“Você não tem atitude de diretor”

Foi assim, numa tarde de domingo, um monte de gente reunida pra ver a filmagem do espetáculo que tínhamos apresentado na semana anterior. Uma voz interior me dizia que eu deveria ter cancelado aquele compromisso. Afinal, dias antes pessoas tinham agressivamente dito que eu estava doente, reclamado que eu “só sabia falar em depressão”. Também disseram que eu usava as redes sociais para fazer mimimi e ganhar atenção em nome da minha tristeza. Eram meus amigos até ali… então insisti.

Epilepsia aos 37 anos, nem imaginava que isso era possível! Meu orientador do Mestrado passou num concurso e se mudou para outro estado! Eu estava literalmente desorientado e tão confuso que sequer cogitei pedir outro orientador; acabei desistindo do meu sonho que ficou dez anos em construção. Para coroar tudo, um cenário político econômico assustador que começava a se desenhar com a concretização do golpe. Eu estava perdido. Eu estava triste. Mas iria piorar.

Fui até lá, insistindo. E preparei o vídeo com as melhores cenas, os melhores ângulos e a melhor captação de áudio que encontrei. Eu vinha tentando encontrar o melhor jeito de fazer as coisas funcionarem! Era o mês de Agosto, mas desde antes houve tentativas minhas:

Eu reconhecia um lento invadir de uma energia que tinha mais a ver com egoísmo, ciúme, partidarismo cego e menos a ver com o abraço tribal que eu pensei em criar quando tive a ideia doida de reunir pessoas pra fazer teatro musical. Eu sabia. Mas saber é diferente de entender. E sem entender, como eu poderia acreditava que fosse possível? Como conceber que o grupo que nasceu do amor e da junção tranquila de um monte de gente sorridente iria aos poucos se tornar um lugar tóxico e nocivo?

E foi assim: na sexta-feira antes do dia de assistir a peça gravada eu postei um vídeo no grupo virtual. Era um vídeo fofinho que dizia de uma mocinha que fazia algumas coisas quando estava depressiva, como acariciar o gato e tomar um chocolate quente.

O vídeo terminava de uma forma positiva: “Agora estou um pouco menos depressiva”. E a canção tinha uma carinha fofa. Lembrei das pessoas por quem tinha carinho e enviei! Justamente porque, de alguma forma, eu sentia que eles eram essas pequenas coisinhas que tornavam minha vida confusa um pouco menos depressiva. Por ironia, o grupo chamava-se “Galerinha do amor”, por azar, a mensagem que se seguiu foi:

Eu não entendo essa necessidade de falar de depressão toda hora.

Insistindo segui: respondi que era um vídeo fofinho, que lembrei dos meus amigos, que falar sobre depressão não significava ficar mais deprimido e talvez fosse bom pra melhorar, especialmente entre amigos. Avisei que era perigoso patologizar todo estado de tristeza como se fosse doença e comentei da minha desconfiança da indústria farmacêutica. Disse que eu tinha achado o vídeo enquanto preparava uma aula de inglês, o que significa que eu estava produtivamente funcionando no mundo.

Mas eu não esperava a chuva de comentários que começaram a tentar me convencer que eu não estava bem, que eu estava depressivo demais, que havia algo errado e que eu precisava me medicar! E também me surpreendeu o estranho silêncio de tantas outras pessoas que estavam ali assistindo o linchamento.

Vai se tratar, caralho!

Foi a última voz que eu consegui ouvir antes de ir embora do grupo virtual. Mas ecoou (ainda ecoa) fundo no cérebro. E sei que depois dessa conversa eu deveria ter cancelado a sessão com a filmagem da nossa peça (que “nós” havia sobrado, afinal?). Deveria ter ficado em casa, deixado a poeira baixar. Mas eu insisti!

Fico me perguntando o que justifica as pessoas fazerem bullying agressivo e bizarro comigo quando eu estava ativamente tentando fazer do grupo um espaço de convivência harmoniosa?
O que leva pessoas a ficarem caladas enquanto os outros fazem uma campanha pra falar que eu sou um merda, não tenho atitude, que tô todo errado e que a única solução pra minha vida é tomar remédio?
O que leva as pessoas a seguirem como se nada tivesse acontecido, como se não tivessem botado pra foder um projeto cheio de gente e entusiasmo e beleza somente em nome de provar que eu supostamente estava na “zona de conforto”?

Quando a filmagem terminou de passar, o menino disse que eu eu não tinha atitude de diretor. Ali, no meio de todo mundo, diante do resultado do trabalho coletivo. Naquele instante um pedaço de mim começou a desabar. Quando pouca gente reagiu, comentou, defendeu ou interferiu, o resto de mim caiu em um estado de torpor que me acompanhou por um longo trecho do caminho daquele dia até aqui, enquanto escrevo. Houve botes salva-vidas jogados por algumas almas boas que ainda seguem próximas na caminhada. Mas o silêncio e a agressividade me marcaram tanto que mal consegui enxergar as pequenas luzes.

Hoje esses pedaços quebrados começam a encontrar novos jeitos de se encaixarem para formar quem eu sou.

Mas as perguntas provavelmente vão ficar.

Eu suspeito que a brincadeira de “meninas malvadas” tinha a ver com tentar provar que eu estava no time errado (como se houvesse times!). Como se minhas escolhas amorosas fossem espaço de debate e conversão via linchamento grupal (uma espécie de estupro corretivo com requintes cruéis de um João Doria que expulsa os moradores da crackolandia à força, para “limpar” a região de acordo com seus próprios critérios). Como se a turma dos não monogâmicos existisse como entidade… e como se estivesse pedindo pra todo mundo entrar no bonde forçosamente!

Posso jurar que tudo que estava fazendo da vida era tentar me equilibrar na corda bamba e acertar as contas com as situações de stress e imprevistos que me assolaram de forma intensa no ano de 2016. Mas eu SEMPRE tentei ser gentil, ouvir e acolher. Admito um milhão de falhas e funcionamentos complicados. Admito ter um amor que sufoca, mas sempre tive abertura para que se conversasse comigo sem recorrer ao festival de horrores que foi aquela pequena conversa virtual… e que seguiu com olhares de reprovação, fofocas de bastidores, ameaças quase físicas e a frase que decidiu que eu não servia para fazer o que inventei fazer quando ajudei a dar vida aos Bandacos. Você não tem atitude de diretor — ele disse.

Eu conversei o que pude, explicitei o tanto quanto me foi possível com a clareza que naquele momento tinha. E eu recebi agressividade e indiferença. E isso matou um monte de coisas em mim.

Hoje eu não vou entrar na bad vibe. Tô inteiro. E na inteireza sei também que talvez eu nunca encontre as respostas pra essas perguntas complicadas. Mas pra seguir a gente precisa reconhecer como chegou até aqui.

Foi assim o dia em que me disseram que eu não tinha atitude de diretor — um em palavras, os outros na inação.

Eu acho que eles estavam todos errados.

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