Goiás, a velha de ouro que parou no tempo

O sol reflete sua luz nas pedras de calçamento e nas paredes históricas da cidade de Goiás há quase trezentos anos. Somente o ouro para motivar os bandeirantes a andarem milhares de quilômetros Brasil a dentro para aparecerem na Serra Dourada e fundarem uma vila longe de qualquer outro grupo humano. A mineração saiu de moda e o centro parou no tempo. Isso não é ruim. O futuro bem alicerçado depende de uma boa noção do passado.

A antiga capital da província goiana resiste bravamente às intervenções do tempo. Sua elegância permanece nesta preservação. Os cerca de 24 mil habitantes de Goiás vivem, em sua maioria, na parte moderna da cidade. O centro histórico é tombado como patrimônio mundial da humanidade pela Unesco desde dezembro de 2011. Lojas de artesanato, bares, museus, restaurantes e agências governamentais se adaptaram à estrutura de séculos passados, tudo para que não haja prejuízo à memória da cidade.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) trabalha para não fazer a arquitetura de Goiás se perder no tempo, mas quem faz o serviço mais valioso em prol da cidade são seus moradores. A memória das antigas gerações conserva as histórias, as personagens, os “causos” que passaram por lá. Da lenda da pira com álcool do Anhanguera às margens do Rio Vermelho até os biscoitos com poesia de Cora Coralina, existem pessoas naquela cidade que se encarregam de repassar tais memórias.

Fim de tarde, João Maria Berquó caminha pela cidade que mora há 82 anos. Turistas subindo, estudantes descendo, seu Berquó percebe o interesse de certas pessoas pela história de Goiás. Não é difícil encontrar pessoas assim, afinal, quem vai até Goiás Velho é quem quer ver o que não se vê nas cidades modernas. Seu Berquó é desses que não gosta de ver gente perdida. Se tem alguém que quer ouvir histórias, aquele senhor está lá para contá-las.

Assim que captura seus ouvintes, o homem aponta daqui, fala dali:

- O antigo cinema ficava nesse beco.

Comenta com naturalidade sobre pessoas que a gente só vê nos livros:

- Pedro Ludovico Teixeira gostava desse lugar.

Seu Berquó nasceu poucos anos antes de Goiânia se tornar oficialmente a nova capital do estado, em 1937. Enquanto caminhamos próximo da Casa da Ponte, o cidadão ilustre de Goiás conta sobre as peripécias dos coronéis de antigamente que atendiam pelos sobrenomes Caiado e Fleury. Por ter já certa idade, não eram poucas as vezes que seu Berquó simplesmente mudava de assunto no meio da conversa ou pedia para falar mais alto. Próximo ao Fórum Municipal, ele nos conduz ao seu escritório.

O número 4 da Rua Senador Eugênio Jardim foi no passado o primeiro Consulado da Alemanha. O sobrado era um dos poucos edifícios residenciais com dois pavimentos da cidade. Segundo seu Berquó, a sacada tinha um propósito maior que o estético quando foi construído: daquela altura podia-se se índios da tribo Goyá se aproximavam para atacar.

A sala de entrada era quente e abafada. Percebia-se que estava na hora de uma repaginada no lugar. Parecia uma mistura de boticaria com biblioteca. A bagunça do escritório de seu Berquó era “elegante”, podia-se dizer: livros, recortes de revistas, fotos antigas, estantes empoeiradas e quadros borrados, além de várias quinquilharias estavam jogadas por todo o lugar.

Enquanto o homem falava sem parar sobre histórias da cidade, os estudantes olhavam fascinados pelo pequeno museu que era aquele gabinete. Isso aconteceu com este grupo, deve ter acontecido com outros e certamente acontecerá com os próximos que Berquó trará para a visita. As fotografias coladas em um álbum improvisado renderiam um combate mortal entre historiadores. Escravos de pele impressionantemente negra, homens sacudindo peneiras no Rio Vermelho a procura de ouro, mulheres lavando roupa e coletando água nos antigos chafarizes da cidade. Cada foto possuía uma legenda, embora fosse ilegíveis, mesmo com todo o capricho das letras.

A bagunça “organizada” de seu Berquó esconde preciosidades, como essa edição da revista VEJA de julho de 1986 trazendo na capa o senador Ronaldo Caiado (de família tradicional em Goiás). O título “A força da UDR” (União Democrática Ruralista) explica “como os fazendeiros enfrentam a reforma agrária do governo”.

Quadros de Pedro Ludovico Teixeira, o grande interventor federal em Goiás tinham lugar de destaque na parede. Títulos de honra ao mérito a João Maria Berquó como cidadão goiano e farmacêutico também se exibiam. Ferros a brasa e duas palmatórias escolares eram colocadas sobre as estantes como troféus.

Pedro Ludovico Teixeira em trajes de explorador.

Como disse o próprio seu Berquó, a cidade mudou pouco nos últimos duzentos anos. O ouro que milhares de pessoas vieram procurar ainda está por aí, de acordo com o senhorzinho. Talvez não seja extraído em Goiás, mas no mesmíssimo Rio Vermelho que cruza a antiga Vila Boa, ouro está sendo minerado por uma empresa australiana em Crixás, há 300 quilômetros dali.

Onde está reservado o futuro de Goiás Velho? Na tradição. A procissão do Fogaréu, o Festival Internacional de Cinema Ambiental (o FICA, que acontecia naquele mesmo fim de semana), a transferência simbólica de capital para Goiás em um dia de julho, o artesanato e o turismo contribuem para manter a cidade imune às modernidades das outras cidades. No entanto, isso só acontecerá se pessoas como João Maria Berquó continuarem apreciando o passado sem serem saudosistas e visar o futuro com o pé no chão. Verdade seja dita: a cidade de Goiás parou no tempo e este é o maior elogio que alguém pode render a ela.

João Maria Berquó em seu escritório pessoal.