Ser muçulmano em um dos países mais cristãos do mundo

Apesar de se sentirem mais livres no Brasil do que em outros países onde são minoria, milhares de muçulmanos sofrem por causa da ação brutal e egoísta de alguns.

Mesquita muçulmana em Foz do Iguaçu, Paraná. A região concentra grande número dos fiéis islâmicos.

A pouco mais de 100 metros de distância da Igreja Matriz do Divino Pai Eterno, no centro de Trindade, Goiás, uma família muçulmana vive e mantém uma lojinha de roupas há vinte anos. Em uma tarde monótona de sábado, o libanês Jamil Nagib Ghannoum, 75 anos, reveza o atendimento na loja com a filha.

A entrevista apenas começou quando Nagib voltou de casa, após fazer uma das cinco orações diárias do Islã. Trazia em mãos um tasbih, um pequeno colar de nós parecido com o rosário católico. O senhor de barba e cabelos brancos, usando uma gahfiya (pequena touca branca), está acostumado a receber jornalistas e demais pessoas interessadas na religião do Profeta Maomé.

Nagib fundou o Centro de Divulgação do Islã em Goiás e, apesar de não exercer um trabalho missionário mais intenso como seus vizinhos católicos, ele deixa claro a principal mensagem de sua fé. “O Islã é uma religião de amor, pois temos Alá, que é Deus”, declara. Segundo Nagib, ele foi predestinado a morar em Trindade. “Não escolhi morar em Trindade, era meu destino sair do Líbano. Nunca ouvi falar de Goiás, mas aqui estou”, conta com o sotaque de quem ainda mantém o árabe como língua materna mesmo depois de 45 anos no Brasil.

Enquanto em todo o mundo o número de muçulmanos chega a 1,8 bilhão de seguidores — a comunidade islâmica no Brasil é modesta. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) em seu último censo, sete anos atrás, dizia que havia 35 mil islâmicos por aqui. Associações muçulmanas brasileiras, contudo, calculam entre 800 mil e 1,5 milhão. Em Goiás, havia 684 muçulmanos e esse número não alterou muito, de acordo com Antônio Gueiros, da Juventude Muçulmana em Goiânia.

Sr. Jamil Nagib com seu Alcorão. Foto: Wildes Barbosa (O Popular)

O Brasil é o segundo país com mais cristãos do mundo, atrás somente dos Estados Unidos, e o mais católico de todos. A tendência nos próximos anos é este número diminuir, já que muitos cristãos abandonam a fé, a taxa de natalidade e conversão deixaram de crescer e, graças à globalização, ex-cristãos se convertem a religiões diferentes. O Islã, por exemplo, recebeu 25% de novos fiéis no Brasil entre 2001 e 2010, segundo a antropóloga Francirosy Ferreira, pesquisadora de comunidades muçulmanas da Universidade de São Paulo (USP), de Ribeirão Preto. Muitos vieram do cristianismo.

Apesar do grande fluxo de informações disponível hoje em dia, a intolerância contra os muçulmanos é constante. Mesmo trocando o número de telefone algumas vezes, a família de Jamil Nagib recebe frequentemente ligações anônimas com ofensas e ordens para que saiam do Brasil. Casos assim costumam ser mais frequentes quando há algum ataque terrorista na Europa no qual muçulmanos radicais são os responsáveis.

“A pior coisa a se fazer é envolver política com religião”, argumenta Nagib. “Você já viu alguma nação muçulmana invadir outro país como os Estados Unidos fizeram? Foram os Estados Unidos que criaram o DAESH, tudo criação deles”. DAESH é a sigla em árabe para Estado Islâmico, organização islâmica que luta pelo controle de regiões no Oriente Médio por meios brutais. O grupo é um dos protagonistas na Guerra da Síria e reivindica a autoria ou influência de dezenas de ataques terroristas na Europa nos últimos anos.

Apesar de acusar o Ocidente, Nagib deixa claro que o comportamento terrorista de alguns de seus irmãos de fé não condizem com o islamismo no total. “Não dá para condenar bilhões por causa de alguns”, conclui. Jamil Nagib conta que expulsou goianos de sua mussala (a sala de orações) que declararam apoio ao Estado Islâmico e vieram pedir orientação para irem lutar com o grupo terrorista. “Tem gente louca em todo o lugar, até aqui”.

Nagib ganha a vida vendendo roupas e objetos domésticos em sua loja. Em certo momento, um cliente chega à loja de Nagib buscando algumas peças de roupa. Ele apresenta ao rapaz camisas e bermudas recém-chegadas ao estoque. “Aproveita que barato, esse é o melhor preço, você não vai conseguir achar melhor”, tenta convencer o cliente indeciso. “Eu cheguei de São Paulo essa semana com elas, ninguém mais tem”. A lábia de comerciante surtiu efeito e o rapaz levou uma camiseta estampada com o símbolo da banda Guns N ’Roses e uma bermuda colorida.

Ele confessa que acha hipócrita da parte de algumas pessoas que questionam “as maldades” dos muçulmanos, enquanto várias coisas ruins também são praticadas por quem se denomina cristão. “Olha só o exemplo daquele motoqueiro que matou um monte de gente em Goiânia, ninguém falou a religião dele, mas quando é um muçulmano, a religião é a primeira coisa que falam”. Tiago Henrique Gomes da Rocha, preso e condenado por matar mais de 30 pessoas, é evangélico.

Um Alcorão em árabe e um tasbih.

Liberdade religiosa no Brasil

Ataques terroristas onde o autor era muçulmano é um dos principais motivos para que o islamismo seja mal-visto por pessoas de outras crenças. Os casos mais recentes como o da chacina em Paris no fim de 2015 e o da explosão em Manchester, Inglaterra, no último dia 22 de maio, marcam episódios de ofensas aos adoradores de Alá.

O advogado Lucas Guerreiro, membro da Comissão de Direito a Liberdade Religiosa da OAB-SP (Ordem dos Advogados do Brasil em São Paulo), garante que o islamismo tem mais liberdade no Brasil do que em outros países, como nos Estados Unidos. No entanto, eles enfrentam alguns obstáculos. “As moças, por exemplo, por usarem o véu, não conseguem emprego. Às vezes as pessoas jogam pedra, chamam de ‘mulher-bomba’, têm alguns casos assim”. As mulheres podem usar até seis tipos diferentes de véu, da burka, que deixa somente os olhos a mostra até a hijab, que cobre apenas os cabelos e parte do pescoço.

O fato de ter que pararem durante alguns minutos do dia e fazer uma oração em direção à Meca, na Arábia Saudita (a cidade sagrada do Islã), deixa os muçulmanos em situações desconfortáveis no trabalho. “Esses casos [de ofensa à liberdade religiosa] são levados à Comissão da qual eu faço parte”, continua Lucas, “e fazemos palestras e até agimos judicialmente”. Um dos casos conquistados, de acordo com o advogado, foi o direito das detentas muçulmanas da penitenciária feminina de Santana (SP) de usarem o véu.

Lucas, que é mórmon, garante que a Comissão de Direito e Liberdade Religiosa, a primeira da América Latina, busca proteger todos os fiéis de todas as crenças. As religiões que sofrem mais perseguição no Brasil, de acordo com ele, são o islamismo e as de matriz africana.

Com sede em São Paulo, o Centro Islâmico no Brasil acredita que em geral, os muçulmanos são bem vistos no Brasil. “A religião islâmica prega a paz, a convivência e a tolerância e é isso que os muçulmanos na pratica vem apresentando nas sociedade onde vivem, inclusive no Brasil”.

Desde os escravos negros muçulmanos até os imigrantes sírio-libaneses, os brasileiros sempre conviveram com o islamismo. Existem 17 mesquitas e inúmeros centros de divulgação da fé islâmica por todo o Brasil.

Gráfico criado pelo El País explicando os diferentes tipos de véus usados pelas muçulmanas. Segundo Jamil Nagib, trata-se de uma proteção à mulher, não uma forma de oprimi-la.

Tradição

O professor de Comunicação Social na UFG (Universidade Federal de Goiás) Luiz Signates declara que os muçulmanos também são perseguidos na Índia pelos fundamentalistas hindus. “O islamismo é uma religião que ainda tem um pé na Idade Média, mas é uma tradição pacífica, plural e complexa”, resume.

A tradição conta que Maomé (Muhammad, em árabe), um profeta do século VII, recebeu revelações divinas a partir do anjo Gabriel (o mesmo da tradição judaico-cristã) e quando transcritas se tornaram o Alcorão como se conhece hoje. Depois da morte de Maomé, o islamismo se dividiu entre sunitas e xiitas.

Os sunitas, que correspondem a quase 90% de todos os muçulmanos na Terra, acreditam que Alá não indicou nenhum sucessor oficial de Maomé, portanto, os califas (líderes) que vieram depois são os mais indicados para liderá-los. Os xiitas, minoria dos fiéis, insistem que Deus indicou o genro de Maomé como sucessor. Devido a essas e outras divergências, sunitas e xiitas mantêm uma relação complicada desde então.

Além dos sunitas e xiitas existem outros grupos minoritários que enxergam a doutrina islâmica de formas distintas. Os salafistas (ou wahhabistas), apesar de serem pequenos, é a divisão mais radical do islamismo. Graças ao fundamentalismo de seus seguidores, a religião muçulmana ganhou a fama de “fé terrorista”.

Os salafistas do Estado Islâmico têm como objetivo expurgar todos os infiéis, o que também inclui outros muçulmanos, já que os consideram “adoradores de Maomé”, não de Alá. O nome oficial do EI é Estado Islâmico do Iraque e do Levante, já que visam formar um território nos moldes do islamismo primitivo naquela região do Oriente Médio.

Enquanto isso, os demais muçulmanos lutam para se livrarem do estigma de apoiadores da carnificina promovida pelos fundamentalistas. A Organização Islâmica de Cultura, Ciência e Educação (ISESCO), com sede no Marrocos, divulgou nota, por exemplo, condenando o ataque suicida em Manchester no dia 22 de maio. A organização classifica o ataque como terrorista e apela por “um maior esforço da comunidade internacional para combater o terrorismo e eliminar suas causas e patrocinadores”.

O Centro Islâmico do Brasil também enfatiza seu repúdio a “ todo e qualquer tipo de ato terrorista em qualquer lugar. Paris, Londres, Bagdá, Damasco, Beirut, Madri, Manchester ou qualquer outro local onde pessoas inocentes pessoas pagam o preço do radicalismo ideológico de grupos bárbaros e assassinos”.

Boa convivência

O senhor Jamil Nagib tem vários exemplares do Alcorão espalhados por sua loja. Ele até chegou a procurar alguns em português para mostrar, mas só encontrou em árabe. Estes ele não quis abrir. “Precisa de uma purificação antes de abrir”, explicou.

A família é conhecida em Trindade e tem bom relacionamento com a maioria dos moradores da cidade, independentemente de suas religiões, pois todos são clientes ou podem vir a ser.

Jamil e a esposa se preparam para o Ramadã, o mês sagrado do Islã, que em 2017 se inicia em 26 de maio e vai até 24 de junho. Durante o Ramadã, Jamil, sua esposa e outras centenas de milhões de muçulmanos em todo o mundo jejuarão e praticarão boas obras como renovação da fé.