Clandestina

Escreveria mil cartas que me despissem, passaria uma a uma por baixo da sua porta, para que o papel fosse a presença que não pude ser. Talvez você as empilhasse em alguma caixa que esconderia sob o assoalho a ser aberto com lâmina fina. Talvez elas passassem por lá uma existência tranquila, esquecidas, nunca lidas, mortas. Quem sabe sou uma louca querendo impor meu personagem na sua história já tão completa? Usaria uma cartola que me disfarçasse, maquiagem que me passasse batida pela tua cozinha de camisola e nada mais. Ocuparia teus sótãos e arrastaria móveis velhos de madrugada pra te acordar, amolar, instigar. Sou metáfora que você não entende, mas diz amar. Não sabe que amor é coisa inventada pra disfarçar o querer maldito que avassala a mente? Só quero ficar mais um pouco, mentir-te meu, aninhado em meu colo tão distante quanto os navios que não sei pra onde vão.

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