Cely Pereira
Aug 24, 2017 · 1 min read

a gente nunca imagina

que o gato vai brincar no escorregador

ou que a sombrinha vai se quebrar num toró


a gente nunca imagina

que vai amar um desconhecido

ou que vai conhecer (o) um desconhecido


a gente nunca imagina

que alguém grite na rua


a gente nunca imagina

que vai ter uma discussão com quem a gente ama


a gente nunca imagina

que a xícara de café caia sobre nossa roupa branca

ou que o macarrão suje nossa saia preferida

ou que a janela aperte nosso dedo

ou que uma formiga carregue uma flor inteira

ou que as lentes dos nossos óculos sujem logo depois de lavadas

ou que nasça pé de pimenta ao lado estreito do paralelepípedo

ou que a gente boceje na hora que estamos sendo atendidos no caixa

ou que nossa moeda caia no bueiro

ou que vamos esquecer o ingresso do cinema no bolso direito da calça lavada

ou que vai ter poeira na peça de madeira do quarto

ou que vai perder o voo para Recife

ou que vai ficar gripado

ou que tem resto de polvilho no canto da nossa boca


a gente nunca imagina imaginar esses imprevistos

a gente nunca imagina falar do insignificante


a gente nunca imagina que um dia vai imaginar

alguma coisa

de alguém

que você conhece ou

nem sequer ouviu falar

)

    Cely Pereira

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