Argentina acorda e agora precisa encarar a dura realidade

O país considerado por anos como um dos mais desenvolvidos da América do Sul enfrenta dias amargos. O novo presidente adota medidas liberais para estancar a sangria causada pelo populismo dos Kirchner. Claro que ninguém está gostando.

Mauricio Macri tomou posse como presidente da Nação Argentina no dia 10 de dezembro de 2015. (Foto: Infobae)

Após um ano como presidente eleito por 51,3% dos argentinos, Mauricio Macri ainda não conseguiu conquistar a população. Em uma pesquisa encomendada pelo jornal Clarín, 43,1% dos entrevistados considera a gestão do empresário ruim ou péssima e 51,6% acredita que ele não está cumprindo com suas promessas de campanha. O que aconteceu?

Macri assumiu a Casa Rosada, sede do Poder Executivo, em Buenos Aires após dois mandatos consecutivos de Cristina Kirchner, uma peronista. A Argentina esteve sob o poder do Kirchner por doze anos, pois o marido de Cristina, Nestor (falecido em 2010), foi presidente de 2003 a 2007. Traçar uma nova rota para o país tem sido o maior desafio do novo presidente.

Uma dose do remédio amargo para o povo argentino é o fim de subsídios e medidas aplicadas em mandatos anteriores de caráter populista, especialmente no de Cristina Kirchner. O atual governo propõe medidas impopulares a fim de recuperar a economia da Argentina, cuja inflação beira os 40%(para se ter uma ideia, o Brasil tem “apenas” 10% de inflação).

Manifestação popular contra o presidente Mauricio Macri. As medidas adotadas pelo novo governante são um balde de água fria nas políticas populistas da ex-presidente Cristina Kirchner. (Foto: divulgação/Twitter)

Em abril deste ano (quinto mês de governo Macri), subsídios de tarifas de água, gás, luz, telefone, ônibus e trem foram cortados e seus preços passaram a subir desde então. As empresas que prestam estes serviços recebiam dinheiro do governo federal para manter os preços mais baixos do que realmente eram. O jornal La Nación relatou que a companhia estatal de água tem solicitado ao governo o reajuste da tarifa desde 2014, mas sem êxito. Agora com o fim do subsídio, uma conta de água que geralmente custava 90 pesos (R$20) passará a custar quase 500 (R$109).

Não faltaram críticas ao governo. Segundo o Clarín, com tom quase pedagógico (…) Maurício Macri disse que os argentinos tem que “ajudar sendo austeros” no consumo, enquanto seu governo resolve “os erros que se tem feito nos últimos dez anos” na questão energética, e diagnosticou que levará de “cinco a seis anos” para deixar de importar gás.

Enquanto isso, o gás importado custará para os consumidores mais que o dobro, de US$2 para US$4,50. Para o ex-prefeito de Buenos Aires, o país carece de capacidade energética o bastante para instalar mais indústrias, por isso pede que o povo economize.

Tabela em espanhol publicada pelo jornal “La Nación” relaciona os preços congelados pelo governo Kirchner e como ficaram depois que o governo Macri deixou de subsidiar estes serviços.

Em agosto, contudo, a Suprema Corte de Justiça da Nação (o STF da Argentina) determinou que não haja aumento da tarifa de gás para clientes residenciais e que se mantenha a tarifa social instituída pelos Kirchner.

Desemprego

Segundo o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (o IBGE argentino), o índice de desemprego no país chegou a 9,3% no segundo trimestre de 2016, o que significa que mais de 1,1 milhão de argentinos estão desocupados. O número é 2,7% maior em comparação ao mesmo período de 2015, ainda no governo de Cristina Kirchner.

Uma parcela dos novos desempregados é de ex-servidores públicos demitidos nos primeiros meses do governo Macri. Dos mais de 60 mil funcionários públicos que perderam seus empregos, 47,8% eram servidores federais e o demais eram servidores provinciais e municipais. Estima-se que até 7% do quadro de servidores eram de funcionários que nunca trabalharam ou que sequer existiam.

Em seu discurso na Assembleia Legislativa no início de 2016, Mauricio Macri acusou os Kirchner de “aumentar o emprego público sem melhorar os serviços que o Estado presta”. De acordo com o presidente, entre 2003 e 2015 foram criados mais de 1,5 milhão de empregos estatais. Com o corte de verbas para publicidade a favor do governo, muitos veículos da mídia faliram ou cortaram severamente seus gastos.

Protesto em janeiro dos primeiros de muitos servidores públicos demitidos no começo da gestão Macri. (Foto: divulgação)

Dos desempregados do setor privado, a maioria é da construção, que culpa a falta de repasses do governo federal às obras. Donos de indústrias e sindicatos reclamam das demissões causadas por fatores internos e externos, como o aumento da tarifa de energia (conforme citado acima) e as importações de materiais da China, que vende em média 40% mais barato.

Por outro lado, o Plano do Primeiro Emprego criado pelo Governo Federal incentiva que empresas contratem jovens de 18 a 23 anos para iniciarem no mercado de trabalho. O McDonald’s, por exemplo, empregaria um jovem por 30 horas semanais pagando 4500 pesos argentinos, sendo 1000 pesos subsidiados pelo governo. Os opositores criticam duramente o plano, pois o salário mínimo é de 6060 pesos (R$1321) e que tais empregos não tem estabilidade. “O acordo com o McDonald’s viola pelo menos duas leis”, argumenta Hugo Yasky, da Central dos Trabalhadores da Argentina, “a do salário mínimo e a permanência no emprego”.

Em maio, o governo Macri entrou em consenso com os sindicatos e aumentou o salário mínimo para 8060 pesos (R$1757). O seguro desemprego foi corrigido e passará de 400 para 3000 pesos. A medida entrará plenamente em vigor a partir de janeiro de 2017.

A pobreza que aumentou, mas que ninguém sabia que existia

Dados oficiais indicam que, até o segundo trimestre de 2016, 32,2% da população argentina está em situação de pobreza. 6,3% são considerados indigentes.

Os índices tenebrosos bateram na porta de do ex-presidente do Boca Juniors junto com críticas às medidas econômicas impopulares aplicadas nestes primeiros meses de governo. Protestos de sindicalistas e opositores nas ruas de Buenos Aires e de outras cidades do país levantam palavras de ordem contra o governo. No entanto, o governo Macri não é o único responsável pela crise da Argentina; mais do que isso: o novo presidente “desmascarou” as estatísticas da antiga chefe de governo.

O portal La Tercera argumenta que o governo Kirchner forjava os dados para esconder os índices de inflação, de desemprego e de pobreza. A última vez que o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos calculou o índice de pobreza na Argentina foi no segundo semestre de 2013, quando afirmou que 4,3% da população estava em situação de pobreza.

O total de 32,2% de pobres revelados recentemente pelo mesmo Instituto parece alarmante comparado ao anterior, mas a Universidade Católica Argentina (UCA) estima em 29% de pessoas na pobreza até o fim de 2015. Portanto, o aumento de 3% de lá para cá parece mais realista.

Suspeita-se que o governo de Kirchner tenha adulterado dados oficiais para passar a imagem de um país austero.

A desconfiança quanto aos números era tão grande que o Congresso publicava o próprio cálculo da inflação. Enquanto o governo de Kirchner apontava a inflação na casa dos 14%, o Legislativo dizia que na verdade era de 25%. O que também pode explicar a atual inflação anual de 40%.

Outra razão de haver um índice inflacionário tão alto é a desvalorização do peso argentino em relação ao dólar. Uma das primeiras medidas de Mauricio Macri como presidente foi acabar com restrições impostas por Kirchner na compra da moeda americana. A medida da ex-presidente criou um mercado paralelo do dólar. Com o fim de tal restrição, o peso argentino teve seu valor corrigido segundo a realidade. Hoje um dólar vale até 15,80 pesos.

A maquiagem nos dados levantam a desconfiança quanto ao verdadeiro número de desempregados no país. O aparecimento de 500 mil desempregados de um ano para o outro pode se explicar também pela grande demissão de servidores públicos.

2016: um pesadelo chamado realidade

Pode-se considerar que os argentinos já estavam em uma situação calamitosa há vários anos, mas o populismo de Cristina Kirchner ofuscava a verdadeira situação. Kirchner, inclusive, é acusada de favorecer um empresário em licitações de obras públicas quando era presidente. Em novembro, a Câmara de Apelações do país processou Kirchner pelas operações cambiais que fizeram o peso ser mais valorizado do que realmente era.

Enquanto isso, Macri termina seu primeiro ano de mandato otimista que os próximos anos serão melhores. Entre as duas mil pessoas entrevistas pela pesquisa citada no início deste artigo, 38,6% acreditam que o governo fará melhor em 2017 do que neste. 31, 9% pensam o contrário e para 15,4% não fará diferença nenhuma.