Vida e Morte.

Anos atrás, tive a oportunidade de conhecer duas irmãs — gêmeas, mas completamente diferentes uma da outra, por dentro e por fora.

A primeira se chamava Vida. Era bela, temperamental e implacável. Tinha a habilidade de cativar pessoas em apenas um dia. Em compensação, no outro, as mesmas praguejavam por terem cruzado seu caminho.

Sua aparência mudava tanto quanto seu humor. Era possível, por exemplo, que aparecesse pela manhã com os longos cabelos claros refletindo a luz dourada do Sol, ostentando um sorriso igualmente brilhante; que à tarde, os fios assumissem uma coloração escura, e seu semblante não transparecesse nada além de tédio; e que no início da noite, já sem qualquer vestígio da simpatia matinal, com as mechas divididas em tranças, fosse se embrenhar no bosque à procura de animais — os únicos seres a quem dirigia um apreço genuíno.

Vida estava sempre a ganhar e a perder admiradores. Quando tinha tempo ou vontade, conversava com eles. Fazia perguntas sobre seus sonhos, desejos e ambições. Ouvia atentamente aqueles desabafos alegres. Observava os olhares eufóricos com uma satisfação que beirava o sadismo. Enchia-os de promessas, mesmo tendo a certeza do sofrimento pelo qual passariam.

Seu comportamento inconstante a tornava misteriosa, difícil de decifrar — pelo menos por um tempo. Quando comecei a compreender que suas ações, em vez de inéditas, faziam parte de um ciclo vicioso, fui apresentada à outra irmã: Morte.

Enquanto Vida se mostrava de diferentes formas àqueles ao seu redor, assumindo um disfarce único para cada pessoa, Morte era sempre a mesma. Delicada, compreensiva, acolhedora, piedosa, gentil. Fisicamente, era tão bonita quanto a gêmea (às vezes até mais), mas, por algum motivo, não exercia o mesmo poder magnético.

Muitos evitavam, com uma cautela absurda, qualquer possibilidade de encontro com Morte. Outros, que tinham passado pelas mãos traiçoeiras de Vida, aguardavam ansiosamente por sua visita.

Quando a vi pela primeira vez, tudo em minha cabeça fez sentido, como um estalo súbito de lucidez. Eu soube, no momento em que vislumbrei seus cabelos prateados, que minha experiência com Vida, ainda que intensa e cheia de paixão, não era, nem de perto, arrebatadora como o que eu estava prestes a iniciar com Morte.

A partir de então, tornei-me sua amante.


Nota da autora: Texto escrito em 26 de junho de 2017, numa segunda-feira normal. Não é sobre suicídio, ou uma possível romantização do ato. Trata da dualidade constante entre as perspectivas mencionadas. É uma reflexão sobre como nos importamos imensamente com a felicidade efêmera e ordinária que a vida nos proporciona, nos esquecendo da proximidade da morte. Uma espécie de referência à expressão latina memento mori.
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