Talvez você esteja fazendo isso errado; ou: o que esse texto está fazendo no Instagram?


Talvez, apenas talvez, seus primeiros passos no sentido da socialização virtual tenham se dado numa das salas de bate-papo do UOL, lá nos distantes anos 90. Chegamos (nós do @RockOnlineBR) a ter três delas por lá.

Talvez você não existisse nos anos 90, ou talvez sim e, nesse caso, é possível que tenha ouvido falar ou até mesmo frequentado ativamente algum servidor IRC. Se lembra do mIRC? O fato é que o conceito de redes sociais não é tão novo quanto se pode deduzir, embora muitos acreditem que tudo começou com o finado Orkut, que nasceu e está morrendo beta.

O sucesso do Orkut pode ter aberto os portões do inferno, soltando no mundo dezenas e mais dezenas de redes sociais com as mesmas propostas e recursos inovadores, passando pelo MySpace e culminando na Mirtesnet.

Aos poucos a poeira foi baixando e alguns poucos como Twitter, Facebook, Instagram, LinkedIn, Google+ e YouTube foram se estabelecendo em seus nichos, ignorando em seus algoritmos, porém, algumas características primordiais da natureza humana: somos destrutivos, invejosos, narcisistas, futriqueiros e sem noção, essa última talvez a pior delas.

Foi nossa falta de noção que levou o Orkut pro buraco, transformando um conceito até que interessante num barraco mal acabado entupido de piadas sem graça e gifs animados de felicitações de aniversário, do dia da árvore, do balconista, da tia solteirona e do numismata em milhares de indefectíveis scraps diários, sem contar as comunidades de amor e ódio.

Ah sim, me esqueci de outra. Somos potencialmente preconceituosos e, convictos de nossa superioridade frente aos nossos vizinhos de comunidade (não me refiro às favelas, embora o Orkut tenha se transformado em uma), fomos abandonando a rede do Sr. Büyükkökten e migrando para o Facebook.

Porém, a morte anunciada do Orkut para o dia 30 de setembro de 2014 - não a do Sr. Büyükkökten, que continua vivo no Facebook - deu início a um êxodo digital sem precedentes na história da Internet, levando legiões de fãs do engenheiro de software turco a migrarem em massa para a rede do Sr. Zuckerberg. O que me faz questionar se o Orkut (agora me refiro ao Sr. Büyükkökten) é mesmo engenheiro ou um antropólogo parceirão do Hermano Vianna no Esquenta! da Regina Casé.

Humano que sou, com meus defeitos e características, abandonei o Facebook há algum tempo, assim como já havia feito com o Orkut anos antes.

Recentemente, após presenciar acirradas disputas (recheadas com milhares de fotos de comida) pela prefeitura do ponto de ônibus, resolvi deixar o Foursquare também para lá.

Com certa frequência vejo gente postando textos enormes na caixa de descrição das fotos no Instagram que, definitivamente, não foi feita pra isso. Existem políticos postando santinhos digitais acompanhados de longos textos de campanha.

E gente que resolve ‘taguear’ o mundo na foto do seu gato dormindo? #amo #ver #e #fotografar #o #meu #gato #lindo #dormindo #fofo #fofura #amigos. E pra completar a obra, te marca. Talvez esteja na hora de arrumar as malas.

Ancorado agora no Twitter, para onde resolvi voltar depois de tê-lo abandonado por alguns anos, ainda me divirto um pouco. Não tenho lido com muita frequência inconfidências do tipo: “No banheiro, a feijoada de hoje bateu forte! #merda #cagando”, o que é um bom sinal.

Mas… descobri recentemente que o premiado David Mitchell, autor de Cloud Atlas, publicou um conto (#THERIGHTSORT) em seu perfil no Twitter, num total de 280 posts num período de sete dias. Até me esforcei para ler, mas de baixo pra cima, quebrado e interrompido por outros posts fora do contexto, desisti.

Talvez, apenas talvez, seja preguiça. Ou um indicativo de que, ao escolher a ferramenta errada, as chances de o resultado não ser dos melhores, são exponencialmente maiores. Mesmo para um talentoso e premiado autor.

Então, não tente fazer torradas no ferro de passar ou, menos ainda, recorra à lavadora de roupas depois que a feijoada bater forte. Você pode ficar #chatiado. #ficaadica #prontofalei