Sobre moradas…

Quando adolescente, encontrei na escrita uma espécie de sossego, um ombro amigo onde deitava minhas dores, medos, alegrias, preocupações e pensamentos aleatórios. Desde então, aprendi a me comunicar melhor escrevendo do que falando, dificuldade esta, que se apresenta nos dias de hoje quando tento expressar alguma ideia por meio oral. Antes era uma timidez, hoje vejo como uma dificuldade apenas.

Era tremenda a paralisia que eu tinha, que me doeu quando minha esposa me confessou que, para me conhecer melhor, precisava ler meus textos, pois não havia muito diálogo. Hoje mudou, melhorei quanto à isto, discordamos em muitos aspectos, mas ao menos, agora eu converso.

De uns tempos para cá, meus textos cessaram. Penso que, quem escreve, faz do texto a sua morada. Uma casa aconchegante, mas de portas abertas para quem quiser adentrar e participar de sua vida particular. Digo isto, porque sua alma está ali, exposta, nem sempre nas palavras, mas em seus intervalos, numa pausa, num parágrafo, num ponto final.

Quem escreve, enxerga no papel ou na tela de seu computador, um amigo silencioso, pronto a ouvir o que seu coração tem a dizer. E quando publica este texto, este amigo adquire muitos olhares e experiências diferentes. Alguns destes olhares se identificam, outros se maravilham, outros apenas são como o papel, apenas observam.

Eu praticamente deixei esta morada de lado e tenho encontrado em outros um lugar aconchegante. Na esperança de aprender, observar, ouvir, refletir, silenciei meu palavrar, como diz Pessoa. Arrastei os móveis da sala, abri as janelas para deixar a luz e o ar circularem entre os espaços vazios. Tirei pó da estante e desliguei o televisor. E parti.

Hoje me sinto mais completo, mais amigo de outros textos que dos meus. Tenho textos que ainda não nasceram, outros não atingiram a idade certa, mas isto é assunto para outro dia. Agora quero apenas deitar em outros textos, beber de outras fontes, tocar outras almas, chorar com a dor dos outros, alegrar-me com a sedução das palavras alheias.

Houve dias em que senti inveja de alguns textos, porque queria escrever daquela maneira. Outros dias senti medo, porque nunca chegaria a escrever como este ou aquela, mas percebi que eram preocupações vãs diante da fonte que estava diante de mim. Sigo agora, lendo, desfrutando da morada de outros. Perdoe-me se, ao chegar, eu estiver sentado ao sofá, bebendo um café e me deliciando com o que me diz. Se, ao questionar minha presença ali e eu não te responder, saiba que não é alguma prepotência ou demasiada arrogância, é gratidão e reverência pela sua alma que compartilhas comigo e com todos os outros.