a gente nunca imagina
que o gato vai brincar no escorregador
ou que a sombrinha vai se quebrar num toró
a gente nunca imagina
que vai amar um desconhecido
ou que vai conhecer (o) um desconhecido
a gente nunca imagina
que alguém grite na rua
a gente nunca imagina
que vai ter uma discussão com quem a gente ama
a gente nunca imagina
que a xícara de café caia sobre nossa roupa branca
ou que o macarrão suje nossa saia preferida
ou que a janela aperte nosso dedo
ou que uma formiga carregue uma flor inteira
ou que as lentes dos nossos óculos sujem logo depois de lavadas
ou que nasça pé de pimenta ao lado estreito do paralelepípedo
ou que a gente boceje na hora que estamos sendo atendidos no caixa
ou que nossa moeda caia no bueiro
ou que vamos esquecer o ingresso do cinema no bolso direito da calça lavada
ou que vai ter poeira na peça de madeira do quarto
ou que vai perder o voo para Recife
ou que vai ficar gripado
ou que tem resto de polvilho no canto da nossa boca
a gente nunca imagina imaginar esses imprevistos
a gente nunca imagina falar do insignificante
a gente nunca imagina que um dia vai imaginar
alguma coisa
de alguém
que você conhece ou
nem sequer ouviu falar
