Não transforme o que você ama em obrigação.

Oficialmente, eu sou redatora há 10 anos. Extraoficialmente, eu sou redatora há 31 anos. A primeira pauta concluída com sucesso foi um job de naming, aos 3 anos de idade. Ironicamente, uma das coisas que mais tenho dificuldade até hoje. Acho complicado você chegar pra alguém e dizer: “então, sabe aquele projeto que tem te tirado o sono há meses? Sabe aquela ideia de negócio que vai te trazer realização pessoal, fama, fortuna e orgulho pra família? Tá aqui 3 opções de nome, escolhe”. Puta responsabilidade. Chega dar sudorese na palma da mão. A gente fica encarando o cursor do editor de texto por horas. Escreve, apaga. Escreve de novo. Acha que teve uma ideia revolucionária, transgressora… vai beber um copo d’água, lê de novo e conclui: ‘mas que bosta’. Apaga e começa de novo.
Mas não aquele job dos 3 anos de idade. Aquele não. Aquele eu fiz de forma espontânea, natural, quase que mágica. “Eu quero que se chame Redman!”. Coloquei minhas mãozinhas no banco do Fusca vermelho, projetei meu corpinho entre meu pai e minha mãe e disse com toda propriedade que uma garotinha pesando dois sacos de arroz pode ter: “Se for menino, quero que se chame Redman”.
Duas intervenções necessárias pra continuar essa narrativa que não vai interessar ninguém além da minha mãe (criatura que me ama) e meu irmão: em 1988 ninguém se importava com cadeirinhas no carro e meus pais optaram por não saber o sexo das crianças, portanto, se o Redman não fosse o Redman, eu gostaria muito que ele fosse a Tascila.
A verdade é que, além do meu primeiro job ter sido um naming, ele foi aprovado de primeira, sem alteração. Todo redator sabe o júbilo que é ver um joinha entusiasmado do seu diretor de criação, do editor, do atendimento, do cliente. Meu job tá circulando por aí até hoje, um varão de 28 anos que curte Nietzsche, alguma variação de metal muito pesada que sou incapaz de elencar, apto a conversar com qualquer bípede (e manter-se cordial, mesmo que enfadado), inteligente, sagaz e detentor do título de única pessoa que um dia disse: “nunca mais vou beber” e não bebeu mesmo. Redman é um cara de personalidade, sabe? Não tem como achar que ele é bege, passível de esquecimento. Ele é daquelas pessoas que você conhece e pronto, não tem como colocar no balaio de gente comum. Não sei se a pessoa veio a partir do nome ou o nome veio no molde certo pra pessoa, a questão é que: puta acerto, bicho.
Onde quero chegar com isso? Eu quero chegar onde estou agora: sentadinha no escritório da minha casa, escrevendo esse texto com extrema alegria porque… bem, eu gosto de escrever. E porque eu gosto de escrever, eu escrevo de forma satisfatória. E porque eu escrevo de forma satisfatória eu reconheci a oportunidade de trabalhar fazendo o que eu faço bem, naturalmente.
Eu passei a escrever muito, todos os dias. Mas com prazos, com metas, com temas e com muita gente me dizendo o que fazer. No começo a gente pasta um pouco e sofre. Mas depois de pastar muito, acostuma com o sabor da grama. E por acostumar com o sabor da grama, pasta mais, todos os dias. Até que escrever não é natural mais, pastar é.
O que você ama virou uma obrigação e quando você é obrigado a fazer algo, não ama mais o que faz. E então, você descobre-se infeliz. Quando a sua régua que mede êxito é pautada em felicidade você descobre que não importa o quanto as outras pessoas te julguem capaz, você acha que não é bem-sucedido.
Veja bem, por que meu primeiro job foi aprovado de primeira e é um sucesso circulando pelo plano terreno até hoje? Porque eu fiz com amor. Com alegria. Com entusiasmo. Com propósito.
Hoje, dia nacional do escritor, eu finalmente cedi aos apelos de meia dúzia de doidos -que acham que meus textos são dignos de leitura- e finalmente voltei a escrever por amor, não por dever. Talvez esse seja o segredo de todas as pessoas bem-sucedidas (e detentoras de sanidade mental) no que fazem: um misto de desprentensão, talento e fé.
Eu acredito despretensiosamente que é possível ser feliz e bem-sucedido.
E você?
