É outra coisa

Queria dizer que é a vida, qualquer bobagem. Dizer que tudo passa, tudo vai, tudo finda e recomeça… que é bonita, é bonita…

Mas tenho visto tantas coisas!

Gente mutilada, operada, gente cheia de cicatrizes, de química, de amor, desfilando sutilmente com seus lenços coloridos escondendo a cabeça desconfigurada e os sorrisos pálidos tão tão perfeitos, na mão um terço, um resultado de exame, um vazio e o punho cerrado nessa luta incerta, inglória, descabida, imposta.

Mas é que a vida não se incomoda e não espera quem jaz semi adormecido nos leitos brancos dos hospitais cravados no mundo, quem vive conectado a fios e sondas e cabos que medem um pouco quanto resta da vida… A vida passa lá fora e os carros cortam os outros e passam faróis, a gente briga e reclama e pede um hamburguer, os homens roubam e trocam de cadeiras, crianças nascem, vamos comprar um cachorro, um vestido, um celular, ver a novela, guardar dinheiro, não, a vida não espera. Que horror, tudo apenas vai adiante, tsunami vida, dia e noite, tic tac, tudo passa.

E essa gente espera, só espera que tudo fique bem, quer apenas poder voltar à mais ridícula rotina de poder faze xixi em casa e limpar a própria bunda. Podia ser eu, você, talvez seja um vizinho, um parente, um amigo, cada nome uma história interrompida bem no meio, no começo, perto do fim. Um coitado, uma criança, um bon vivant, uma bailarina, professor, aposentado, gari, cozinheira, um milionário, desempregado, petista, cantor, padeiro, dentista, moto boy, doutor, tudo gente boa, gente estranha, gente besta, gente rica, gente triste, gente torta, gente fina, gente só, gente miserável, gente errada que só quer viver mais um dia, uma semana, uma vida, a puta da vida que segue e não espera.

Queria dizer que não é nada, mas é muita coisa, é a música pausada antes do melhor refrão, é o dormir incerto, o amanhecer duvidoso, a náusea, a febre, as interrogativas bem no meio da sentença. Quero dizer que é a vida, mas é outra coisa. É o questionamento de tudo, a lacuna maldita, um golpe, um medo, qualquer coisa,não, não vida.

Porque vida é viver. Câncer é outra coisa.

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