Sobre exorcismos…

Ele acordou cedo e resolveu colocar uma canção leve para ouvir enquanto a água esquentava e resolveu deitar-se até ouvir os sinos sagrados que autorizam o seu ritual sagrado. Durante esse tempo sentiu-se absorvido pela trilha sonora e o que era tranquilidade foi dando lugar a uma mistura de medo e ansiedade. A chaleira apitou, eram os sinos lhe chamando. Estava prestes a dar início ao seu exorcismo.

O cheiro de café coado misturava-se ao fundo musical e isto evocava um êxtase em sua alma, provocando-lhe poesia. Aproveitava aquele instante com profunda alegria, que não haviam palavras que descrevessem aquele instante, apenas lágrimas. Era o transbordar de seu ser que ele coava naquele momento.

Escolheu aleatoriamente alguns livros de sua estante e como um penitente diante do seu confessor, prostrou seu espírito, afim de confessar seus pecados. Aqui o medo dobrava de tamanho, pois não saberia qual era a sua sentença final, mas ainda assim, confiava em seus autores, agora sacerdotes, prontos a ouvi-lo e a responder suas angústias mais profundas.

De início, confessou suas dúvidas, temores e certezas. Era réu, pecador dissimulado, escondido por detrás de máscaras que lhe pesavam os ombros. Chorava feito criança, ansiando a leveza que aquelas palavras pudessem lhe trazer. Abriu o primeiro volume.

Assim como em um ritual de exorcismo, sua alma começou a debater-se ante as palavras daquele primeiro santo que, com seus textos, expurgava os seus demônios. Um momento doloroso, mas necessário. Conforme crescia o confronto entre seu confessor e sua alma, mais dolorido se sentia, mais seus pensamentos se debatiam, mais sua alma ficava inquieta.

Escritores são como sacerdotes, aparecem e confrontam nossos demônios com suas palavras.

Aos poucos a sua alma trêmula foi gemendo mais baixo e agora podia sentir a graça tocando-lhe os olhos, mente e corpo. Encontrava-se um pouco mais leve, mas era preciso um pouco mais de suas confissões para que pudesse se sentir livre daquele fardo. Alcançou o segundo volume.

Este lhe penetrou as entranhas de maneira pungente. Não acreditava que aquele sacerdote ali lhe conhecesse e tivesse tamanha audácia de confrontá-lo. Não era apenas um escrito, era um ser superior que lhe provocava dores, lágrimas e ao mesmo tempo lhe apresentava o conforto que seu espírito tanto buscava. As palavras eram como um rio, conforme passavam, iam levando suas impurezas, deixando seu ser mais limpo, até que não restasse mais nada que ele pudesse identificar, naquele instante, dos seus pecados expiados.

Passadas algumas horas, o rapaz exorcizado encontrava-se cansado, envergonhado até, pois em muitas coisas da qual ele guardava certeza, até aquele confronto, foram levadas pelas águas do rio. Precisava de uma pausa ou então de algo que lhe trouxesse uma redenção, uma afirmação de que ali não havia mais pecados. Claro, dele conhecia-se muito pouco, não conseguia identificar-se ante o reflexo daquelas águas límpidas, pois sabia dos pecados ainda escondidos e não revelados. Todavia, também estava ciente de que bastava para cada dia o seu mal.

Certo de que seus pecados haviam sido perdoados, avistou um livro de poesia. Eram os anjos lhe chamando e fazendo canções para que ele fosse recebido no paraíso. Ali, no coro que tomava conta daquela sala minúscula, o cheiro do café, a canção ao fundo e a poesia atordoavam o seu pensamento, mas lhe traziam descanso.

Ele soube naquele instante, nu diante dos santos, que os seus pecados foram redimidos, que tocara o céu e ele, pobre pecador confesso, poderia descansar mais um dia diante da graça que sentia em seu corpo.