Uma batida de revolução — pt. 1

“Não, eu não posso mais. Nada disso faz sentido. Como eu vim parar aqui?”. Em looping, eram só esses pensamentos que ecoavam na cabeça de Patti, naquele 31 de dezembro de 2018.

Naquela mesma noite, 25 anos antes, ela estava sendo violentada pelo homem que mais admirava: um grande produtor musical da cena de rock de Nova York da década de 90, o magnata Jhonny Weister. E, não pensem que a admiração era só pelo trabalho que ele fazia. Mas também pelo poder que ele tinha.

— Tinha não, tem, pensou Patti bufando, puta da vida.

Ela sabe que não foi falta de esforço ou competência, que agora é vendedora em uma loja de discos no subúrbio de NY. Não foi descaso, ou pouco amor pela profissão que a afastou de grandes gênios da música americana. Foi ele. Foi sua prepotência, seu machismo, seu ego e seu status que fizeram isso com ela. Mas, por um reunião de esforços próprios e de amigos, ela não perdera o contato total com a cena musical.

Inclusive, naquele momento, se relembrou que estava numa festa interessante, com pessoas abertas a trocar impressões sobre novos rostos que estavam ganhando notoriedade na música.

Percebeu que uma de suas canções preferidas começou a tocar. “Second Hand News”, do Fleetwood Mac. Animada, foi até a pista de dança comemorar a chegada do ano que ela tinha certeza, seria de grandes desafios.

No comando da trilha sonora, estava Polly, sua mulher já há alguns anos. A história das duas sempre foi cheia de turbulências e conflitos, afinal, os traumas que ambas carregam não são leves. Mas nos últimos meses, os momentos de tristeza vinham dando lugar à força e à união das duas.

De repente, seu celular, há tempos esquecido no bolso da jaqueta de couro, começou a tocar. Patti atendeu o telefone, e logo foi interrompida por sua amiga Kim, que do outro lado da linha estava apreensiva para falar.

— Patti, deu tudo certo. Conseguimos. Agora, a gente pode falar

— Não é possível, eu não acredito. Você jura? Há quanto tempo esperamos por isso?

— Sim, eu juro. 25 anos, Patti. Faz 25 anos que esse homem está solto. Chegou a hora de mudarmos isso. Me encontre amanhã, às 10h, no nosso café de sempre. Te espero. Feliz novo ano!

Patti não sabia o que fazer. Precisava organizar seus pensamentos. Chamou Polly, que estava bebendo com seus amigos, e a levou para o lugar preferido das duas: a lanchonete 24 horas, da esquina do apartamento delas. Polly ficou confusa com a atitude de Patti, mas a acompanhou em silêncio por todo caminho. Na hora certa perguntou:

— Patti, o que aconteceu? Você viu algo dele? Ele te mandou alguma mensagem de ano novo?

— Não, Polly. Ele não me procura desde que ameacei pedir a ordem de restrição há 4 meses. Mas, aconteceu algo em relação a ele. Kim conseguiu. Ela conseguiu cancelar nosso contrato de confidencialidade de uma forma legal, que não nos punirá financeiramente. Agora, depois de 25 anos, eu vou poder falar. Mas preciso de um plano para isso ser efetivo. Preciso da sua ajuda.

Polly, sempre muito racional, quase não conseguiu segurar a preocupação. De forma automática lembrou do trecho da música “People are strange”, do The Doors. “No one remembers your name when you are strange”. Seu grande receio era de que Patti se tornasse uma pessoa pública por essa circunstância. Seus pensamentos foram interrompidos pela fala destemida de Patti.

— Eu sei o que você está pensando, Polly. Eu não quero ficar famosa por isso. Eu sei dos meus riscos em colocar todas as minhas cartas na mesa para uma TV, para um jornal… Olha, eu não sei.

— Eu sei Patti. Mas você precisa ser estratégica. Precisamos pensar.

— Sim, estou exausta. Vou para casa pensar nisso tudo. Obrigada, eu te amo.

Patti deu um beijo em Polly. E saiu. Tinha consciência de que a atitude parecera repentina, afinal as duas iam para o mesmo lugar. Mas também sentia que não saísse logo dali ela teria uma crise de pânico, um ataque de nervos. Situações que há tempos não passava.

Atualmente os estabilizadores de humor estavam fazendo bem a ela. Foi receosa no começo em tomá-los, mas agora estava se adaptando. Além de tudo, se dava bem com a terapeuta — situação também inédita. A cada duas semanas de sessões elas marcavam um encontro extra para fazer um clube do livro. Ela sabia que estava se doando àquela tarefa de alma e coração. A obra desta semana era especial de começo de ano. As duas estavam já há 6 meses analisando “Mulheres que correm com lobos”, de Clarissa Pinkola. Um clássico que trata do arquétipo da mulher selvagem, por meio da perspectiva feminina. Finalmente, tudo em sua vida corria bem.

Mas aquele vento gelado do qual não sentia com tanto tesão por ao menos 25 anos estava de volta! Era isso que ainda faltava para sua angústia se esvair. Desde seus 21 anos, quando foi obrigada pelas circunstâncias a amadurecer, ela não sabia o que era essa liberdade. Voltou correndo à lanchonete para tentar encontrar Polly, por sorte, ela continuava lá. Um tanto atônita, com a despedida.

— Patti, é a segunda vez nesta noite que você sai de repente! Mas me diga, por que voltou?

— Polly, vamos para casa. Precisamos de um plano. Amanhã vou encontrar Kim pela manhã e preciso estar com tudo em cima. Ela é minha advogada há tantos anos. Me ensinou tanto. Ela me recriou pós-trauma. Ah, mas você já sabe disso tudo. Vamos.

Polly, já havia levantado há alguns segundos e, com meio-sorriso no rosto, foi com Patti para casa. Ainda estava preocupada, dali a uma semana iria para Londres tocar em um festival. Seria uma viagem rápida, de três dias, mas sabia que precisaria deixar tudo no jeito para Patti ficar focada em suas ações e no seu próprio cuidado.

— O Jhonny é influente, falou Polly de repente. Talvez devemos começar reunindo todas as provas que você guardou durante os anos. Temos os e-mails de quando você assinou o contrato de confidencialidade. Os registros telefônicos das incontáveis vezes que ele te ligou de madrugada. As suas explicações fajutas em cartas para seus amigos mais próximos do por quê você saiu da Weister Company bem no auge de suas conquistas. Tudo está a seu favor. Mas não se esqueça, você precisa ter forças. Eu vou cancelar minha apresentação no festival na próxima semana e ficarei aqui. Farei o que você quiser. Você já esteve presa por tempo demais.

Juntas, elas passaram a noite toda na sala de seu apartamento reunindo os argumentos. Foi escolhida uma trilha sonora especial, Patti Smith (claro), para aquela conquista. Que não era só dela. Sempre soube que a maior parte das mulheres que entravam no meio musical passavam por algo que ela também passou. Esse ainda é o ciclo, que estava prestes a ser quebrado.

Oito da manhã seu despertador toca, ela esqueceu de avisá-lo que apesar de ser segunda-feira era primeiro de ano. O café já estava pronto. Polly já havia se antecipado. As duas passaram um tempo caladas, perto uma da outra. Tomando coragem para encontrar Kim.

Patti preferiu ir sozinha. Respirou e foi para o ponto esperar o ônibus. Ao chegar no café viu que sua advogada já a aguardava, mas havia uma terceira mulher na mesa, que reconhecia, mas não lembrava de onde. O frio do inverno nova iorquino a congelava, por isso deu um longo respiro e entrou sabendo que aquele momento mudaria o final de sua própria história.

A mulher desconhecida era Lesley, editora de cultura do New York Times. Patti soube para que ela estava ali. Mas sem rodeios, era necessário começar o preparo da denúncia imediatamente. Jhonny já deveria ter sido avisado por seus advogados da quebra do contrato.

Patti reuniu todas as suas forças e, quase como numa sessão de hipnose, começou a contar à Lesley sua história. Desde sua dedicação para conseguir realizar o sonho de participar da cena musical de NY até o fatídico dia do abuso e das consequências que isso gerou em sua vida. Depois de horas de conversa e incontáveis xícaras de café, aquele lugar estava se tornando um lugar de liberdade.

Tantas vezes ela já havia ensaiado aquelas palavras. A conversa pareceu durar meia hora, mas Patti falou por cinco horas. Exausta, Patti pediu para encerrar a entrevista. Já havia falado tudo. Kim agradeceu a presença de Lesley e se despediu, levando Patti junto. As decisões jurídicas seriam tomadas com calma.

Patti chegou em casa, abraçou Polly, e começou a narrar toda a denúncia. Ela se sentia diferente, prestes a descobrir um futuro do qual sempre sonhou. Acendeu um cigarro que se apagou enquanto cochilava no colo de Polly. Poucas horas depois foi acordada pela namorada com um sobressalto.

— Patti, sua história está em toda a internet…