A torcida brasileira gosta de futebol feminino. Por que não é suficiente?

Vamos imaginar o seguinte quadro: existe uma uma modalidade esportiva cuja seleção consegue bons índices de audiência ao longo do tempo, que lotou estádios e formou torcedoras e torcedores na campanha olímpica. Graças a um decisivo apoio estatal, consegue atrair gente importante para massificar ainda mais seu público. Só que, apesar disso tudo, a segunda competição mais importante desta modalidade começa sem que os detentores do direito de transmissão se mexam para transmití-la. As perguntas são: Por que esta modalidade não consegue espaço nem nas TVs esportivas pagas? Como fazer com que esta modalidade consiga seu espaço na grade televisiva?

O grande dilema do futebol feminino brasileiro pós-Olimpíada é: os números de audiência, o apoio da torcida, os estádios cheios para a seleção, o fato de que estamos na linha de frente do esporte mesmo competindo com nações onde a modalidade é levada infinitamente mais a sério, nada disso parece ser suficiente para os executivos televisivos. Os mesmos executivos que abrem espaço para campeonatos europeus e asiáticos de terceira e quarta linhas, torneios pouco expressivos, jogos pouco relevantes, não parecem interessados no futebol feminino brasileiro.

(Propositalmente deixei a TV Brasil de fora; no estado de animosidade entre a EBC e o governo atual composto de homens brancos idosos, entendo ser complicado iniciar investimentos numa modalidade feminina.)

Acho que a chave está numa passagem no texto do Gabriel Vaquer: Há algum tempo, (as emissoras) dizem que futebol feminino é vítima de “não dar retorno”.

O que seria “dar retorno”? Não acredito que seja audiência; nos meios de semana à tarde, que é quando ocorre a Copa do Brasil feminina, um jogo de futebol feminino não vá dar muito menos audiência que um VT requentado ou um debate esportivo sobre o nada.

Sobra os patrocinadores.

Talvez seja o momento de termos algum vazamento do Sportv, do Fox Sports ou da BandSports sobre as vendas de cotas publicitárias para jogos de futebol feminino. Seria o primeiro passo para entendermos o que acontece com o esporte na televisão esportiva brasileira.

Porque, sem exposição do esporte, os clubes não se interessarão em investir; sem os clubes investindo, não conseguiremos revelar novas jogadoras — e não teremos Marta, Cristiane, Formiga etc para sempre.

E o pior: a torcida do futebol feminino, tanto a que vem apoiando a seleção brasileira ao longo do tempo, quanto a que se formou na campanha olímpica, vai se perder. E, sem torcida, não há esporte de massa que se sustente.