“Novo jeito de torcer”, 2013–2016

Em todo o estranhíssimo período entre a Copa de 2010 e a Copa das Confederações de 2013, uma expressão se formou: novo jeito de torcer. Na única convergência midiática positiva num triênio em que os grupos de mídia disputaram para ver quem tinha o Apocalipse mais apocalíptico, as exigências arquitetônicas dos 12 estádios da Copa de 2014, mais a Arena do Grêmio e o Allianz Parque, mudaria de vez o torcedor no estádio: sai o humilde e entra o mais abastado; sai o folclórico e entra quem se veste como se fosse para o shopping; sai a torcida organizada e entra quem está procurando pela “experiência”; saem os instrumentos musicais e entram os DJs de estádio; e por aí vai. Tentaram até criar uma maneira controlada do público ter seu instrumento musical no estádio, talvez para diminuir o impacto; felizmente, a Revolta da Caxirola enterrou esta ideia.

Na Copa das Confederações, que é um torneio cuja importância se tornou interna à FIFA (ver se o país-sede da Copa tem alguma coisa pronta), o “novo jeito de torcer” não foi incomodado; com um ano até a Copa do Mundo, e os ingressos em preços suficientemente altos, daria para o torcedor brasileiro, junto com os estrangeiros abastados que viriam por via aérea, cristalizar esta nova ordem nas arquibancadas e, quem sabe, obrigar os estádios mais velhos (velho no sentido depreciativo, mesmo) a seguirem a mesma lógica.

Até que a realidade bateu à porta dos planos geniais de marquteiros, dirigentes, executivos e gestores públicos.

O Brasil não é uma ilha-continente, portanto haviam estrangeiros que poderiam chegar por terra. Pior: estes estrangeiros que poderiam chegar por terra são de nações em que, mesmo nos estádios mais novos, a “maneira clássica de torcer” continuou mais ou menos intocada. Pior ainda: esses “bárbaros” são… latinos. Tão latinos quanto nós, brasileiros — apesar de algumas classes sociais detestarem isso todo santo dia.

O resultado é que, na Copa do Mundo, as “hordas bárbaras” latinoamericanas, chegando por terra e com seus cânticos, rojões, sinalizadores e algazarra, impuseram um 7x1 na torcida brasileira (o gol da torcida brasileira foi na criação do Mil Gols, provavelmente a melhor coisa que time e torcida fizeram durante o certame). A Copa das Copas foi a Copa das Copas, mas não foi pela torcida brasileira que foi às arenas.

O “novo jeito de torcer” ficou no limbo depois da Copa do Mundo, até porque a enorme ressaca que tomou conta do futebol brasileiro paralisou não apenas a CBF (e algumas concessões à realidade do futebol de clubes). E, depois de dois anos no limbo, finalmente está tendo um enterro, com o espírito carioca e algumas decisões do COL da Olimpíada sobre preço de ingressos nem nos fazendo sentir falta dos latinoamericanos.

É óbvio que as arenas, as recomendações de segurança, o preço alto dos ingressos continuarão aí. Mas também é óbvio que, depois da absoluta algazarra olímpica que o Rio fez, todas essas intervenções no futebol terão que respeitar a maneira que o brasileiro torce pelo seu time, inclusive levando em conta o recente fenômeno das barras, que estão rejuvenescendo as torcidas e as arquibancadas. Felizmente, isso significa o fim do “novo jeito de torcer”.