Companhia

O sofá da sala tinha aquele cheiro estranho de umidade e poeira e a casa gemia durante a noite, mas era onde eu dormia por achar o quarto muito assustador. Minha insônia se intensificava pelo vento que era a matilha de lobos na madrugada, o inverno parecia impiedoso aquele ano. Eu tinha medo, feito criança me encolhia e abraçava meu corpo. De olhos abertos eu encarava a escuridão. Quando eu dormia, acordava sempre aos sobressaltos com um estrondo de algo que caía, um grunhido, uma tossida. Era um medo infantil do escuro da noite, nada mais.No amanhecer eu juntava várias garrafas vazias espalhadas pela casa e estudava tentando ignorar os ruídos que ele fazia enquanto dormia no quarto quase sem mobília.

O velho era calado, quase nunca dizia nada e parecia um hóspede estranho em sua própria casa, um fantasma preso a terra por elos imaginários. Bebia durante toda a noite, andava, murmurava quase palavras, às vezes chorava. Ao amanhecer dormia e o dia passava por ele num instante até que ele levantasse o corpo vacilante em meio a sussurros e desvarios para comer qualquer coisa, torradas, ovos, quase nada.

Sua casa era meu refúgio e uma espécie de trabalho fácil para o qual fui contratada: eu tinha apenas que estar lá e viver por entre os empregados que mantinham a casa limpa e a dispensa completa, ficar de olho nele, fazer companhia. Tentei algumas vezes fazer amizade com o velho, amizade que resultou em muitos monólogos feitos por mim diante de uma platéia que apenas sorria e mal piscava. Não sei se ele me entendia, ele olhava de algum lugar distante como se eu fosse uma TV ligada num programa ruim. E ele bebia, garrafas e garrafas da bebida que ele quase acariciava com os lábios. Tinha o olhar triste e o contraditório sorriso dos loucos nos lábios. De vez em quando eu o ouvia roncar: ‘merda!’ e essa era praticamente a única palavra que eu entendia.

Ele era bom e manso, cultivava aranhas nas poucas horas em que passava lúcido e acordado. Capturava moscas com habilidade descomunal e as prendia em teias, as quais os empregados estavam terminantemente proibidos de tocar. Era de natureza contemplativa, passava horas olhando o teto, ou pela janela, ou à espera que alguma aranha sentisse fome para devorar a refeição presa na teia.

A casa era a única propriedade de uma rua sem saída, cercada por árvores imensas que a cobriam e abraçavam. Era imensa e vazia. Seus poucos móveis eram velhos e mórbidos. No sótão, trancafiadas, estavam centenas de outras mobílias cobertas por lençóis e poeira, num cenário que poderia ser de terror, mas era apenas de um silêncio sufocante.

Ele era alto, tinha cabelos lisos e impetuosos, que se espalhavam por seu rosto e caíam sobre seus olhos. Seu caminhar era lento e a cada passo parecia necessário que ele fizesse um ensaio do próximo. Seus olhos eram algo de cinza embora raramente os cabelos tivessem permitido que eu os visse. Suas mãos eram finas e delicadas. As mesmas mãos que por noites sem fim rabiscavam furiosamente folhas e folhas de papel de bloco, de onde jorravam palavras aos milhares que eu não sabia ler, decifrar. 
 Nas noites em que ele escrevia geralmente eu conseguia dormir. Talvez fosse o som que o lápis fazia rasgando o papel em sua fúria, talvez fosse o fato de saber que ele estava ocupado e de certa maneira, parecia feliz. Nessas noites ele não dizia ‘merda’, ele apenas respirava fortemente e parava apenas para mais um trago de sua bebida.

Certa vez, bem no meio da noite,caminhou até o sofá onde eu fingia dormir, me olhou longamente como se me notasse pela primeira vez e perguntou: ‘Você está perdida?’
 Sentei rapidamente e ajeitei a mecha de cabelos que me cobria os olhos e meio assombrada, respondi: ‘Acho que sim.’
 ‘Eu também.’ E arrastou as chinelas para a cozinha.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.