fruta mais brilhante da pilha e pronto, você esbarra com ele escolhendo a mesma fruta que você. Mas o problema é que todo mundo sabe que eu sou o tipo de pessoa que compra frutas pra deixar que elas estraguem na geladeira. Não é o tipo de coisa que a gente se orgulha, mas é a verdade. E se você for como eu, é bem possível que eu esteja escolhendo sozinha frutas que não serão comidas. Talvez a gente nem compre a mesma marca de sabão. Talvez você leve suas roupas na lavanderia e eu não vou te encontrar nem na fileira dos produtos de limpeza. Mas eu torceria muito, muito mesmo, pra te encontrar escolhendo detergente neutro que não resseca as mãos e você sabe disso porque lava muita louça. Porra, você poderia muito ser essa pessoa.

Enquanto eu cruzo o quintal de casa com meia dúzia de sacolas que me custaram R$ 200,00 (porque a gente sempre gasta mais do que programa no mercado?), o peso do dia e a frustração de saber que você está em algum lugar, que não é a meu lado, eu olho pro céu, conto as estrelas, e penso que talvez você esteja fazendo a mesma coisa.

Dizem que o amor vem para os distraídos. Mas como vou te encontrar enquanto você se distrai de mim?

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dei match com as palavras

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