Vampiros sociais

Como nós, humanos, somos seres não só racionais como sentimentais, temos nossos altos e baixos. Uma hora nos sentimos donos do mundo, outra hora só queremos ficar de boa, na nossa. Temos aqueles dias que estamos extrovertidos, falamos pelos cotovelos e socializamos até nos cansarmos; em compensação, surgem dias temperados com vontade de desaparecer, simplesmente “não existir”. De toda nossa inconstância emocional, espiritual (sic) e física, procuramos nos definir pelo que é constante e, com isso, definimos nossa personalidade (o que nos dá a ilusão de autoconhecimento, pois não somos constantes, até a essência muda).

O problema de toda essa inconstância, desse trocar entre céu e inferno e inferno e céu, faz com que algumas pessoas nos selecionem de acordo com nossa utilidade emocional.

Já reparou naquelas pessoas que só vêm falar contigo quando estão pra baixo? Lembram de você quando conversam com seus abismos individuais, será que você é a definição de abismo pra ela, ou então teria algo que ela quer? Ela vem desabafar sobre como a vida é ruim e o Universo é injusto, o que pode até te deixar pensando “até agora não falou uma novidade”, mas se contém pra não interromper, até porque tanta racionalidade em uma conversa irracional não é aceito socialmente — ao contrário do otimismo falso e fingido, que nos faz dizer “vai dar tudo certo” ou “as coisas vão melhorar”, já essa falta de honestidade é aceita (até porque, toda mentira é bem aceita socialmente, desde que ela nos faça esquecer de como irracional, implacável e cruel a realidade pode ser). Ela desabafa até ficar bem, ou até que alguém diga algo que ela queira ouvir… ela se sente melhor e chega a esquecer de sua existência, isso até a inconstância humana, eventualmente, jogá-la de volta ao abismo. Agora, uma vez de volta ao abismo, de quem ela vai se lembrar, senão da alma que se despedaçou para tirá-la de lá? Na hora do choro, a pessoa surge, mas na hora da risada, ela desaparece, sem ao menos mandar aquele “até mais” indeterminado (seria mais um “até quando você me for útil”). E olha que ela volta mesmo, pois a felicidade, que não passa da romantização da saciedade, nunca dura, afinal, somos seres insatisfeitos por natureza (ora, o que seria a literatura senão um suspiro do homem frustrado com sua própria realidade?). Essas atitudes dela nos dizem claramente que somos merecedores apenas da desgraça subjetiva da pessoa, por que então continuar interagindo com ela? Seria você tão pequeno(a) ao ponto de merecer apenas desgraça?

Ou quando você está pra baixo e brota do nada aquela pessoa perfeita, compreensiva, que só depois revela sua verdadeira face? Ela sabe da sua situação e entende, depois aproveita o contexto para te usar como degrau para o próprio ego. Quando você menos desconfia, está vivendo pelas migalhas de afeição da outra pessoa, enquanto ela ostenta o ego elevado.

Não só vou jogar a culpa nesses, mas como jogarei em nós também. Muitas vezes conhecemos pessoas que não fazem bem para nós, já outras vezes nós somos essas pessoas que não fazem bem… até por isso devemos suspeitar até de nós mesmos, de nossas atitudes, não que isso vá tornar sua vida colorida novamente, ou irá te dar aquela epifania sobre o sentido da vida. O fato é: a coisa já é ruim e espinhosa na sociedade, será que faria mais mal do que bem tentarmos, aos poucos, mudar nossas amizades e a nós mesmos?