Elenco de luxo e experiência imersiva de Esquadrão Suicida revelam a peçonha em todos nós

23 de maio de 2016. Noite chuvosa, ar ameaçador. Entrei em uma sala de aula no Prado Velho e minha professora me esperava para o que está sendo a quinta tentativa de estudar canto de maneira sistemática. Ela me conhece bem. As outras 4 tentativas, todas com ela, terminaram de maneira brusca. Depois de 5 aulas, eu ligava dizendo que não ia, sucessivamente, até que o laço se rompesse, sem dor, como nuvem que não choveu.

Um tipo de auto sabotagem que se revela claro hoje, quando vejo o conteúdo das coisas que canto. Todas as letras têm algum conteúdo agressivo, cínico, sarcástico ou doloroso, revelam algo interno que até o momento sagrado de botar a caneta no papel e escrever música, parece difícil demais de lidar. Insatisfações com o próprio corpo, mágoas, irritações com a burrice coletiva (da qual nunca imagino fazer parte), bravatas de desforra com ex-namorados, tristezas e terrores infantis. Cantar pra mim é como soltar fogo pela boca. Se você me vir cantar, invariavelmente vai me ver gritar, chorar, suar como um porco. Eu e você sairemos transformados pela minha peçonha. Além disso, tem uma série de questões que me incomodam no meu comportamento: ansiedade, timidez, dificuldade em dar respostas rápidas para coisas que babacas me falam em situações sociais. Acordo em horários estranhos, às vezes preciso muito de companhia, às vezes tenho vontade de não ver gente por dias, semanas a fio. Posso ser tímido, gentil, cínico, posso ser tudo aquilo que você não quer. Vampiro.

E, mais uma vez, me proponho a estudar canto sistematicamente e voltar a compor, preparando um novo disco. Olho pra minha professora meio de lado, como se quisesse esconder algo. Mas, desta vez, antes que eu tentasse botar um sorriso mascarado no rosto, ela me segura, olha no meu olho e diz: “César, está na hora de você encarar algumas coisas sobre você. Tem algo aí dentro de você esperando para sair, algo que não necessariamente é bonito à primeira vista. Mas, desta vez, você precisa encarar o fato de que tem um tipo de inteligência diferente das outras pessoas.”

Seguindo o conselho dela, estou passando por um processo de avaliação à la Professor Xavier com a assitência do pessoal do INODAP, que ajuda pessoas com suspeita de superdotação. Passo horas e horas lá dentro, acompanhado de uma psicóloga, fazendo exercícios aparentemente mecânicos que consistem em encontrar padrões em desenhos, fazer contas, preencher lacunas etc. O resutlado esperado é que eu consiga conviver melhor com minha aparente vilania e libere o poder que há em mim. Que eu solte o fogo que há nas narinas de vez, que mande tudo se foder e seja quem eu sou. Que eu me permita escrever resenhas de filmes populares com 4 parágrafos de introdução até que finalmente você leia algo sobre o filme.

Saí hoje da cabine de imprensa de Esquadrão Suicida profundamente balançado. Primeiro, por começar o dia vendo um filme cheio de gente fritada gritando sem parar e coisas explodindo. Vê-lo no Cinépolis 3D do Pátio Batel, preciso dizer, foi uma experiência satisfatória de imersão. Muitas coisas explodem nesse filme. A noção de normatividade, de vilania e de heroísmo também. Não interessa qual é a sua missão, ela será desempenhada por você. No filme, tem gente com talento pra ofender, matar, enlouquecer, incendiar coisas, enfim, para foder com tudo mesmo. Não que um vilão não dê medo. Ele pode te matar ou, no caso do Coringa de Jared Leto, um coadjuvante de luxo, ele prefere não te matar, mas te machucar muito, mas muito mesmo. Adorei isso de ver o Coringa, uma personagem geralmente tão central, ser usada mais pra dar deixa pra Maggot Robbie brilhar. Apesar da tonelada de piadas machistas em torno da Harlequin, é dela a trajetória que mais prestei atenção. Louquinha de amor, pulou no galão de líquido verde pra ficar maluca igual ao amor dela. Já fiz isso por pessoas que amei. Fiquei bem loucão também, saí quebrando tudo.

Também gostei de ver Will Smith finalmente em um papel no qual olho pra ele e não vejo necessariamente a cara super exposta do Will Smith. E a emoção do Diablo olhando pra mim, gigantão, em 3D, me dizendo pra ser eu mesmo, com todas essas incongruências, com todo o fogo nas ventas, com todos os meus erros do passado. Menos Kiko Zambianchi, mais G.G. Allin. Seja a puta incendiária que você nasceu pra ser e assuma seu papel na narrativa. Nada te separa dos vilões, pobre mortal. Nada te protege da tua natureza assustadora. Todas as esferas da tua vida te ligam ao lado escuro e desconhecido.

Gostaria de registrar que, de toda essa vilania, prefiro a daquele macho australiano suado e sujo sempre com a jaqueta entreaberta, mostrando o peito peludo e as correntes de metal. Joga teu bumerangue em mim que eu te cantarei impropérios e lamberei todo esse suor peçonhento com minha saliva de fogo.

Originally published at www.mondobacana.com.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Cesar Munhoz’s story.