Branca

Saiu logo da cama e enfiou o corpo ossudo e muito branco debaixo da ducha gelada. Choque, dor, angústia, calma. A mente veloz se precipitava dia afora enquanto o corpo submerso repelia o frio com arrepio, com enrijecimento e a sensação era de absoluto auto controle. Começar assim o dia era um ritual sagrado irracional, pois quando pensava sobre isso em outro momento qualquer, sentia-se insana e imbecil, mas curada.

Começou quando se livrou da camisa de força, o corpo livre sentiu-se vazio, desprotegido demais, tinha medo da queda livre, da falta que o chão podia de repente fazer. Os corredores da clínica pareciam intermináveis, as portas enfileiradas e os braços muito soltos caídos ao lado do corpo estranho. Ela tinha uma leve sensação de quem era à época em que foi solta: humana, sozinha, branca demais, triste. A primeira coisa que sentiu ao ser liberta, foi a falta do próprio abraço e passou tempos sentada no canto da cama agarrada aos joelhos, quase segura.

Dias, ou semanas, ou meses talvez, depois, os deuses de branco imaculado diminuíram seus remédios e ela ousou perambular pelo quarto vazio de quase tudo. Mas tudo tão incerto, os pés pisando o chão que podia fugir cedo ou tarde, as paredes pareciam a cada dia mais próximas, fechando um cerco inevitável, do teto pendia uma única lâmpada triste, estrela sem graça e além disso não havia mais nada.

Certa manhã ela acordou diferente, verificou que no teto haviam pequenas rachaduras que pareciam um anjo, um gato e uma bruxa. Percebeu a aranha balançando na teia, subindo e descendo, fazendo um abraço pra si. Sentou na cama e os pés sentiram o frio do chão, sua textura perfeitamente lisa e caminhou com essas sensações muito nítidas em sua mente. Nessa manhã branca, de temperatura incerta, tomou sua primeira ducha fria.

Ah, o horror misturado ao prazer, a tortura segurando a mão da delícia, a tragédia e o amor intenso, um misto implausível de sensações contraditórias e tão claras em suas particularidades… o corpo respondendo lindamente à sensação de frio, o corpo vivo, incrivelmente humano e desperto. Com o banho frio, ela sentiu que podia tudo, que estava acordada enquanto o mundo inteiro dormitava numa concha ridícula, inadequada. Vestiu-se, penteou-se, ganhou os corredores e saiu de braços soltos, pendendo ao lado do corpo como numa dança pacífica.

Hoje ela estava apenas atrasada para o trabalho. Saiu quase sorrindo do banho gélido, vestiu-se rapidamente, passou o cachecol vermelho escuro ao redor do pescoço como havia aprendido com alguém anos atrás, desceu correndo a escadaria do prédio, pisando o chão firme, os braços dançando estranhamente ao longo do corpo, o corpo esguio avançando pelo dia branco, a mente inquieta, aguçada, excitada, cheia de ideias, de absurdos e loucuras que desenharia e transformaria em arte. Não, ela não estava normal, nunca talvez, mas era uma humana inteira, feita de fragmentos de outras pessoas, de memórias embaralhadas, de branco imaculado e água fria.

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