Mulher — uma categoria para além dos privilégios

Tema delicado e campo historicamente atravessado por disputas, as abrangências da categoria mulher sempre foram definidas em contraposição com bordas por vezes sutis, onde os critérios eleitos para validar uma experiência de “mulher” inteligível algumas vezes eram os mesmos estereótipos que justificavam hierarquizações e violências de gênero. Contudo, em todos os momentos da história, paradoxalmente nem todas as mulheres couberam no que hegemonicamente se disputa enquanto padrão da categoria “mulher”.
Já em 1852, Sojourner Truth, mulher negra ex-escravizada profere um discurso poderoso enquanto intervenção na Convenção dos Direitos das Mulheres, fala que, registrada, posteriormente ficou conhecida sob o título “E não sou uma mulher?”. Durante a convenção, incomodada com os rumos das argumentações que sempre reforçavam a fragilidade e delicadeza inerentes ao ser mulher, entre outros pontos ela comenta
Aqueles homens ali dizem que as mulheres precisam de ajuda para subir em carruagens, e devem ser carregadas para atravessar valas, e que merecem o melhor lugar onde quer que estejam. Ninguém jamais me ajudou a subir em carruagens, ou a saltar sobre poças de lama, e nunca me ofereceram melhor lugar algum! E não sou uma mulher? Olhem para mim? Olhem para meus braços! Eu arei e plantei, e juntei a colheita nos celeiros, e homem algum poderia estar à minha frente. E não sou uma mulher? Eu poderia trabalhar tanto e comer tanto quanto qualquer homem — desde que eu tivesse oportunidade para isso — e suportar o açoite também! E não sou uma mulher? (TRUTH, 1852 s/p)
Sojourner tenciona em sua fala brechas das composições sobre mulheres que, partindo de organizações compostas majoritariamente por pessoas brancas e aristocratas, entendem que mulheres negras fazem parte de uma categoria diferente, muito mais próxima a de objetos do que de humanos — a das pessoas negras. Numa racionalidade escravocrata, as supostas diferenças de gênero não importavam no momento em que mulheres negras fossem obrigadas a trabalhos braçais tão duros quanto os de qualquer homem. Desse modo, o ideal de mulher exaltado pelos mais diversos canais de representação (músicas, pintura, literatura, etc) já parte da exclusão naturalizada de uma grande parcela da população de mulheres.
Apesar do tencionamento, após sua colocação, um homem branco presente diz a Sojourner não acreditar que ela seja de fato uma mulher, ao que ela responde mostrando os seios à um grupo de mulheres e homens brancos que se sentiam ultrajados pela presença de uma mulher negra naquele espaço. Bell Hooks resgata esse episódio histórico e traz que:
Aos olhos do público branco do século XIX, a mulher negra era uma criatura sem valor para o título de mulher; era meramente a propriedade de alguém, uma coisa, um animal. Quando Sojourner Truth ficou de pé perante a Segunda Conferência Anual do movimento do direito de mulheres em Akron, Ohio, em 1852, as mulheres brancas que acreditaram desadequado que uma mulher negra falasse na sua presença numa plataforma pública gritaram: “Não a deixem falar! Não a deixem falar! Não a deixem falar!” Sojourner aguentou os seus protestos e tornou-se uma das primeiras feministas a chamar a atenção para o destino da mulher negra escrava que, forçada pela circunstância de trabalhar lado-a-lado com os homens negros, era uma viva personificação da verdade que as mulheres podiam ser iguais aos homens no trabalho. (HOOKS, 1981. p115)
Em uma publicação de 1981 intitulada Não sou eu uma mulher? Em uma referência direta a Sojourner, Bell Hooks analisa as relações históricas que dissociaram análises de gênero das análises raciais, promovendo o silenciamento histórico das mulheres negras bem como a proliferação de desumanizações constantes. Desde suas origens, o movimento feminista de mulheres negras já denuncia como a categoria mulher, mesmo sendo trabalhada pelo feminismo branco, segue sendo excludente ao se auto-referenciar como norma.
Passadas muitas décadas, as lutas dos feminismos negros avançam em suas construções teórico-políticas, porém vemos hoje o mesmo debate sobre a categoria mulher atualizado em relação às mulheres trans. Sobre esse ponto, onde alguns subgrupos dentro do movimento de mulheres defende a exclusão de mulheres trans (tal qual as feministas brancas em relação à Sojourner), o posicionamento contundente de mulheres como Angela Davis são fundamentais para fazer refletir sobre como se constrói modelos hegemônicos de mulher.
Em uma conferência de 11 de março de 2017, Angela Davis explana temas variados relacionados à perspectivas interseccionais, feminismos abolucionistas e movimentos de mulheres que trabalham com sistemas penais. Em certa medida, ela reflete sobre o caráter limitado da categoria mulher e relembra sobre os anos 60 e 70, quando em sua própria experiência de encarceramento ela pensa sobre o lugar das mulheres negras no movimento de mulheres, era constantemente interpelada pela questão “-você é uma mulher ou você é negra?”. Após trazer sua perspectiva sobre o conceito de interseccionalidade, Angela comenta sobre como o lugar da norma parece ser sempre ocupado pelas pessoas que já tem privilégios e como, nos anos 60 ser negra era sinônimo de não ser mulher. Devido à essa percepção, ela hoje se solidariza às lutas das mulheres trans que, quase sessenta anos depois, parecem estar vivendo o mesmo movimento de exclusão tanto da categoria mulher quanto da própria categoria de humanidade. Angela traz em suas próprias palavras:
Nós temos que nos perguntar: de quem estamos falando quando dizemos MULHER? Pois me parece que só faremos algum progresso quando mulheres que sempre foram marginalizadas da categoria mulher — a qual sempre foi a respeito de mulheres brancas de classe média — mulheres que sempre tiveram que batalhar, tornarem-se o símbolo dessa categoria.
Que tal seria se, digamos, uma mulher trans negra que luta contra a violência, que luta contra o sistema prisional, que tal se essa mulher ocupar o lugar simbólico da categoria MULHER?
Parece que nós sempre aceitamos como norma as pessoas que já tem privilégios. Por que é que nós não podemos aceitar que as pessoas que tiveram que lutar por reconhecimento, lutar por sobrevivência, lutar por liberdade é que devem tornar-se a norma, o símbolo ao qual devemos aspirar? (ANGELA DAVIS, março de 2017)
Há na fala de Angela um apelo categórico a que percebamos como os centros continuam a ser definidos desde as normas, e como as experiências de mulheres que se afastem dessa expectativa são empurradas para zonas de não reconhecimento. Questionar a própria norma que elege seus critérios a partir de auto centramentos é ponto fundamental.
Em contextos onde algumas mulheres tomam como pauta de suposta militância feminista o ataque e a perseguição à mulheres trans, a fala de Angela nos soa como um alerta e um chamado à auto-crítica. A questão posta é o quão interseccionais nossas lutas tem sido se elas se apoiam na exclusão e no apagamento de mulheres marginalizadas. Como produzir feminismos interseccionais que se negam a dialogar com mulheres trans e com mulheres prostitutas (e com vários outros grupos de mulheres), que em seus auto centramentos é incapaz de ouvir dessas mulheres o que elas tem a contribuir para as construções de epistemologias e metodologias feministas. O eco de Sojourner sempre retorna aqui e o cenário da conferência de 1852 se repete constantemente nos diversos espaços onde a dissonância é violentamente apagada desde dentro das próprias organizações entre mulheres. Angela em seu posicionamento nos ampara ao inverter a lógica posta: e se no lugar de deslegitimação e silenciamento das mulheres que não se enquadram no padrão branco, classe média e cisgênero, pudêssemos questionar a própria organização desses modelos de representação? Talvez só assim possamos dizer que pensamos e trabalhamos com a complexidade que o feminismo interseccional nos exige.
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notas:
- A fala completa e traduzida de Sojourner Truth foi publicada no site Geledés e pode ser acessada pelo link: https://www.geledes.org.br/e-nao-sou-uma-mulher-sojourner-truth/
- O livro da Bell Hooks Não sou eu uma mulher? publicado originalmente em 1981 pode ser encontrado na íntegra em português aqui: https://plataformagueto.files.wordpress.com/2014/12/nc3a3o-sou-eu-uma-mulher_traduzido.pdf
- A fala da Angela mencionada foi disponibilizada completa e em boa qualidade, porém ainda só com legendas em inglês. https://www.youtube.com/watch?v=vHhy0UovKs4
