Pessoas como bens de consumo….

Numa sociedade que tornou-se puro consumo não é de se espantar que passamos a consumir pessoas. Sim, consumimos pessoas. E não me refiro à mão de obra, onde há troca de serviço por uma remuneração, mas em nosso cotidiano e em nossas amizades. Infelizmente é uma realidade que poucos param para pensar e, em muitos casos, ainda recebem incentivos de “pensadores” do tipo autoajuda, que em suas frases montadas, ensinam a descartar essas pessoas.

Detesto frases nas redes sociais do tipo: “não pense que você cometeu um erro e fulano foi embora, talvez isso tenha sido um livramento”. Um exemplo é este: “Existem pessoas que nada acrescentam e na hora q precisamos delas, elas falham. Muito nos ajudam aquelas q não atrapalham”. A frase citada por um desses “pensadores” rendeu 31 favorites e 38 retweets. Isto é resultado de como tratamos nossos relacionamentos nos dias atuais. Como bens de consumo.

Há um tempo atrás eu decidi não criar mais expectativas sobre as pessoas, pois em muitos dos casos, a expectativa era alta demais e quando as pessoas não atingiam, simplesmente não gostava delas. Era frustrante tentar encontrar alguém que realmente suprisse essa minha necessidade. E como de praxe, minhas expectativas eram tão altas que nem eu mesmo conseguia atingi-las e exigia dos outros o que eu mesmo era incapaz de conseguir.

Sim, os relacionamentos podem ser duradouros ou passageiros, mas isso não quer dizer que foram superficiais.

Buscamos em nossos relacionamentos algo que nos beneficie ou que não nos incomode. E quando isto torna-se um entrave para nossas expectativas, simplesmente descartamos. Abandonamos esse produto que não apresenta mais serventia ou então afirmamos que seu prazo de validade está vencido. Feito isto, partimos em busca de um novo produto.

Assim como uma calça velha que tenho e uso até os dias de hoje, tenho algumas amizades que cultivo de longa data. Entretanto, algumas peças do meu vestuário utilizei poucas vezes e está lá, em um canto qualquer. Desta forma que tratava as pessoas. Dependendo da utilidade, poderia durar anos ou então algumas semanas ou o deslumbre de algumas horas.

Com o aprendizado que a vida me trouxe, uma lição foi esta. As pessoas não são bens de consumo e também não são descartáveis. Relacionamentos podem ir e vir, mas sempre há algo para aprender, mesmo com aquelas pessoas “que nos atrapalham”. Todas fazem ou fizeram parte de sua história. Todas estas que participaram da sua vida, contribuíram para a construção de quem você é hoje, mesmo aquelas pessoas que lhe causaram algum tipo de ferida.

Se as pessoas não são descartáveis e nem bens de consumo com prazo de validade, devemos nos prender à elas? Óbvio que não. Mantenha-se aberto para novos relacionamentos, novas amizades, para o retorno daquelas mais antigas. Precisamos aprender a compartilhar a vida, dividir experiências, corresponder ao aceno alheio em busca de ajuda, um crescer mútuo. Não ter em mente que todo ser humano é descartável e substituível.

Você pode evitar frustrações, não porque aquela pessoa é “podre” e você tem faro para isto, mas ao abandonar suas expectativas. Ao abdicar de exigências, podemos observar que as pessoas não precisam de muito para acrescentar em nossos dias.

Talvez por isso eu seja contra a seita “Eu escolhi esperar”. Esperando o par perfeito. Buscando a felicidade e a completude no outro. Aguardando o parceiro certo. Calma lá, não estou dizendo para sair distribuindo beijos e se deitar com qualquer um, do tipo, “enquanto não acho o certo, vou experimentando”. Não há par perfeito, não há pessoa em que você possa apoiar a sua felicidade. Há pessoas que resolveram abdicar de apontar os seus defeitos e te escolhem pelas suas qualidades. Mesmo convivendo todos os dias ao seu lado, conhecendo você de maneira mais particular que os demais, com seu mau humor, com suas exigências, seus problemas emocionais, ainda assim, resolveu ficar do seu lado. Porque acredita que suas qualidades superam os seus defeitos. Se pensarmos desta forma, qualquer um pode ser essa pessoa im-perfeita.

Não trate quem está perto ou longe, quem virá ou quem irá embora, como um produto. Trate-os como pessoas. E tenha sempre em mente: para os outros, os outros, somos nós.