Horóscopo do dia

A tela mostrava: 6h58 e ela jurava que, dessa vez, não apertaria Soneca novamente. Se pelo menos ela soubesse como enfrentar o dia ou a falta de vontade de enfrentar o dia, talvez, a função “despertar” do celular seria mais respeitada. Abre o feed das redes sociais, nada de novo ou interessante. Abre o mensageiro instantâneo: pombos da paz farfalham as asas e um Jesus Cristo otimista demais pra uma segunda-feira deseja ‘BOM DIA!!!’ com pontos de exclamação tão excedentes quanto as correntes que a Tia Lourdes insiste em repassar no grupo da família.
— Levanta, Luciana. O seu dia só vai começar se você levantar e ninguém vai acreditar que a culpa desse sono descomunal é o sol em Touro — repetiu pra si mesma, pras paredes e pro elefante com a bunda virada pra porta de entrada da kit net. Diziam que dava sorte. Luciana queria acreditar que sim.
A verdadeira sorte dos taurinos, pelo menos segundo a Luciana, era que a fome sempre era uma ótima motivação pra despertar do sono e enquanto comia o pão murcho de ontem (já que como típica taurina, julgava-se preguiçosa demais pra buscar pão fresquinho) resolveu que leria o horóscopo do dia, na esperança de que as coordenadas da sua vida tão sem rumo estivessem estampadas ali, esperando apenas para serem lidas, absorvidas e seguidas. Eram só dois cliques, um no aplicativo outro no calendário. Era tudo o que bastava pra ela saber se mandava hoje ou nunca o chefe à merda, se dava um jeito naquele cabelo, se continuava na Kit net (com infiltração em todas as paredes) ou mudava pra Austrália com a Isadora (que aliás, estava silenciada no mensageiro por argumentar de forma muito consistente sobre como seria extremamente benéfico se “você tocasse com a sua vida, Luciana! Vem pra cá, criatura”).
Se pelo menos a lua não fosse em Gêmeos, ela com certeza teria tomado decisões mais assertivas em relação a todos os aspectos da sua vida que agora estavam assim, tão bagunçados quanto suas gavetas. Gavetas essas, que abrigavam de forma caótica o jeans mais surrado do universo, camisetas grandes demais pra sua silhueta, meias sem par, vestidos batidos, dois sabonetes que a mãe insistiu “pra deixar tudo cheiroso filha” e lingeries lindas esquecidas no fundo da gaveta. De vez em quando ela até dava uma esbarrada em uma ou outra e enterrava tudo no canto mais escuro do guarda-roupa pra não ter que rever, exatamente como fazia com as lembranças do último flerte que acabou em pizza. Literalmente. Pizza sozinha na kitnet, meia Margherita, meia bolo colossal do último “oi sumida” que havia cruzado a sua vida.
Se a lua não fosse em Peixes, talvez a Luciana não teria planejado o encontro mais incrível do mundo depois da terceira mensagem entregue e vejam só: lida e respondida. Nem imaginado um beijo tão eletrizante que iluminaria toda a cidade e como o casamento deles seria destaque na coluna social. Mas e se o aparelho ortodôntico do terceiro filho não fosse coberto pelo plano empresarial do marido? Tudo bem, porque sendo ele incrivelmente bem-sucedido, recursos não faltariam.
Pelo menos o sol em Touro garantiu a pizza.
E agora, na manhã de segunda-feira, com o jeans que estava a um fiapo de arrebentar no joelho e uma camiseta com a amistosa mensagem “pretty good at bad decisions” ela relia, com toda atenção que podia reunir depois de 400 ml de leite com o dobro de achocolatado, o Horóscopo do Dia.
20/08/2017
SEG -Suas escolhas de hoje estão protegidas pelos astros. O oceano só é majestoso porque foi composto pelas infinitas curvas que as águas fizeram ao percorrer os rios. Escolha você também um percurso diferente. Palpites: 76, 31 e 04. Cor: Fúcsia
Luciana não era o tipo de pessoa que voltava atrás nas decisões que tomava, mas ao tentar pela terceira vez entender “as infinitas curvas que as águas fizeram ao percorrer os rios? Que diabo é Fúcsia?” talvez estivesse ligeiramente arrependida de ter decidido seguir rigorosamente o horóscopo hoje. O dicionário dizia que Fúcsia era Magenta. “Mas que dicionário de merda. Vamos clicar em Magenta. Hum, aparentemente rosa escuro. Gente, isso é pink. Eu posso lidar com pink!”. Voltou pro armário, a única coisa pink-magenta-fúcsia que estava à sua disposição era um conjunto de calcinha e soutien de renda, sem uso há 7 meses, 3 semanas e 7 horas, e eficientemente escondido no canto escuro do armário.
_Que seja! — Percebeu que fúcsia era exatamente a cor do bordado da camiseta “pretty good at bad decisions”. Riu da ironia, mas estava certa da sua decisão. Hoje renda combinava com algodão, jeans surrado e leve atraso na rotina. Pegou a bolsa correndo e só no caminho pra pegar a linha 67, lembrou que deixou o VR em cima do aparador na entrada da Kitnet. Pensou em voltar correndo, mas quando se virou pra voltar, viu de soslaio o ônibus passar pelo ponto, sem parar. Descobriu hoje a existência e já odiava Fúcsia.
_ Dá licença, eu sempre pego o 67. Qual a próxima linha que passa em direção ao centro? — Foi informada com impaciência pelo leitor concentrado da Gazeta Diária: 76.
“Palpites: 76, 31 e 04. Cor: Fúcsia” — repetiu novamente o Horóscopo, ajeitou a alcinha do soutien e decidiu que hoje, ela ia de 76. O ponto mais próximo dessa linha estava há 6 quarteirões do escritório, na rua arborizada onde todo mundo (mas ela não) ia tomar café, olhar vitrine e esticar as pernas na hora do almoço. Com três ou quatro boutiques e um salão de cabeleireiro que normalmente não frequentaria, achou que 40 minutos extras de atraso não deixariam Oliveira mais boçal e rude do que costumava ser e decidiu, a contragosto do chefe e sua rigidez com horários, que hoje, ela repicaria o cabelo. Porque toda mulher que muda, repica o cabelo. Ela poderia ser o tipo de mulher que repica cabelo. Ela teria franja, oras! “Já que é pra mudar, vamos mudar. Eu uso soutien de renda e corto franjas. 76, 31 e 04. Fúcsia. Franja. A porra do rio no mar!”.
Quando apontou na primeira baia do escritório, 2 horas atrasada, com uma saia rodada da Boutique Flor-de-Lis, blusa bem assentada, cabelo nos ombros e franja, Claudenice nem poderia ser culpada pelo rompante esbaforido e o puxão pelo braço:
_ Amoooreeee, tem que fazer o cadastro na recepção e esperar a liberação da segurança! Não pode ir entrando assim, não. Aqui é uma zona, mas é uma zona organizada. E por mim, querida.
_ Claudenice, sou eu, caramba.
_ Luciana, benzadeus. Finalmente, hein filha? Olha esse corpinho. Olha esse cabelo. Luciana do céu, você ganhou na loteria? Luciana, não me fala que você veio pra dizer que não entrou no Bolão da firma porque jogou sozinha e bateu. Peraí que eu vou ter que falar com a Néinha do almoxarifado. Ela NÃO-VAI-ACREDITAR.
_ Eu, hein Claudenice? Tá doida?
_ Bom, se você não ganhou na Loteria, vai ter que inventar uma desculpa melhor pro Oliveira. O homem tá pistola, amore.
Respirou fundo. O horóscopo não ia deixá-la na mão agora. Se nem o cartão de crédito desabituado com gastos tão expressivos deixou, o Horóscopo do dia é que não haveria de deixar. Acomodou-se na sua baia, abriu o sistema. Reviu o workflow do dia e começou a revisar, como era de sua responsabilidade, os relatórios de gastos do departamento. Odiava finanças. Odiava o carpete fedido instalado porcamente no andar. Odiava a rinite (causada pelo carpete porcamente instalado no andar) que a obrigava a viver munida de lenços de papel na mesa e, sobretudo, odiava pensar que aquela sombra gigantesca nos seus ombros era produzida pelo corpanzil do Oliveira, que há 15 minutos observava confuso a garota que ocupava o lugar de Luciana no escritório.
_ Deseja alguma coisa, Sr. Oliveira?
_ Por favor, localize e peça que venha até a minha sala a funcionária Luciana. Quem é você, pelo amor de Deus?
_ Sr. Oliveira, sou eu, a Luciana.
_ Luciana? Fez plástica ou alguma coisa assim? Parece outra pessoa. Enfim, não é da minha conta. O que tenho pra tratar com você é a sua indisciplina com horários. Você sabia que todo o departamento pode ser prejudicado por causa do índice de absenteísmo crescente causado pela senhorita? Quando ninguém receber o bônus no final do ano, vou deixar bem claro na nossa tradicional festa de confraternização que a culpa é da senhorita, Luciana. E a senhorita, sabe onde vai estar?
- Sei sim, Sr. Oliveira. Na Austrália.
Achou que ia desmoronar sobre seus calcanhares, mas isso não a impediu de pegar sua bolsa e marchar de volta em direção à Claudenice, na recepção, rindo baixinho da expressão confusa de Oliveira ao vê-la passar com seu novo corte de cabelo e a atitude confiante que parecia vestir tão bem quanto a saia nova da Boutique Flor-de-Lis.
_Claudenice, fala pro RH preparar minha papelada, tô pedindo as contas.
_ Tô falando que você ganhou na Loteria, Luciana. Não adianta esconder de mim não, amore. Quando a minha joanete dói, tem agito no dia. E hoje a bicha tá que tá!
_ Claudenice, não tem loteria. É que o oceano só é majestoso porque foi composto pelas infinitas curvas que as águas fizeram ao percorrer os rios.
_ Hello? Não tá falando coisa com coisa, amore.
_ Tô sim, Claudenice. Good bye for you. And for your record, “amore” é teu cu.
Quando passou pela porta giratória do prédio e sentiu o vento tão característico de Agosto atingir com vigor as têmporas, achou que nunca experimentara nada parecido com aquela liberdade, poder e… falência.
Tinha um dinheiro guardado, mas até quando? Nem o vale-refeição que poderia comprar-lhe um almoço bem calórico pra comemorar toda aquela coragem e confortar por tamanha irresponsabilidade (maldita lua em Gêmeos!) ela tinha consigo. Caminhou até a rua arborizada novamente pensando que talvez devesse tentar devolver as roupas novas e enquanto decidia se desfazia-se da sua saia esvoaçante que deu-lhe tanta coragem, sentou no Café 31, pediu um Machiatto e abriu o mensageiro no celular.
_ Isa, mandei a Claudenice tomar no cu em inglês.
_ HAHAHAHAHAHAHA. MEU DEUS, LUCIANA. QUEM É VOCÊ?
_ Tem mais, Isa. Deixei o Oliveira falando sozinho e avisei que pedi as contas.
_ Você tá falando sério, Luciana? Péra, que o fuso não colabora. Eu posso estar delirando. Você pediu as contas e blasfemou pra Claudenice no mesmo dia?
_ Sim. Tem mais.
_ Hoje meu coração pede falência. Fala, Luciana.
_ Tô indo pra Austrália.
_ NÃO. PODE. SER.
_ Mas Isa, eu só tenho dinheiro pra passagem. Você sabe que eu tenho poucos dotes, sou levemente desajeitada, completamente indecisa e já falei que só tenho dinheiro pra passagem?
_ Lu, só vem. A única coisa que separa você da felicidade é esse oceano de autossabotagem que você insiste em preencher com rios e rios de decisões que você não toma. Só vem, amiga.
Luciana cuspiu o gole generoso de Machiatto que havia acabado de dar e encarou a tela pensando se aquele dia inteirinho tinha realmente acontecido. A franja tapando levemente a visão periférica a lembrava que sim.
Nem acreditava que três semanas atrás estaria folheando pela quinta vez as pilhas de relatórios de gastos dos departamentos e hoje, lia com despretensão a revista da companhia aérea responsável por alçar o voo mais alto que faria na história da sua vida. Por pirraça, vestiu a camiseta “pretty good at bad decisions” e escolheu uma bagagem de mão na sua nova cor favorita. Enquanto olhava pra baixo lendo, mas não absorvendo nada da revista, ouviu uma voz ao fundo repetir incansavelmente uma mensagem que ela aparentemente não estava recebendo.
_ MOÇA!
_ Oi, me desculpe, estava distraída.
_ Sim, percebi. Mas tudo bem, respeito ávidos leitores de revistas de avião portadores de frasqueiras fúcsia.
Luciana corou. Primeiro, porque o portador da mensagem era incrivelmente atraente. Segundo, porque definitivamente sabia como perdoar uma distração e finalmente, porque sabia o que era fúcsia. Principalmente porque fúcsia estava em todo seu rosto.
_ Acho que você está na minha poltrona. Eu particularmente prefiro mesmo a janela, mas achei que era honesto da minha parte avisar que você tem o assento mais bacana da nossa fileira.
Luciana automaticamente contabilizou pontos extras para seu novo amigo de viagem e desejou fortemente que alguma força cósmica paralizasse já sua Vênus em Peixes enquanto maiores estragos ainda podiam ser evitados.
_ Eu não me importo, pode sentar na janela. Já estou tão feliz de estar percorrendo esse caminho que não faz diferença onde vou sentar.
_ Pois bem, muito generoso de sua parte, obrigado. Mas devo advertir que a sua camiseta não concorda com você.
_ Desculpe, você não disse o seu nome.
_ Marcelo, prazer. E o seu, garota da frasqueira Fúcsia com camiseta de dizeres pouco lisonjeiros?
_ Luciana. Mas em defesa da minha camiseta, devo dizer que ela tem me dado muita sorte e não faz jus à mensagem que passa.
Luciana parou e pensou no longo caminho que tinha percorrido até então. Quase sentiu o gosto do leite com achocolatado extra que tomou na manhã em que decidiu que o horóscopo determinaria o curso daquele dia e agradeceu por ser esse tipo de pessoa, à contragosto de muita gente, fissurada pelo próprio mapa astral.
Como em um gesto de agradecimento, achou que devia reabrir o aplicativo e reler a mensagem, quase uma oração, que mudou toda a sua vidinha tão bege.
20/08/2017
SEG -Suas escolhas de hoje estão protegidas pelos astros. O oceano só é majestoso porque foi composto pelas infinitas curvas que as águas fizeram ao percorrer os rios. Escolha você também um percurso diferente. Palpites: 76, 31 e 04. Cor: Fúcsia
Havia apenas um detalhe, de extrema importância, que ela havia deixado escapar.
20/08/2017
ÁRIES
SEG -Suas escolhas de hoje …
_ MEU DEUS, É ÁRIES.
_ É, eu sou de Áries. Como que você sabe? Pessoalmente eu realmente não faço ideia do que isso quer dizer. Mas uma vez olhei a data do meu nascimento e vi que sou de Áries.
_ Quer dizer que eu não sei o que eu tô fazendo aqui.
_ Você tá indo pra Austrália. Ou deveria.
_ Mas eu não deveria estar indo pra Austrália, você deveria estar indo pra Austrália, porque você é de Áries e eu sou de Touro.
_ Luciana, primeiro, respira. Eu não te conheço bem, mas você parece estar nervosa. Se você chegou até aqui, nessa poltrona com uma camiseta BADASS dessas e uma frasqueira com cor de marcador de texto, provavelmente é porque sabia onde queria chegar. Esse é o tipo de declaração que só garotas de atitude fazem. Você é uma garota de atitude.
_ Eu sou uma garota de atitude.
_ Você escolheu sozinha fazer esse percurso diferente.
_ Eu… escolhi sozinha fazer esse percurso diferente.
Fechou o celular. Desinstalou o aplicativo e passou exatas 4 horas, antes do primeiro cochilo, ouvindo o Marcelo contar como, entre tantas outras coisas, sua pizza favorita era Margherita e o plano ortodôntico da sua empresa era muito bom.
