The Truman Show.

Uma reflexão sobre mídia, sensacionalismo e consumo.

CONHECENDO O FILME

O Show de Truman (ou The Truman Show, originalmente) é um filme estadunidense lançado em 1998, estrelado por Jim Carrey. O enredo retrata o dia a dia de Truman Burbank, um corretor de seguros que, sem saber, vive um reality show permanente.

Desde o nascimento, Truman convive apenas com atores. Tudo em sua vida é falso, antecipadamente escrito e premeditado pelo diretor Christof, juntamente à sua equipe de produção. Cada segundo é registrado — e televisionado — para pessoas do mundo inteiro.

Ao questionar a realidade harmônica que o circunda, o protagonista passa a agir “espontaneamente”, apenas para observar a forma como as outras pessoas lidariam com a situação. Uma vez comprovada a teoria de que está sendo constantemente observado e manipulado, Truman abandona sua rotina e “amigos” para partir em busca de respostas.

O ponto alto da trama acontece quando Truman veleja até o fim do cenário da fictícia Ilha de Seaheaven. Durante o diálogo com Christof (acompanhado por telespectadores que aguardam ansiosamente o desfecho), Truman tem a oportunidade de escolher entre: (1) permanecer existindo naquela ilha, tendo a vida perfeita, onde tudo estaria sempre sob controle; ou (2) sair de vez do estúdio, fadado a enfrentar as peculiaridades e desafios do mundo real.

Truman então agradece, despede-se do público e fica com a segunda opção. Instantes após a cena final do reality, as pessoas vibram com sua escolha, mas logo se entediam e mudam de canal, à procura de outro programa para assistir.

NOÇÕES DE SIMULACRO

O termo “simulacro” pode ser explicado como “aquilo que a fantasia cria e que representa”, “objeto sem realidade” ou, ainda, “ação simulada”. A vida de Truman se encaixa nesses conceitos. Ele, como indivíduo, configura-se enquanto ser real, pois reage natural e verdadeiramente às condições que lhe são apresentadas. Sua existência, no entanto, define-se como objeto fantasioso, criado e manuseado segundo as ordens da direção do reality.

A partir disso, nota-se o quanto é tênue a fronteira entre ficção e realidade. Até que ponto nossas vidas são controladas, por nós ou por terceiros? Agimos espontaneamente? Ou somos moldados a agir, diante de uma norma? Mais que isso, o filme propõe ainda uma crítica ao modelo de sociedade em que vivemos, onde até mesmo a vida de um ser humano torna-se produto de entretenimento.

RELACIONANDO AO CONSUMISMO

O principal ponto explorado pelo filme é a questão da privacidade, ou a falta dela. O público acompanha diariamente a vida de Truman, mas nunca coloca-se em seu lugar. Por mais que assista cada detalhe, não entende o que significa existir isolado do resto do mundo, tendo todo e qualquer momento transmitido a milhões (talvez bilhões) de desconhecidos. Truman é friamente consumido, tanto quanto qualquer outro produto em uma prateleira de supermercado.

Analisando o contexto histórico em que o filme foi lançado — fim do século XX — nota-se a visível sátira à modernidade e aos rumos que o uso das mídias estariam tomando. Truman, além de ser incapaz de tomar uma decisão genuína (exceto no momento em que opta por deixar o programa), é vigiado o tempo todo. Nós, atualmente, também somos observados, mas porque permitimos. Atualizamos nossos perfis em redes sociais, tiramos fotos, falamos como foi o nosso dia. Sucumbimos à carência, queremos ser o centro das atenções. Mas, diferente de Truman, temos nossos momentos privados (neles, inclusive, aproveitamos para acompanhar o que outras pessoas estão fazendo).

A metáfora utilizada no filme faz referência ao comportamento que surgiria juntamente com o século XXI: a busca incessante por mercadoria, o sensacionalismo por parte das grandes mídias, o monitoramento dos sujeitos — tudo isso, aliado ao consumo das massas. Até que ponto nossas decisões são influenciadas, sem que percebamos? Qual o sentido de estarmos seguindo o comportamento que nos é imposto? Somos controlados e aprisionados nesse estilo de vida, onde buscamos, a todo custo, aprovação vinda de outras pessoas — mesmo que em forma de meros likes.

Por fim, segundo o que é mostrado no próprio enredo, o mais libertador a se fazer é: fugir do padrão. Exercer o poder de escolha, tendo consciência de suas opções. Sair do piloto automático, cortar os fios que manipulam a marionete. Não permitir-se ser consumido. As pessoas que antes lhe “acompanhavam” (de longe, contribuindo para com a execução das mentiras) não irão sentir falta. Afinal, há outras formas de passar o tempo.

Resenha escrita para a disciplina “Mídia e Consumo”, do curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Campina Grande.