(Pa)ciência

Era uma vez uma moça. Reconhecia-se em si como a maior representante do que ela era. Ao seu redor, pessoas falavam de signos, de santos, almas eternas e determinações cósmicas. Ela era somente tudo que poderia ser. Ana.

‘Coisificaram a personalidade!’, ela dizia. ‘Embalaram os pormenores em uma embalagem bonita e brilhante pra presente!’. E não se contentava porque contente ela só era mesmo com a música e os filhotes de gato e o moço que falava outra língua. E era isso: a personalidade dela era incoisificável e, para desespero de quem a tenta explicar, indescritível.

Entretanto, não fosse ela, muitas manhãs teriam sido de escuridão. Porque ela tinha música mágica na conta dessa personalidade indizível. E cantava os monstros pra fora enquanto sorria no exterior— ainda que por dentro tivesse também seus monstros a enfrentar — e cada um que tinha a chance de conhecê-la ganhava uma estrela alcançável, por mais que não houvesse explicação.

Ela disse que gostar de Lenine não fazia ninguém hipster, que gostar de amarelo não significava ser da lufa-lufa. Ela disse que era possível que Shakespeare tivesse postado a grande sentença de forma enganosa: ser E não ser: eis a questão! E graças a ela a gente hoje sabe.

A vida não para.

Cesar Sinicio

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