Para ser reconhecida, uma mulher precisa ser excepcional

Uma reflexão sobre o porquê as mulheres sempre fazem produções geniais e intrigantes

Frequentemente sou questionada de onde vem o impulso para sempre priorizar o consumo de produções feitas por mulheres. De ouvir música a comprar açaí na praia, tudo o que é feito por mãos femininas eu valorizo e costumo apoiar.

Ao tentar responder a pergunta, sempre tenho a sensação de que faço um breve resumo. Seja porque não deu tempo de fazer o power point sobre as motivações, seja porque o ouvinte não está lá tão interessado na reflexão da pergunta. Às vezes, ele só a fez para provocar.

Parei para pensar sobre o trabalho exercido pelas mulheres ao redor do mundo e as conclusões poderiam dar uma tese de pesquisa. Vejam bem, tudo o que as mulheres colocam a mão há por trás a obrigatoriedade de ser impecável. Ao contrário, todo o trabalho será em vão.

Um deslize e o amigo do seu colega toma a posição que você sempre lutou para conquistar no trabalho. Uma divergência (ou sensação de amaça) e o recém-formado diretor toma seu lugar na produção de um filme. Concordo que temos avançado no desenvolvimento do pesamento feminista e do empoderamento feminino, mas encontrar seu lugar de reconhecimento ainda é uma batalha árdua para as mulheres.

Carregamos um passado histórico de boicote à nossa liberdade de pensamento e de expressão. Existem incontáveis casos narrados de mulheres que, para serem ouvidas em suas produções, usavam nomes masculinos. Ou precisavam da autorização registrada do marido para escrever, contar uma história, ser criativa.

Realidade próxima a que vivem as mulheres de The Handmaid’s Tale (Hulu, 2017). Na (não-tão) distópica série, baseada na obra O conto de Aia (Margareth Atwood, 1985), as mulheres tiveram seus pensamentos cerceados, foram proibidas de ler e escrever, e a transformaram em procriadoras.

Voltando às mulheres que consumo, um dos melhores exemplos para compreender minha linha de raciocínio é o fenômeno Elena Ferrante. De identidade anônima, a escritora é uma das mais geniais da atualidade. Sua literatura de romance se assemelha a de Simone de Beauvoir, no que se compara ao dissecar o íntimo feminino. Ao mesmo tempo, Ferrante consegue expor o lado delicado e o selvagem da mulher contemporânea. Em sua tetralogia Duas Amigas, que começa com o pulsante A Amiga Genial (Biblioteca Azul, 2011), o leitor acompanha fielmente todas as fases da vida de uma mulher — da infância à velhice.

No entanto, apesar de sua completude na abordagem dos sentimentos, das sensações e, principalmente, das vivências que uma mulher passa durante a vida, frequentemente aparecem boatos afirmando que ela pode ser um homem. Uma das teorias apresentadas pela crítica italiana aponta que ela é Domenico Starnone, um escritor da Itália, que em seu livro Laços (Todavia, 2017) narra o lamento de uma mulher. “Eu não sou Elena Ferrante”, afirmou uma vez. “Eu não conseguiria escrever o que ela escreveu”, acrescentou.

Após a declaração de Starnone começaram outros rumores e pesquisas a fundo para descobrir a verdadeira identidade de Ferrante, agora, sem duvidar de que ela é uma mulher. Foi preciso que ele se posicionasse sobre o burburinho para que todos ouvissem e compreendessem.

Outro caso no mundo da literatura foi recente, com a rejeição de Conceição Evaristo para ocupar uma cadeira na ABL (Academia Brasileira de Letras). Na casa de Machado de Assis, a escritora, herdeira de Maria Carolina de Jesus, teve apenas um voto a seu favor. Ela seria a primeira mulher negra a conseguir um espaço no roll intelectual da literatura nacional.

Em seu blog no G1, Dodô Azevedo, diz que “a ABL não merece Conceição Evaristo”. Segundo o colunista, a academia só é notícia quando morre um de seus membros e na eleição substituta. No caso de Conceição, o escolhido para ocupar o assento de imortalidade foi o cineasta alagoano Cacá Diegues. Pertencente à nata do cinema nacional, Diegues — um homem branco, para deixar registrado, recebeu 22 votos dos 24 acadêmicos presentes.

No cenário da música, também consigo visualizar a escalada que uma cantora de rock mulher precisa subir para chegar à fama. O vocalista do The Strokes, Julian Casablancas, por exemplo, se tornou o ícone que “salvou o rock”, no primeiro disco que lançou na carreira, nos anos 2000. Talentoso e privilegiado, o artista é um dos nomes mais renomados do gênero e liderou um movimento importante para a história da música. Ao mesmo tempo, atualmente entramos em contato com a australiana Courtney Barnett, que está lançando seu quarto álbum de estúdio e só agora está atraindo atenção da mídia e dos críticos.

Barnett é um dos nomes mais promissores do rock da atualidade. Em seu último disco Tell Me How You Really Feel (2017), ela sinaliza para uma continuação do pioneirismo feminino no rock, que já vem em desenvolvimento há alguns anos. Com uma melodia carregada de técnica e inspiração, com letras atuais, poéticas e inteligentes, ela ainda busca o espaço merecido por seu talento.

Em tempo, às vezes faço a enquete de perguntas aos meus conhecidos e amigos quem é Joan Baez e Joni Mitchell. Ambas cantoras e compositoras, a primeira foi responsável por revelar Bob Dylan (esses todos sabem quem é, certo?). Já a segunda é dona de um dos álbuns mais bem avaliados pela crítica mundial, Blue (1971). Normalmente a resposta que ouço é “já ouvi falar, mas não sei muito sobre”, ou “não conheço, não. Mas Bob Dylan é ótimo, não é?”.

Caros leitores, depois dessa divagação de pensamentos, gostaria de esclarecer que não menosprezo o trabalho realizado por um homem. Há produções muito boas, dignas de reconhecimento, mas para eles, quase nunca (ênfase para o quase), existe o peso de uma cultura histórica que nos silenciou por tantos anos — e ainda nos silencia. Muito menos eles enfrentam as dificuldades de uma mulher em conseguir espaço, reconhecimento e confiança.

Até hoje, apesar dos avanços, nos deparamos com o predomínio masculino em todas as esferas. Justifica-se por isso, a ainda necessidade de se aplicar cotas para mulheres em empresas, festivais de música, de literatura e de cinema. Justifica também um Festival de Cannes ter tido, pela primeira vez nos seus 71 anos de existência, um juri composto majoritariamente por mulheres.

No fim, para ser estrela, uma mulher precisa ser excepcional.