Entrevista com Adriana Lopes

Adriana Lopes é psicóloga e assistente social, acompanha o Cinema e Psicanálise de Franca desde o começo e nos contou, com brilho nos olhos, como o projeto definitivamente ajudou a mudar a trajetória de sua vida.

C&P: Adriana, desde quando você participa do C&P de Franca?

Adriana: Eu acho que nem vocês da Comissão têm noção da minha relação com o Cinema e Psicanálise de Franca. Eu fui na primeira sessão do C&P que teve aqui em Franca, lá na Unimed. Eu havia me formado há um ano e já estava trabalhando como assistente social. Fui fazer um curso na Unesp e vi um cartaz no mural da Universidade. Eu, como sempre curiosa, fiquei olhando e me interessei, o filme era “O carteiro e o poeta”.

Eu fui no primeiro C&P de Franca! Desde então, nunca deixei de participar. Meu marido fala que eu devo ser uma das poucas pessoas que está junto da Comissão do C&P desde o início. Eu sempre participei, gosto muito. Na época, eu já fazia terapia, estava com quase 4 anos de análise, e tudo isso me atraiu para o projeto.

Eu já participei de muitos eventos, dentro e fora de Franca, mas em nenhum senti a linguagem que o C&P tem. Eu sinto que o C&P conversa, tem uma linguagem diferente.

C&P: Em que sentido?

Adriana: Uma linguagem que me toca, me sensibiliza, me transforma. Às vezes com uma palavra, uma frase, vou embora diferente. E eu comecei a ver sentido naquilo ali, com o que eu faço, com as pessoas que eu me relaciono. Saio das sessões do C&P diferente, volto pra minha casa com um sentimento diferente. Por isso, fui ficando e fui convidando outras pessoas.

Eu digo que o C&P e a terapia mudaram a trajetória da minha vida, porque me levaram a cursar psicologia. Eu fiz serviço social querendo realmente fazer serviço social e depois optei também por fazer psicologia, devido à terapia e ao C&P, que tinham linguagens próprias e me faziam pensar.

C&P: Uau, é muito emocionante saber que o C&P mudou a trajetória da sua vida.

Adriana: Sim, o projeto mudou a minha vida. Eu percebi que o que era dito nas sessões tinha muita relação com a minha terapia. Aquela linguagem fazia sentido pra mim. Eu penso que é uma linguagem simples, não simplista, simples mesmo. Claro que tem a parte técnica, depois de fazer faculdade de psicologia eu enxergo essa parte técnica, eu penso “ah, ela tá falando isso que tem referência com tal autor”. Hoje eu sei, mas naquela época eu só sentia que aquilo me tocava e me transformava.

C&P: E o público é diverso, né? Muitas pessoas não são da área “psi”, por isso a linguagem simples que você disse..

Adriana: Muito diverso, tenho amigos que vão que são professores, dentistas, pedagogos. E eles entendem!

C&P: A psicologia deve ter te ajudado muito no serviço social. E vice-versa.

Adriana: Sim, hoje vejo que as duas áreas andam de mãos dadas. Muito do que a gente sente vem da forma como a gente vive, do nosso contexto social. Então, eu vejo que as duas áreas se complementam. Sou apaixonada pelo serviço social e pela psicologia, e com o C&P descobri mais duas paixões: o cinema e a psicanálise!

Eu não tinha isso, gostava pouco de filme, via um aqui e outro ali, raramente. Hoje, sou apaixonada por filmes. Eu descobri nisso uma arte incrível, que não conhecia. Venho de uma família muito simples, meus pais são comerciantes, pessoas que não tiveram acesso à escolaridade, eles têm 4ª série, e eu não fui estimulada a ler ou a assistir um filme. Isso não fazia parte da minha vida. Descobri essa paixão pelo cinema no C&P, e também na terapia por indicações da minha terapeuta, que citava filmes para me ajudar a entender o que eu estava sentindo. Hoje, em meu tempo livre, assisto filmes, dois ou três no fim de semana. Eu adoro.

E a paixão pela psicanálise também surgiu. Ainda sei pouco, quero estudar mais, mas já gosto muito, me atrai. Já quero fazer uma especialização, mas minha terapeuta diz pra eu ir com calma, sentir primeiro.. Eu comecei a atender no consultório este ano, faz 3 meses, eu me formei em psicologia faz 6 meses, então ainda estou começando.

C&P: Você disse que a psicanálise tem uma linguagem mais simples, não simplista, mas que conversa de uma forma diferente e toca as pessoas. Você acredita que é assim também com o cinema? Que o cinema tem uma linguagem diferente das outras artes, talvez mais acessível..

Adriana: Acredito que sim. O cinema se aproxima mais das pessoas, mais do que o teatro por exemplo. Às vezes é uma imagem que te chama a atenção, e assim você consegue pensar em algo que não tinha pensado. O cinema é mais popular, até do que a literatura, ele é mais acessível.

O que muda é a forma de apreciar. O C&P vai mudando nossa forma de apreciar os filmes. Porque antes eu via um filme e só, não refletia. Com o C&P, passei a pensar nas pessoas, nas relações, na forma como as pessoas se comportam, como elas sentem, como elas agem. Então, comecei a observar um pouco mais e isso me mudou. Claro que eu assisto aos filmes porque é prazeroso, não fico o tempo todo pensando nisso ou naquilo, porque é também um momento de descanso, mas às vezes sem querer a narrativa ajuda a ligar alguma coisa que estava desconectada, em termos de sentimentos e emoções.

C&P: Muito legal saber que o C&P te incentivou a apreciar o cinema de uma forma diferente, refletindo..

Adriana: Sim, porque depois do filme sempre tem uma reflexão, e a gente percebe o quanto o palestrante pesquisou e estudou para apresentar aquelas ideias. É esse momento que nos transforma. E vai muito além, quantas músicas escuto hoje no meu carro e vieram de indicações dos palestrantes do C&P, músicas que eu não ouvia e passei a apreciar. O C&P despertou alguns gostos musicais que eu não tinha.

C&P: Então vai além do cinema e da psicanálise.

Adriana: Vai. Vai além. Às vezes, eles citam determinados livros e eu anoto para ler depois. Ou citam algum pintor e eu saio de lá super curiosa para pesquisar e saber mais. Eles fazem muito esse movimento, não fica só no filme e nos autores da psicanálise, eles vão muito além.

C&P: Tentam “linkar” com outras áreas e outras artes.

Adriana: Sim, quantos palestrantes já mostraram imagens e fotografias, inclusive de outros países. Muitas vezes utilizam música. Então, tudo isso foi abrindo uma série de possibilidades que eu desconhecia, que para mim era desconhecido. Eu não tinha esse acesso. Tinha acesso a uma cultura diferente..

C&P: E há 9 anos, quando o C&P de Franca começou, Franca era uma cidade diferente, com poucos estímulos a eventos culturais assim, não é mesmo?

Adriana: Com certeza, o C&P foi inovador nessa proposta de unir diferentes artes, diferentes áreas, e de dar acesso a esta cultura. A gente tinha duas salas de cinema, hoje temos mais, mas sempre foi bem pouco. A gente tinha o Sesi, que tinha o curso de teatro mas raramente trazia peças de teatro. A gente tinha o shopping, que era a maior possibilidade de lazer. Eu não me recordo de outra fonte e outro espaço de socialização que trouxesse o contato com diferentes culturas.

O C&P inclusive passou a ser um espaço de socialização, porque lá eu fiz amizades durante os encontros. E isso não tinha em Franca. Sei que vocês não têm essa noção, mas vocês fazem a diferença nessa cidade, porque foi por meio do C&P que vieram outros projetos, que pessoas de outras cidades passaram a vir pra Franca.. Isso movimenta a cidade, movimenta os cursos de psicologia, movimenta nossa vida cultural.

Muitas vezes, o que a gente conversa no C&P vira até assunto de terapia, porque os pensamentos de cada um instigam uma reflexão, que a gente leva pra nossa terapia. E hoje, atuando como profissional, como psicóloga, trago essas reflexões também para meu consultório.

C&P: Você procura trazer as reflexões do C&P para seus pacientes, então? Que interessante!

Adriana: Claro! Por exemplo, em um dos filmes apresentados, “Coisas que perdemos pelo caminho”, o palestrante falou sobre suicídio e comentou algo assim: “aquele que se suicida geralmente o faz na tentativa de matar alguma parte que dói, e acaba matando junto todas as outras partes”. É uma frase que eu levo pra minha vida e utilizo com meus pacientes, na tentativa de ajudá-los a enxergar que existem outras partes, não só a que dói. Foi uma fala que ficou.

Em muitos momentos eu lembro de alguma coisa que foi dito na sessão do C&P. Além disso, lembro também de algumas situações que os personagens viveram nos filmes, e também uso isso com meus pacientes, porque o cinema é uma possibilidade de sonhar o que até então não era sonhado. E eu tento trazer isso para os pacientes, de uma maneira contextualizada, quando eu vejo que faz sentido com o que a pessoa está falando. É uma forma de ajuda-los a conhecer esta arte que é o cinema.

Muitas vezes eu me sinto um pouquinho multiplicadora das ideias do C&P, da psicanálise e do cinema!

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