Adeus

(tenho esperança que não, que eu seja a seguir um cavalo correndo na beira do mar)

Meu querido, tenho mesmo que ir. Escrevo na madrugada e minha mente, apesar da vodca e cigarros consecutivos, parece mais aguçada nesse momento . Quero primeiro que saiba que estou tranquila, meu coração não bate mais aos solavancos no meu peito, faz apenas um tum-tum suave, como deve ser, tal o tique taque do relógio, comum, corriqueiro, constante. Sim, tenho que ir, pois já não caibo aqui nesse pequeno quadrado onde nós dois damos encontrões, cresci tanto quanto Alice quando comeu o pedaço de bolo, meus braços e pernas saem pelas portas e janelas, minha cabeça olha tudo de cima, de muito longe. Você sabe, eu sempre quis ir, mas a vida foi me segurando pelas beiradas, pela barra do vestido que quase nunca uso, foi me obrigando a ficar por alguma razão ou pendência. É isso, por um tempo coisas e pessoas pareciam precisar demais de mim e eu tive pena, tive uma estranha prévia saudade e confesso, me compadeci de largar meus gatos, o chá antes de dormir no silêncio da casa, um por de sol diferente todo dia ou os riscos de chuva pintando mal e mal esse céu sempre absurdo. Mas agora, meu querido, parece ser tão tarde! Talvez eu tenha ficado tempo demais e partir esteja ultrapassado, talvez eu tenha esquecido de algo, mas me certifiquei de deixar comida para o mês na despensa e a adega está completa com os vinhos que gosta, levará anos para que os deguste todos na varanda enquanto escuta a conversa intrigante dos grilos e sapos que habitam conosco. Vou arrastando o adeus para o final, pois agora é certo que devo ir. Estou tão cansada! Falta-me a graça daqueles que simplesmente vivem sem remoer memórias ou pensar demais no futuro, careço da inocência que carregava nos pés descalços e risos de jabuticabeiras no quintal da avó, necessito a impossível leveza de ser simplesmente, sem repudiar ou amar demais a vida. Perdi o encanto de viver e beber dessa vodca suja de morte me faz sentir apenas forte, decidida e feliz pela escolha. Já falta-me ar, tenho mesmo que ir. Espero que meu corpo não assuste demais, não se importe com a aparência que terei quando me encontrar, esteja certo de que serei eu mesma em outro lugar (tenho esperança que não, que eu seja a seguir um cavalo correndo na beira do mar). Já não tenho forças. Partirei sem mais, sem declarações de amor nem nada. Quero apenas ir. Fique até o fim e me conte depois.

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