Carnaval Passado

por Leigh Gillam: https://goo.gl/jaUH0B

Dois mil e dezesseis e nos fechamos em sei lá quantos amigos na Mansão Kürten de Veraneio, em Itapoá, apostando nas companhias pra render um carnaval todo durante a despedida da Cátia e da Duane, que iam — e foram — para os Estados Unidos, munidos de piscina só-Jesus-sabe-quantos mil litros, jogos alcoólicos e nãos, conversas sem destino e o potencial de cada um para a desnorteante embriaguez. Tanto que mal lembro o todo, apenas fragmentos, e ao invés de jogar uma serpentina, estouro um canhão de confetes para contar o causo. Desculpe a sujeira.

Passamos protetor, nos munimos de latas geladas e cheias que logo se esvaziaram para dentro de nós e da piscina.

Três dias de bebedeira completos, Eu e Scholzer voltamos da praia à noite, linha reta de dez ou quinze minutos, a sensação é a de que nunca chegaremos lá.

O protetor se dissolve na água quando mergulhamos, iniciando algo que era melhor não.

Ao entardecer, a cabeça embarcada de cerveja e maresia, observando a areia molhada secar pela pressão dos pés, mudando de cor, vejo uma cama elástica.

Cards Against Humanity — jogo nota 10 no quesito caos levado pela Ana — separa a casa em dois grupos: pessoas que não prestam e pessoas que prestam menos ainda.

À noite, na praia, roda de conversa e cervejas e marolas e uma menina de vestido branco passa saltitando — sem motivo e de repente e sem família à vista.

Parece que andamos há horas, escuro e frio, ainda temos esperanças de acabar essa reta.

Latas bóiam a minha volta, vertendo sua essência na alquimia que acontece sob o sol.

Ariel desenha crop circles na areia da praia — aqueles usados para enviar mensagens a alienígenas — e Pier ajuda, animado com a possibilidade de visualização fora da terra.

Quem deixa uma criança solta assim de noite?

Mostro a cama elástica para os demais, que começam a pular — acho que tão me zoando.

Existem duas redes na casa e uma guerra não declarada para ver quem as ocupa.

Pier se posiciona entre os crop circles e olha para o céu, esperançoso. Vou falar com ele e derrubo uma das bordas sem querer.

Estamos chegando? Pergunto pro Scholzer, que também sabe de mais nada.

Um fantasma praieiro, só pode ser um fantasma praieiro.

Depois de anos sem andar de bici, pedalo uma e Egon a outra, cada um equilibrando três ou quatro fardos de cerveja.

A cada dia, sinto a água descer mais devagar ao sair da piscina.

Sigo a menina de vestido branco com o olhar e encontro o da Raquel, cê viu aquilo?, perguntamos sem dizer nada, e no desespero do outro encontramos tranquilidade.

Acho que já passamos, Scholzer diz, e ao virarmos para trás nos deparamos com a praia há duas miseráveis quadras de distância.

Eu sou o pistoleiro Papaco — Egon durante o jogo de velho oeste, regras em breve.

Com o círculo de areia quebrado, Pier briga comigo, decepcionado. Scholzer ri e compartilha a cena: o alien lá em cima, em sua nave, vê algo na praia e breca o veículo, engata a ré para olhar lá embaixo, lendo em voz alta: quero ser abdu… quero ser abdu… abdududo… quero ser abdududo?, ah! — protesta e canta pneus interplanetários ao acelerar pela galáxia.

Viram o Leo? Acho que ele foi engolido pela piscina.

Prove que cê não é um robô, prove — conversa numa noite, mergulhados na água grossa.

Dois risquinhos azuis vindos do espaço, nenhuma resposta.

Saque™ é simples: todos sentam em roda e ameaçam atirar uns nos outros até alguém gritar SAQUE!, cada um puxa duas armas — representadas de forma adulta através de polegares levantados e indicadores esticados — e aponta cada uma para quem quiser.

Topa entrar na piscina?

Ganha quem levar menos tiros.

Mas será que a gente afunda?

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