A fábula do menino que não via
— ou — 
Ricardo Maurício Peixoto

um conto curto, de natureza fabulosa, por Cesar Sinicio Marques
Apenas as crianças, que brincavam furtivamente com os nossos hóspedes, sabiam que os novos companheiros eram simples dragões. Entretanto, elas não foram ouvidas.
(Murilo Rubião,
 Os dragões)
Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido.
(Coríntios, XIII, 12)

Ricardo Maurício Peixoto era um peixe fora d’água, e não digo isso por força de expressão: Ricardo era um peixe de fato. Quando se mudou para a escola houve grande alvoroço. Gritaram os tradicionais que escola não era lugar para mais bicho com barbatanas, mas os donos do colégio Horas Alegres pareciam não ligar — eles nunca ligam para nada. Devo confessar que de início não tive muita vontade de travar conversa com aquela criatura. Sentado à minha frente, dia após dia, Ricardo tentava inutilmente apanhar o lápis com as barbatanas. Pobre diabo. Enquanto eu caminhava pelos cantos, sozinho, buscando uma pedra diferente para a minha coleção, acabava sempre vendo o menino peixe. O corpo curvado, como que cabisbaixo, buscando um olhar amigo.

Ricardo Maurício Peixoto era um menino. Um menino com escamas, é verdade, mas como todo menino também brincava. Era hora do lanche — bem, era hora do que se entendesse, afinal nossos tutores nos largavam por 30 minutos e desapareciam na fumaça que cobria como névoa toda a porta da sala dos professores — Ricardo corria desajeitado, o corpo não parecia ter sido feito para a areia suja do pátio. Perseguia a bola com os olhos e, por fim, ao perceber que não era com ele que jogavam, voltou as costas para os outros meninos.

— Aí Sardinha! Toma essa pérola aqui ó!

TUM!

— Ah!

Acordei na sala da diretora com um grande olho circular a encimar a visão. Ricardo sorria. A bola, no final das contas, veio em direção a mim. Ileso do frustrado ataque ele agradecia por não ter sido ele a vítima dos grandalhões enquanto a diretora balbuciava algo ao telefone. Minha mãe não tardaria a aparecer e me encher de conselhos para que eu evitasse confusão. E naquele dia eu odiei Ricardo Maurício Peixoto.

Ora, como podia um menino chegar assim, desfilando escamosidade e, de repente, eu era quem sofria as consequências. Eu deveria mesmo era ignorá-lo, ou ameaça-lo como faziam os outros meninos.

Mas maiores que os mistérios das aulas incompreensíveis de biologia eram os enigmas de ter tão pouca idade e tão intensa curiosidade. Nas próximas semanas eu veria Ricardo tentar se enturmar sem sucesso. Eu observaria de longe e descobriria que a aula de matemática era a favorita dele. Eu que do meu lado nunca me dei muito bem com números. Nem com letras, por sinal. A escola, e tudo que nela existia — pessoas, peixes, relações — todas essas coisas seriam sempre segredos para mim.

E então veio o trabalho de biologia sobre vida marinha e o professor pediu que escolhêssemos nossas duplas. Corri o olhar pela sala e todo mundo parecia ter um sorriso já reservado para alguém sentado em outro lugar que não o meu. Sobramos Ricardo e eu.

— A gente pode fazer cada um uma parte e aí uns dias antes a gente junta tudo e pronto.
— Eu queria ir até a biblioteca pegar uns livros diferentes, será que você não me ajuda?
— Eu prefiro fazer sozinho mesmo… se desse nem faria dupla.
— Ah, ok!

E como sempre que há algo importante a fazer, as semanas voaram e eu me esqueci. Ricardo vivia tentando me abordar onde quer que me visse para falar a respeito e eu dizia que não era importante, que tudo estaria pronto quando fosse a hora. E assim, três dias antes da entrega eu precisei admitir que não conseguiria fazer tudo sozinho e acabei por, derrotado, insistir com Ricardo que precisávamos nos encontrar. Fizemos o trabalho na casa dele. No quarto havia uma grande estante, na cama um edredom laranja e amarelo com meu Pokémon favorito, uns potes cheios de sei lá o que na prateleira de cima, e uma escrivaninha longa que alguém tinha preparado com material para estudarmos.

— Você nunca tinha visto essas fotos de corais?
— Eu não olho muito ao redor.
— Mas não é difícil estudar essa parte da biologia pra você, é?
— Cara, eu não gosto de biologia! Estudar isso é coisa de nerd, de quem não tem vida!
— Biologia é de nerd? Não sei do que vai me chamar quando eu disser que tenho TODOS os jogos de Pokémon que já foram feitos!
— Não acredito, é sério isso?

E, com brilho nos olhos circulares, passamos mais tempo da tarde falando sobre jogos do que fazendo o trabalho, mas acabamos por deixar tudo pronto antes que, da porta, Ricardo observasse:

— Essa escola é realmente diferente! Pela primeira vez eu tenho um amigo!
— Ninguém falou em amizade aqui, menino peixe…

Eu não queria fazer amizade com o menino peixe, mas fingir que Ricardo Maurício Peixoto era invisível era difícil. Parecia que fazia de tudo para que suas brilhantes escamas se evidenciassem. Se ao menos eu fosse um pouco mais corajoso teria me juntado ao coro de meninos que dia após dia o torturava poeticamente: “Aê olho redondo! Mexe a barbatanazinha aí pra gente ver!” “Menino Nemo tá perdido do papaizinho?” “Ô escamoso! Brilha durante o dia que nem vampiro de Crepúsculo?”. Mas eu seguia olhando à distância nas tardes embaçadas de névoa.

Eu estava lá quando eles disseram que iam “dar uma lição naquele bicho com barbatanas”. Longe o suficiente para que não viessem com suas tradicionais brincadeiras sem graça, mas perto o bastante para entreouvir um plano que incluía maldades bem maiores que uma bolada na cabeça. Por um instante eu senti que aquilo não era certo, mas reprimi qualquer compaixão e continuei distante. Era por culpa dele, afinal, que eu tinha levado uma bolada. Que sofresse mesmo por ficar por aí desfilando nadadeiras sem pudor.

Era uma tarde úmida — eu gostava daquele ar mais denso que chegava um pouco antes da chuva. Hora da saída e o menino peixe sempre se demorava em arrumar as coisas na mochila com seu jeito desajeitado. Todos já haviam saído da sala, somente eu e Ricardo estávamos lá e eu olhei para seus olhos circulares e quase confessei que sabia que eles viriam. Mas algum tempo depois alguém cortava o silêncio:

— Olha pra cá, otário!

E ele olhou enquanto eu me encostava ao fundo da sala. Tinha me calado quando os ouvi planejar e até secretamente desejei que o machucassem, mas já não sabia. O maior deles, Fredy, sorria de canto enquanto se aproximava. Três outros mal encarados espreitavam da porta, como se certificando que ninguém viria.

Mas ninguém viria.

Ricardo Maurício Peixoto olhava para trás em busca da minha reação.

— Você fica na sua, se você não ficar quietinho vai ter a sua surra especial.

Encolhi. Dois dos meninos saíram da porta e vieram para perto do menino peixe. Fredy fechou o punho e acertou Ricardo no olho, os outros dois o seguraram para que não caísse — assim poderia apanhar mais. Eu queria gritar, eu não podia. Eu não sabia que tinha tanto grito em mim até aquele dia. Eu fechei os olhos e esperei os gemidos pararem. Eu só me levantei quando já não tinha ninguém ali. Já nem eu estava mais em mim quando a violência terminou.

Ricardo Maurício Peixoto não veio às aulas por uma semana ou duas, e quando voltou — o olho ainda inchado, redondo e intenso — vestia uma camiseta de mangas longas que escondiam suas nadadeiras e ficavam balançando bobamente do lado do corpo em forma de gota. Não conversava com ninguém; nem tentava mais. Com o corpo curvado, seu contato visual era apenas com os professores, os cadernos e o chão dos corredores da escola. Quando cruzava comigo, as frações de segundo em que me olhava pareciam me queimar por dentro. Não que me olhasse de qualquer forma diferente do tradicional olhar redondo e pidão. É que talvez eu quisesse ter uma máquina do tempo e, como não tinha, apertava no peito um grito não dado.

Mas com o passar daquele ano minha culpa diminuía e eu voltava a pensar que o responsável por tudo aquilo era, no fundo, ele mesmo. Ricardo sempre tinha uma boa desculpa para evitar os trabalhos em grupo, Fredy e sua turma pareciam satisfeitos com a quietude de Ricardo e eu prosseguia colecionando as pedras que encontrava ao olhar para o chão.

No ano seguinte, entretanto, Ricardo Maurício Peixoto deixou as mangas compridas em casa e voltou a ser o peixe brilhante que era. E os meninos, que achavam que tinham vencido, resolveram reforçar a lição. Passaram a ameaçar o menino peixe abertamente. Todos sorriam contidos com a valentia dos meninos diante do absurdo que Ricardo representava. Ao contrário do que acontece nos filmes, o menino diferente não era um herói adormecido; ele era o vilão. Encolhido e escolhido a dedo para lembrar que escola não era lugar de ser diferente. A verdade é que eu acabei por escolhê-lo também… eu precisava sobreviver ao colegial… e para isso precisava ridicularizar Ricardo Maurício Peixoto.

— Hey cabeção!

Ele olhou desconfiado, voltou a baixar o olhar, procurou com as barbatanas os bolsos altos (provavelmente costurados ali por sua mãe) e pegou uma pedra. Recuei. Ele parecia pronto para enfrentar valentões agora. Os meninos cercaram a gente e gritavam que eu batesse nele. Busquei uma das pedras que recolhera naquela manhã, redonda e azulada: perfeita para atirar. Eu nem sabia por que estava fazendo aquilo. Segurei, mirei e ele acertou o olhar em minha direção. Então guardei a pedra no bolso de volta. Fredy me deu um tapa forte nas costas.

— Você é igualzinho a ele!

E então atirei.

Sangue, suor. Meu pensamento fluía entre achar que eu agora seria menos odiado por todos, me perguntar porque eu teria atirado justo a pedra mais bonita e olhar para o menino peixe a se lamentar sozinho e sem apoio, as barbatanas tentando alcançar o ferimento na cabeça. As pessoas riram, os risos ecoavam na minha cabeça como se não fosse Ricardo o palhaço da vez. Os dedos dos meninos e meninas apontavam indistintamente as pobres criaturas no centro do pátio. Nenhum professor viria — eles nunca vêm. Todos se afastaram, Ricardo continuou ali por um tempo, seus olhos circulares cheios de uma pergunta calada. Eu olho, lamento e sigo.

Nada tinha mudado. Fredy e sua turma voltaram a me ignorar por completo. Ricardo Maurício Peixoto ainda andava sem esconder suas nadadeiras. Somente o meu coração morava mais apertado em meu peito gelado. Uma pedra no caminho.

Uma sala circular e móveis azuis, distribuídos concentricamente. Eu no meio. Toda vez que eu caminho me aproximo de um vidro que me reflete. Eu me vejo. Eu vejo Ricardo Maurício Peixoto. Os móveis têm pedras em cima deles. As pedras têm manchas de sangue. Acordo assustado. Noite após noite o pesadelo me assombra e eu não sei, de novo, como gritar.

Na escola há algo como nesse sonho: um círculo, um ciclo. As coisas se repetem, o tempo não anda do jeito que deveria e antes que você perceba a inércia te leva a ignorar o mundo e pensar na próxima prova, no próximo teste, na próxima bronca. É assim com Português, com Geografia, com Artes. A gente não aprende a fazer arte na escola: a gente aprende a enfiar toda a arte que há em quadros de natureza morta. Eu seguia com o olhar morto as aulas. Pedras na consciência e no estômago.

Aulas de história não acontecem: arrastam-se eternamente numa confusão de datas, nomes e eventos que eu nunca vou entender. Eu olhava o menino peixe enquanto ele anotava tudo com afinco — a essa altura já sabia se curvar do tanto certo na carteira para que o lápis não caísse da nadadeira a cada palavra. Eu me perguntava por que ele era tão interessado nessas coisas inúteis…

— Perdeu alguma coisa na carteira da frente?
— Desculpa, professora, eu só estava distraído.
— A página do livro é 168, não 186…
— É… eu já tava voltando, foi o vento.
— E pare de rabiscar esses monstrinhos no canto do livro!

Ricardo olhava curioso para trás, e esboçava um meio sorriso — provavelmente por me ver tomando bronca.

E o relógio dava mais voltas.

***

Foi lá para o meio do ano que eu trombei o Ricardo no meio do pátio. Olhava para baixo, sozinho, e vi uma pedra particularmente interessante pela forma e tamanho e…

TUM!

— Ah! Desculpa eu nem vi voc…
— Oi… desculpa… eu só ia pegar essa pedra e não prestei atenção.

Afastei-me. Ele não parecia ter raiva. Eu quis dizer dos meus pesadelos, da minha confusão, quis dizer da minha dor, mas não sabia.

— Não, eu também tinha visto a pedra… não sabia que você colecionava outras coisas além de Pokémons.

Ele recuou também, parecia incerto se deveria mesmo estar falando comigo.

— Eu não te mostrei as pedras aquele dia em casa porque achei que ia achar que era idiota.
— Eu acho que devo ser o rei dos idiotas.
— Eu acho que todo mundo é idiota às vezes.
— Eu queria poder voltar atrás e não ter feito o que fiz.
— Eu queria que desse para jogar com o Gary no Pokemon…
— Não, é sério! Eu quero pedir… olha… se você me desculpar por aquela pedra, eu deixo você ficar com essa que a gente achou agora.

Quando consegui levantar o olhar para encarar o menino peixe, Ricardo sorria. Ele procurou nos bolsos altos da jaqueta por uns instantes.

— Eu a tinha guardado!

Ele estendeu uma pedra azulada e redonda.

Ricardo Maurício Peixoto era um menino maduro. E a gente voltava junto para casa desde então. E conversávamos sobre tudo! Não falávamos só de Pokémon ou da escola. Eu tentei aprender matemática com ele. E descobrimos que colecionar pedras podia ser mais divertido quando havia com quem trocar. E mesmo as coisas mais bobas pareciam legais. Mas os melhores assuntos só apareciam quando a gente estava perto da esquina onde nos separávamos. Deve ser uma dessas leis universais como quando chove toda vez que esquecemos o guarda chuva.

— Fala sério, o Aquaman não é um herói decente. Tudo que ele pode fazer é que caras como você obedeçam a ele, mas se eu quiser isso eu também faço!
— Ah é? E como?
— Só te oferecer hambúrguer do Mcdonalds… cheio de minhoca!
— Se tivesse metade da minhoca que tem na sua cabeça no hambúrguer de lá eu seria um baiacu!
— Ok, ok! Então por que ele é seu herói favorito?

E nesse instante da conversa já era hora de ir…

— Tá vendo aquela ali — tilintava a barbatana direita — é um colibri.
— Eu não sei direito o nome dos pássaros, mesmo quando são feito de nuvens.
— Quando não sabe é só inventar!
— Mas e se já tiver um outro jeito certo que alguém descobriu?
— Aí eu não sei… mas se você viu a nuvem agora ela é sua, ué!
— Aquela ali é um ‘covolúsculo’ então! — apontei e ele riu!

E de novo era a vez de dizer “até logo”…

Mas do outro lado do pátio, uma nuvem sombria e sem nome cobria uma turma de olhares perversos. Eu sabia que cedo ou tarde reagiriam à minha proximidade com Ricardo. Foi cedo. Fredy se aproximou:

— Cara, eu sei que você não é como esse Ricardinho lambari. Você já deu a ele o que ele merecia e agora vai ficar aí fingindo que é da mesma lata?
— Fredy, eu…
— Escuta, vai ter uma festa no próximo final de semana, na minha casa. Você pode vir e trás o peixe palhaço e aí a gente toma conta dele direitinho.
— Eu…
— Não precisa dizer nada. É só aparecer por lá.

Quando eu fingi que estudei sobre o coração em biologia eu acabei, mesmo sem prestar atenção, aprendendo que tinha dois lados. Bom, eu entendi mais ou menos isso: o músculo comprime e expande, o sangue entra e sai, de um lado é azul e do outro é vermelho. Naquela hora eu sentia cada pedacinho das fibras do meu coração contorcer de não saber para que lado ir.

Ricardo Maurício Peixoto era um amigo. Mas eu era um menino também. E eu queria ser querido, eu queria entender daqueles sorrisos cúmplices que os garotos da turma trocavam — ainda que às vezes me parecessem maldosos. Eu sempre quis ser um deles, fossem quem fossem: pertencer. E se eu fizesse o que Fredy dizia… Mas eu tinha dado uma pedrada no menino peixe e nada tinha mudado. E eu gostava de passar as tardes conversando com Ricardo. Ah, eu queria poder cortar meu coração em dois, meu corpo inteiro em metades sem conflitos. Móveis, pedras, aquários circulares. Era meu pesadelo acontecendo com meus olhos abertos. E então decidi. E nunca soube direito como foi que resolvi fazer aquilo.

— Você já foi em alguma festa?
— Claro! Quem é que nunca foi em festa?
— Não, tipo, festa de amigos assim?
— Seu aniversário não é só em Setembro?
— Não é o meu, é uma festa do Fredy.
— Por que eu iria na festa do Fredy?
— Ora, eu conversei com eles e o pessoal acha que foi injusto com você.
— Eu não sei se é uma boa ideia…
— A gente vai junto, se estiver ruim a gente vai embora!
— Eu vou ter que pensar.

Por uma semana eu dividi corpo e alma, vermelho e azul, pedaços do meu coração que não se entendiam. Eu tinha medo do Fredy e da sua turma — e de jamais ter vida social no Horas Alegres. Eu tinha medo dos pesadelos que eu tive, da culpa seca e dos olhos molhados. Mas não havia caminho outro possível. No final de semana seguinte eu passaria na casa de Ricardo para que a gente fosse à festa. Inesquecível o medo, as cinco vezes em que voltei para trás inseguro se deveria mesmo fazer aquilo, o esforço descomunal para — a cabeça encostada na parede — tocar a campainha.

— Ficou bonitão e estiloso, Ricardo!
— Ai! Eu ainda não tenho muita certeza se eu deveria ir…
— Confia em mim, vai ser divertido!

A escola toda parecia estar na festa. Na frente da casa os meninos e meninas sorriam e trocavam olhares. Aquele mundo de flertes, de gostos, de significar algo para alguém. Um mundo ao qual eu poderia ter acesso.

Ao perceberem que estávamos chegando todos se voltaram para a nossa direção. As árvores já não balançavam ao vento, nenhuma folha cairia.

— Cheguei a pensar que não viriam!
— É, eu consegui convencê-lo depois de muito insistir!
— Bom trabalho rapaz, agora por que não deixa que eu o leve para dentro?

Ricardo Maurício Peixoto era isca. E eu fechei os olhos. “Prepare-se para encrenca”, pensei!

— Fredy…

Arranquei dois sacos cheios de pedras do bolso alto da minha jaqueta, costurado ali pela minha mãe. Joguei um para ele, puxei duas pedras e acertei bem na cabeça do menino mais chato que eu já conheci.

— Acerta eles, Ricardo!

Eu ria em desespero enquanto Ricardo Maurício Peixoto e eu atirávamos meia dúzia de pedras. Dois segundos depois estávamos cercados. Tentamos usar as pedras, mas nossos movimentos desajeitados eram pouco para uma turba de meninos e meninas que não gostam de peixes.

Apanhamos como nunca naquela noite. E quando os pais dos meninos começaram a sair e mandá-los entrar — eles não se importaram com o menino peixe e eu deitados por ali no meio fio — a gente se olhou, os corpos doloridos, e voltamos para casa sorridentes.

— Eu nunca ia imaginar que isso fosse acontecer. Se eu soubesse colocava Pokémons em vez de pedras nessas sacolas!
— Pokémons não existem, menino peixe!
— Só porque você não consegue capturar todos, não venha dizer que são de mentirinha.
— Ah, é assim então, olha, eu não te salvei de apanhar porque não sou nenhum guerreiro de armadura.
— Mas você fez mágica!
— É porque eu aprendi com você, Ricardo Maurício Peixoto!

E a gente cresceu. E foi tanto que, de repente, a gente percebeu que os meninos do 4º ano eram muito menores do que a gente imaginava possível ter sido um dia. E é claro que Fredy e companhia continuaram a nos incomodar pelos anos seguintes. A gente acabou por aprender a sobreviver naquele lugar selvagem que chamavam de escola — algumas horas foram alegres, no fim das contas! “Seres humanos são muito esquisitos”, a gente dizia e ria.

Ricardo precisou se mudar quando finalmente passou no vestibular. A peneira finalmente o pegou. Mas foi ele quem me disse certa vez “talvez a resposta seja enxergar o belo em ser finito”. Ele dizia isso sobre as nuvens que a gente inventava de dar nomes, mas eu nunca entendi muito bem dessa beleza que ele parecia ver. Ricardo Maurício Peixoto era um cara sábio! E eu sempre prometo a mim mesmo que um dia iremos nos ver de novo em todas as cartas que me esforço para escrever. Mas já não sei. Meus olhos circulares percorrem as lembranças de dias que fluíram na doce corrente da infância, dias de conhecer um menino que era peixe de fato, e não por força de expressão… dias em que o peixe fora d’água era Ricardo Maurício Peixoto.