Eu não acredito em casamento…

Enquanto passo um café, resolvi escrever esse texto. Deixem-me explicá-lo. Assim como não acredito na felicidade como muitos a definem por aí, assim o faço sobre o casamento. Não creio nele na forma que me apresentaram até tempos atrás.

Ontem, conversando com minha esposa pela madrugada, ela me perguntou se eu conseguia nos imaginar velhinhos e juntos e eu afirmei que sim, mas não de maneira planejada. Ela, depois de uma pausa, disse que não conseguia mais prever um futuro tão distante. E começamos a divagar sobre nossa velhice juntos, o que rendeu boas risadas.

Eu deixei de crer no modelo de casamento que é apresentado atualmente, uma espécie de compromisso firmado entre duas pessoas. Com contrato, juiz, testemunhas e todo o restante. Ainda há quem debata: “o casamento foi criado para o homem ou o homem foi criado para o casamento”?

Primeiro que, como eu vejo, casamento está além da cerimônia religiosa e civil. Isto são apenas adornos e também, garantias de direito para quem resolve unir a sua vida com o outro. Tradição apenas. Acredito, não no casamento, mas na liberdade de dois indivíduos que resolveram trilhar um mesmo caminho. E isto tão pouco é garantia de alguma coisa, pois mesmo de mãos dadas, indo à uma mesma direção, um pode não estar no mesmo caminho que o outro.

O casamento já serviu e ainda serve para aprisionar as pessoas, exige em muitos casos a submissão da mulher, mantém duas vidas reféns de um contrato, convivem juntos, mas já não se relacionam mais, das diversas formas. Algumas vezes, os filhos foram o objeto de chantagem para manter o outro ao nosso lado.

Todos sabemos que os relacionamentos se desgastam e que depende de nós, renová-los constantemente, caso contrário, a separação é o destino final. E muitos acreditam amar a pessoa, quando amam o retorno que o seu parceiro apresenta. Há quem confunda amor egoísta com amor ao outro. Pensa em não ficar sozinho e muito menos suporta que o seu objeto de amor vá para os braços de outro. Isto seria o mesmo que admitir que não fomos bons o suficiente para ainda tê-lo ao nosso lado.

Acredito hoje na liberdade que há entre duas pessoas em doar seu tempo e seus dias para ver o outro sorrir. O problema é que ao me doar, acabo criando paralelamente uma lista de exigências. E com o passar do tempo, adoto uma balança para que isto seja pesado e pesar se o investimento está valendo a pena. Se eu não estou perdendo com o custo/benefício dentro da relação. Obviamente, se ambos pensarem desta forma, certamente a separação também será o final certo dessa relação.

O principal problema dos casais é a falta de maturidade em expor esta lista de exigência. Tratam o relacionamento como um banco, investi, logo quero meu retorno. E também conversei sobre isto com minha esposa dias atrás. Ela me perguntou porque eu estava cabisbaixo e não quis responder naquele momento. E como de costume, ela ficou me perguntando diversas vezes no que eu estava pensando. No dia seguinte disse a ela qual era o assunto, mas que antes eu precisava pensar primeiramente. Eu estava pensando em minhas exigências, mas algo que não tinha o direito de cobrar dela, já que somos diferentes, que possamos ter um ajuste entre ambos, mas não um cobrar do outro o que no momento não pode ser apresentado. Como criança emburrada que não ganha o que pediu, batemos o pé, gritamos e por último, erguemos a voz e criamos feridas no outro.

Eu não. Precisava repensar meus valores e também escolher as palavras certas para conversar sobre o assunto, sem correr o risco de feri-la e também de dizer o que eu compreendi após o período de reflexão que precisei.

Aprendi com Rubem Alves que não podemos prometer sentimentos, apenas atos. Podemos prometer tratar amavelmente uma pessoa, mas não podemos prometer amar uma pessoa para o resto da vida. E assim minha esposa também me confessou ontem, que por desconhecermos o amanhã, se ocorrer uma separação, algo que por hora não pretendemos, que tenhamos essa maturidade de respeitar a nossa história. De não ignorarmos que, mesmo rompendo, durante o período que vivemos juntos, fomos felizes. Rubem Alves escreveu que: “amar é ter um pássaro pousado em seu dedo”.

Assim nos enxergamos hoje, somos livres e nesta liberdade escolhemos caminhar juntos. E dentro desta liberdade também está imbuída a possibilidade de um dia um, outro ou os dois baterem asas. Pode parecer trágico, mas a realidade é trágica. Sonhamos, construímos um enredo, mas o nosso pé está no chão, ciente de que isso pode acontecer com qualquer um, inclusive conosco.

Nada de contrato, apenas liberdade. Liberdade de ser de cada um.

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