Quando Azazel beijou-me os lábios


Há quem diga: santo de casa nao faz milagre. Pois hei de confessar-me : em minha fizera.
Contavam-me nas histórias que era vermelho, de chifres e rabo de seta o próprio diabo, mas preferia tratá-lo como mulher, com corpo de centelho e o sortilégio concreto de fazer de minha vida o próprio inferno. Possuía nome e endereço, não um, vários.
Tocava-me o corpo já latente e servente ao mormaço. Olhava-me com os olhos da serpente de Adão, tocava-me a pele que ardia em chamas e pousava-me em um éden extasiado. Foi quando dei-me conta: havia me rendido à sua luxúria.
Não lembro quando a conheci, só senti seu calor próximo ás ruas que caminhei. E por onde tanto andei, que não havia lhe sentido antes?
Era bela, do jeito que o diabo gosta.
Quando a senti pela primeira vez, veio a mim a mais molhada chuva de pecados que antes jamais havia me molhado. Lhe provava a mais rosada das maçãs, lambia os lábios com o mais doce mel açucarado. A doida virava-me a cabeça no mesmo que virava-me do avesso.
Esse raio de mulher que era o diabo em gente, fazia-me perder o rumo e nem o mais sacro dos Frades tirava-lhe de mim.
Ajoelhava-se em minha frente para rezar com a mais lasciva língua… E aliás, que perdoem-me as más línguas que falam, pois a dela, essa sim, queima e apetece. Essa sim fazia o milagre mais censurado pelo divino.
Era ela, o diabo-de-mulher, sem chifres ou um tridente. Não lembro como ela se foi. E se era pesadelo, eu não sei. Mas era ela…
Era ela, que de existir tomava-me o juízo e incediava-me o corpo. Mas que diabo de mulher!
Beijou me os lábios em uma viagem imaculada, e nunca mais voltou.