Sobre separações…

Recebi os pápeis de nosso divórcio esta manhã, mas devolvo sem assinar. Peço um pouco de calma e paciência, pois justificarei a minha falta de coragem nas linhas abaixo.

Dentre os papéis que declaram que não estaríamos mais casados, junto consta também os pedidos de disputa de bens e de disputa pela guarda de nossos filhos. Li e reli algumas vezes todos os documentos e não consegui escrever. Ponderando um pouco no que transformamos nossa relação, percebi que não haveria motivos para tais extremos em disputar isto, aquilo e nem mesmo a atenção de nossos filhos com você.

Com o passar do tempo, confesso que me deparei com uma pessoa infeliz, não recebendo de maneira igual, o carinho que eu empregava em nosso cotidiano, para que continuássemos caminhando juntos.

Dentre os motivos de minha infelicidade estavam a falta de atenção de sua parte comigo, seja como pessoa ou como esposa. Faltava atenção seja na companhia na hora do almoço, na hora da janta, em um ou outro churrasco que íamos, até mesmo na cama você tornou-se ausente. Abrindo um precedente para a famosa justificativa de que: “quem não tem em casa, procura fora de casa”.

Avaliando com mais cuidado, pude notar que todos os dias chegava cansado de tanto trabalho e viagem, mas não conseguia enxergar o seu esforço em manter a casa limpa, a roupa cheirosa, a louça lavada, nossos filhos bem cuidados, a organização de nossas contas na sua pasta, o armário bem abastecido. E tudo isto, sendo que você também trabalha em horário comercial igual ao meu.

Fui cego ao não perceber que a sua jornada de trabalho estendia-se além das suas atribuições como profissionais. Ficava indignado muitas vezes quando chegava e me sentava no sofá, buscando descansar minha cabeça e corpo enquanto você corria para lá e para cá. E eu ainda reclamava da sua falta de atenção comigo. Poucas foram as vezes que perguntei como foi seu dia, se precisava de alguma ajuda com os afazeres domésticos, apenas por acreditar que meu papel de mantenedor do lar, com salário maior, estava posto em prática e me isentava de quaisquer outras atividades dentro de casa.

Além de não perceber essa jornada tripla de profissional, mãe e esposa, não via sua jornada como dona de casa. A minha preocupação, muitas das vezes era apenas com a limpeza do carro aos fins de semana e se havia cerveja na geladeira. Sim, descansar tomando uma gelada era imprescindível.

Talvez, pior mesmo era reclamar da sua falta como esposa, ou melhor, como mulher. E em muitas vezes, você se esforçava para cumprir este papel, mesmo cansada, ainda assim comparecia em alguns momentos. Inúmeras foram as noites que estendi no escritório porque sabia que não teria o sexo desejado e idealizado em casa? Mas como? Se você não tinha tempo para quase nada!

Exigia a sua presença quando não observava o seu cansaço dentre a correria que enfrentava nas suas atividades, que deveriam ser nossas. Não me recordo de ter lavado a louça durante o tempo que convivemos. Muito menos de tirar um pó da estante, de passar um pano no chão ou de varrer a casa. Só me recordo do tempo sagrado que era necessário para assistir o futebol aos domingos ou uma noite ou outra que precisava com meus amigos no bar.

Poucas foram as vezes, e isto apenas no começo do nosso relacionamento, em que me ofereci para aliviar o seu cansaço, preparando um café gostoso pra você ou então para uma massagem nos pés e costas, massagem que você tanto gostava. Deixei o meu querer e querer e querer se sobrepor ao nosso relacionamento. Deixei de olhar para nós e comecei a olhar apenas para mim mesmo.

Por isso surgiram tantas reclamações e frustrações. E com isto, nosso relacionamento deteriorou-se a ponto de hoje, nos divorciarmos.

Não peço para que reconsidere uma nova chance. Pelo contrário, desejo-lhe felicidade em seus relacionamentos futuros, que você realmente encontre um homem diferente do que fui, mais carinhoso, mais atencioso, que compreenda o relacionamento, não como duas pessoas apenas, mas como uma só, cada um compartilhando o que pode e até o que não pode de vez em quando. Que ele tenha a hombridade de conversar com você como eu não tive. Que ele possa te questionar sobre o que pensa e se precisa de algo que esteja ao alcance dele como eu não o fiz.

Peço por favor, que avise ao seu advogado, que desisto de brigar pela guarda de nossos filhos, pois isto era apenas uma forma de te atingir, pois sei que eles são importantes para você assim como são para mim. Quanto aos bens que adquirimos em nossas vidas juntas, também não tenho do que exigir.

Por fim, me envie um novo formulário apenas com a formalização de nosso divórcio.

E espero sinceramente, que sejas feliz.

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Originally published at oeudemuitos.wordpress.com on November 13, 2015.

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